A TwitchCon, o grande evento anual da plataforma de streaming, está enfrentando uma crise de reputação entre seus criadores de conteúdo mais influentes. A onda de cancelamentos começou a ganhar força quando Asmongold, um dos streamers mais populares do mundo, anunciou publicamente que não comparecerá à edição de 2025. Sua justificativa foi direta e contundente: ele classificou o evento como um "zoológico" e expressou preocupações genuínas com a segurança, citando incidentes de agressão e lesões que marcaram edições anteriores. Essa decisão não é um caso isolado, mas sim o sintoma de um mal-estar crescente na comunidade.
O "zoológico" e as preocupações com segurança
Quando Asmongold usou a palavra "zoológico", ele capturou um sentimento que muitos fãs e criadores vêm expressando nas redes sociais. A experiência na TwitchCon, especialmente para streamers de grande porte, pode ser avassaladora. Imagine ser cercado por centenas, às vezes milhares, de fãs em um espaço fechado, com segurança limitada e uma logística que nem sempre prioriza o bem-estar dos talentos. Não é surpresa que alguns se sintam como animais em exibição.
Mas vai além do simples desconforto. Incidentes de assédio e até agressões físicas foram relatados em convenções passadas, criando um ambiente de apreensão. Para um criador que valoriza sua privacidade e segurança pessoal, o risco pode simplesmente não valer a recompensa. Afinal, qual é o preço de um autógrafo ou de uma foto? A paz de espírito? A sensação de estar seguro em seu próprio trabalho?
Uma tendência preocupante para a Twitch
O que torna a situação mais séria é que Asmongold está longe de ser o primeiro. Nos últimos meses, uma lista crescente de nomes de peso anunciou que também pulará o evento. Cada cancelamento público serve como um voto de desconfiança na capacidade da Twitch de gerenciar seu próprio evento principal. E isso é um problema enorme para a marca.
A TwitchCon não é apenas uma convenção; é a vitrine da plataforma, o momento de celebrar a comunidade e fortalecer os laços entre streamers, fãs e a empresa. Quando os embaixadores mais visíveis dessa comunidade começam a se afastar, a mensagem enviada é poderosa. Será que o modelo atual do evento está desatualizado? A plataforma prioriza o espetáculo e a venda de ingressos em detrimento da experiência humana dos participantes?
Na minha opinião, estamos vendo o choque entre um modelo de negócios que busca maximizar o público e a receita, e a realidade humana dos criadores que são o coração desse negócio. A pressão por meet-and-greets intermináveis, painéis lotados e uma presença constante nas redes sociais durante o evento pode ser exaustiva. Muitos streamers já lidam com burnout em suas transmissões regulares; a TwitchCon pode sentir-se como uma extensão intensificada e física dessa pressão.
O futuro dos eventos de streaming
Essa série de cancelamentos levanta uma questão fundamental: qual é o futuro dos eventos ao vivo para streamers? A pandemia nos mostrou que conexões profundas podem ser feitas virtualmente, através de streams colaborativas, eventos online e interações em comunidades digitais. Para alguns criadores, o custo-benefício de viajar, se hospedar e se submeter ao caos de uma convenção simplesmente não se justifica mais.
Algumas plataformas concorrentes e organizadores independentes estão experimentando com formatos alternativos: eventos menores e mais íntimos, convenções com ingressos limitados para controlar o público, ou até mesmo experiências híbridas que combinam elementos presenciais e online. A recusa de figuras como Asmongold pode ser o catalisador que força a Twitch a repensar radicalmente a fórmula da TwitchCon. Talvez seja hora de menos focar em ser o maior evento e mais em ser o melhor – um lugar onde criadores e fãs se sintam genuinamente acolhidos e seguros.
E você, como fã ou espectador, como se sente sobre isso? A experiência vale o ingresso e a viagem se seus streamers favoritos não estiverem lá? A magia da TwitchCon está nos talentos no palco ou na energia da comunidade reunida? São perguntas que a própria Twitch terá que responder, e rápido, se quiser salvar a coroa do seu evento principal.
E essa insatisfação não vem apenas dos streamers de elite. Conversas em fóruns e comunidades menores revelam um sentimento semelhante entre criadores de médio porte. Para eles, a TwitchCon muitas vezes representa um investimento financeiro significativo – passagens aéreas, hospedagem, tempo longe das streams – com um retorno incerto. "Você gasta centenas, às vezes milhares de dólares, para ficar em um estande por horas, esperando que alguém pare para conversar," compartilhou um streamer de jogos indie que preferiu não se identificar. "Enquanto isso, os grandes nomes têm filas que dobram a esquina. Às vezes você se pergunta: estou aqui para network ou só para fazer número?"
O impacto econômico e a desconexão da plataforma
A decisão de um criador como o Asmongold tem um peso econômico real. Sua presença atrai milhares de fãs que compram ingressos, reservam hotéis e gastam na cidade-sede. Sem essas estrelas, o valor percebido do evento diminui para os fãs. E isso cria um efeito cascata: menos fãs podem significar menos exposição para os streamers menores que ainda vão, tornando o evento menos atrativo para todos os envolvidos. É um ciclo perigoso.
O que me chama a atenção, porém, é a aparente desconexão entre o discurso da Twitch sobre "comunidade" e a experiência real que estão proporcionando. A plataforma frequentemente fala em empoderar criadores, mas o modelo da TwitchCon parece replicar dinâmicas de celebridade tradicionais e insustentáveis. Será que eles estão ouvindo os feedbacks que vêm não só dos cancelamentos, mas das conversas cotidianas nos chats e no Twitter? Em minha experiência, quando uma empresa para de ouvir seus usuários-chave, é só uma questão de tempo até que problemas estruturais apareçam.
Alguns apontam para a San Diego Comic-Con como um exemplo de como gerenciar um evento massivo com múltiplas estrelas. Mas há uma diferença crucial: a maioria dos artistas e atores na Comic-Con estão lá para promover projetos específicos, muitas vezes com contratos e estruturas de segurança bem definidas pelas studios. Para um streamer, a TwitchCon *é* o projeto. Eles não estão promovendo um filme; eles estão promovendo a si mesmos, sua marca pessoal, e isso os coloca em uma posição muito mais vulnerável.
Alternativas que já estão surgindo
Enquanto a Twitch parece hesitar, o ecossistema não para. Estamos vendo o florescimento de eventos alternativos, muitos organizados pelos próprios criadores. Alguns exemplos são interessantíssimos:
- Eventos temáticos e nichados: Encontros focados em um único jogo ou gênero, como torneios de Valorant ou maratonas de RPG, que atraem um público mais coeso e gerenciável.
- "Meet-ups" organizados por comunidades: Em vez de um evento centralizado, fãs de um streamer específico se organizam via Discord para se encontrar em um bar ou parque, criando uma atmosfera mais casual e controlada.
- Convenções de criadores independentes: Eventos como a PAX, que não são propriedade de uma única plataforma, onde streamers podem participar em seus próprios termos, como parte de um painel maior da indústria de games.
Essas alternativas sugerem que o desejo por conexão presencial ainda existe, mas a forma como a TwitchCon tenta canalizá-lo pode estar desalinhada. A necessidade não é de um estádio lotado, mas de espaços onde conversas reais possam acontecer. Onde um fã possa realmente falar com seu criador favorito por mais de 30 segundos sob pressão de uma fila gigante atrás.
E há também a questão da monetização direta. Um streamer pode fazer uma stream especial de 4 horas de seu quarto de hotel e arrecadar mais em doações e assinaturas do que o custo total da viagem. Do ponto de vista puramente comercial, a pergunta se torna: por que passar pelo estresse? A Twitch precisa oferecer um valor que vá além do que o criador já pode conseguir sozinho, de casa. Até agora, a resposta para essa pergunta está ficando cada vez mais fraca.
Um chamado para a ação – mas de quem?
O movimento iniciado por Asmongold e outros é, no fundo, um feedback brutalmente honesto. Está dizendo à Twitch: "O produto que você está vendendo para nós, seus parceiros, não é mais bom o suficiente." A bola agora está com a empresa. Eles vão tratar isso como um problema de relações públicas, tentando substituir os nomes grandes que cancelaram com outros? Ou vão encarar a raiz do problema?
Mudanças logísticas concretas poderiam fazer uma diferença enorme. Que tal sessões de autógrafos com ingressos cronometrados e limitados? Salas verdes verdadeiramente seguras e acessíveis? Um sistema de agendamento para encontros entre criadores menores e fãs? Limites de capacidade por corredor para evitar aglomerações perigosas? São soluções práticas, mas que exigem investimento e uma vontade de priorizar a experiência sobre a capacidade máxima.
O silêncio da Twitch, nesse momento, é quase ensurdecedor. Enquanto a comunidade debate fervorosamente, uma declaração oficial ou um plano transparente de mudanças para a TwitchCon 2025 poderia acalmar muitos ânimos. A falta dela só alimenta a sensação de que a plataforma está desconectada. Afinal, se eles não conseguem gerenciar um evento de três dias, que confiança podemos ter em seu gerenciamento dos complexos desafios da plataforma como um todo?
O que está em jogo vai além de uma convenção. É a relação de confiança entre uma plataforma e os criadores que constroem seu valor todos os dias. Asmongold não cancelou só um voo e uma reserva de hotel; ele, conscientemente ou não, acendeu um holofote sobre uma fissura que já estava lá. Agora, todos estamos olhando. O que a Twitch vai fazer com essa luz?
Fonte: Dexerto



