O anúncio do fim do circuito ESL Impact, um dos principais torneios de Counter-Strike para jogadoras, pegou a comunidade de surpresa. Mas, e agora? Em meio à incerteza, duas gigantes brasileiras do cenário, MIBR e FURIA, foram rápidas em se posicionar, garantindo que seus compromissos com as equipes femininas permanecem firmes. É um sinal importante de resiliência, mas também levanta questões sobre o futuro do suporte às jogadoras em um ecossistema que, convenhamos, ainda está encontrando seu caminho.
O vácuo deixado pela ESL e a resposta imediata
Quando a ESL anunciou que encerraria o circuito Impact após a temporada 2024, o choque foi inevitável. Afinal, esse era um dos poucos espaços estruturados e com visibilidade global dedicados exclusivamente ao cenário feminino. A notícia gerou uma onda de preocupação legítima: sem esse palco, o investimento das organizações iria murchar? A resposta da MIBR e da FURIA foi um alívio imediato, mas também um ponto de partida para uma conversa mais profunda.
Ambas as organizações emitiram comunicados praticamente em uníssono, algo que não parece coincidência. A MIBR, por exemplo, afirmou que "seguirá investindo e apoiando" sua equipe feminina, destacando o sucesso recente das garotas. Já a FURIA foi na mesma linha, reforçando seu "compromisso de longo prazo" com o elenco feminino. São declarações importantes, que acalmam os ânimos no curto prazo. Mas você já parou para pensar no que "investir" realmente significa daqui para frente, sem um circuito consolidado como âncora?
Além das palavras: os desafios práticos no horizonte
Falar é fácil, difícil é fazer. E aí é que a coisa complica. O fim da ESL Impact não é só sobre cancelar um campeonato; é sobre desmontar uma estrutura inteira de competição que dava ritmo, calendário e propósito às equipes. O que vai acontecer com a frequência de torneios de alto nível? Quem vai preencher esse vácuo de visibilidade e premiação? São perguntas que nem a MIBR nem a FURIA – nem ninguém, na verdade – têm resposta pronta.
Na minha experiência acompanhando esports, vejo que o risco real não é necessariamente as organizações abandonarem as jogadoras de um dia para o outro. O perigo é mais sutil: um esvaziamento gradual. Sem uma rota clara de crescimento e exposição, os investimentos podem ser redirecionados, os patrocínios podem ficar mais escassos e o entusiasmo das próprias atletas pode ser afetado. Manter uma equipe competitiva custa caro – salários, estrutura, viagens – e sem um retorno claro em forma de títulos e *spotlight*, a conta pode não fechar para os gestores.
Uma janela de oportunidade inesperada?
Agora, vamos tentar olhar por outro ângulo. Talvez essa crise seja, na verdade, uma oportunidade disfarçada. A dependência de um único grande organizador (a ESL, no caso) nunca é algo saudável para uma cena. Isso centraliza o poder e torna todo o ecossistema frágil. O fim do Impact pode forçar uma reinvenção. E quem sabe as próprias organizações, como FURIA e MIBR, não possam se unir para criar algo novo?
Imagine se elas, junto com outras *orgs* internacionais que também mantêm times femininos, colaborassem para formar uma liga alternativa ou uma série de torneios independentes. Seria um movimento ousado, mas não sem precedentes. Afinal, a comunidade de CS sempre foi resiliente e criativa. O que me preocupa, no entanto, é o tempo. Essas transições são lentas, e o tempo de carreira de uma jogadora é curto. Enquanto uma nova solução não surge no horizonte, as atletas ficam em um limbo competitivo. É um quebra-cabeça complexo, e peças de declaração de apoio, por mais bem-intencionadas que sejam, são só o começo da montagem.
O caminho à frente é nebuloso. A postura da MIBR e da FURIA é um primeiro passo crucial, um sinal de que a base não vai ruir da noite para o dia. Mas o trabalho pesado está apenas começando. A pressão agora está sobre os ombros de toda a comunidade – organizações, outras empresas de esports, a mídia e os fãs – para construir algo que não apenas substitua o Impact, mas que, quem sabe, possa até superá-lo. A bola está rolando, mas o gol ainda está longe de ser definido.
E falando em colaboração, você já parou para pensar no papel que outras ligas e organizadores menores podem desempenhar nesse momento? Enquanto o foco está nas gigantes, há todo um ecossistema de torneios regionais e online que poderia ser fortalecido. A BLAST, por exemplo, já demonstrou interesse no cenário feminino em outros títulos. A PGL, que recentemente assumiu parte do circuito principal, poderia ver aí uma oportunidade. Mas será que o interesse comercial é suficiente para justificar o investimento? É uma equação complicada, onde a visibilidade das transmissões e o engajamento dos fãs pesam tanto quanto o patrocínio direto.
O exemplo que vem de fora: lições de outras regiões
Vale a pena dar uma olhada no que acontece em outras partes do mundo. A Europa, por exemplo, sempre teve uma cena feminina mais pulverizada, com várias ligas menores e até mesmo times mistos em divisões de base. Nos EUA, a situação é diferente – há uma dependência maior de ligas estudantis e de iniciativas de grandes empresas de jogos. O que isso nos ensina? Que não existe uma fórmula mágica. O modelo que funcionou para a ESL Impact, centralizado e global, pode não ser replicável por outro ator do dia para a noite.
Na minha opinião, o Brasil tem uma característica única que pode ser uma vantagem ou uma desvantagem: a paixão nacional pelo jogo. A base de fãs é enorme e engajada. Lembro de ver transmissões de torneios femininos com milhares de espectadores, um número que muitas ligas menores de CS masculino dariam qualquer coisa para ter. Esse interesse do público é um ativo que não pode ser subestimado. É o que pode atrair patrocinadores mesmo em um cenário de incerteza. Mas, convenhamos, paixão não paga conta. É preciso transformar essa audiência em receita sustentável, e aí a história fica mais complexa.
A voz das protagonistas: o que as jogadoras pensam?
Toda essa discussão seria incompleta sem considerar a perspectiva mais importante: a das próprias jogadoras. Enquanto as organizações emitem comunicados e nós, da imprensa, especulamos sobre o futuro, elas são as que vivem na pele a instabilidade. Conversas informais que tenho com atletas de várias equipes revelam um misto de apreensão e esperança. A apreensão é óbvia – muitas construíram suas carreiras em torno do calendário do Impact. A esperança, por outro lado, vem de uma certa fadiga com o formato.
"Às vezes sentíamos que éramos um complemento, não a atração principal", me confessou uma jogadora que preferiu não se identificar. "O circuito era importante, mas a sensação era de que estávamos sempre um degrau abaixo." Esse sentimento é revelador. Talvez a ruptura force a criação de algo que seja verdadeiramente *das* jogadoras, e não apenas *para* as jogadoras. Um espaço onde a narrativa, a produção e a valorização sejam construídas com uma lógica diferente. É um sonho ambicioso, eu sei. Mas em um momento de recomeço, por que não sonhar alto?
E então surge a pergunta do financiamento. Sem a ESL bancando a estrutura, quem vai pagar a conta? Aqui, modelos híbridos podem entrar em cena. Assinaturas de fãs (algo como um *Patreon* coletivo para a liga), merchandising mais agressivo, parcerias com marcas fora do ecossistema tradicional de esports – as opções são muitas, mas todas exigem um trabalho de gestão que muitas organizações não estão acostumadas a fazer. A FURIA, com sua marca forte no varecio de produtos, talvez tenha uma vantagem. A MIBR, com seu legado histórico, outra. O desafio é unir forças em vez de competir por migalhas de um mesmo bolo que, no momento, parece estar encolhendo.
O papel da mídia e dos criadores de conteúdo
Não podemos ignorar o poder da narrativa. Enquanto aguardamos movimentos concretos das organizações, a mídia especializada e os streamers têm uma responsabilidade enorme. Manter o cenário feminino em evidência, mesmo sem os holofotes de um campeonato global, é crucial. Isso significa cobrir mais do que apenas resultados – é preciso contar histórias, apresentar as jogadoras, analisar suas partidas com a mesma profundidade dedicada aos times masculinos.
Vejo alguns canais já fazendo isso, mas é uma exceção, não a regra. A cobertura costuma ser esporádica, concentrada apenas nos momentos de pico dos torneios. E aí está o ponto: sem a ESL Impact gerando esses "momentos de pico" regulares, a tendência é que a cobertura se torne ainda mais irregular. É um ciclo vicioso que precisa ser quebrado. A iniciativa tem que partir de nós também. Incluir uma análise ou uma notícia sobre o feminino na rotina de conteúdo, mesmo quando não há um torneio grande rolando, faz toda a diferença para manter o interesse vivo.
No fim das contas, o anúncio da ESL funcionou como um teste de estresse para todo o ecossistema do CS feminino. As declarações da MIBR e da FURIA foram o primeiro sinal de que a estrutura principal aguentou o tranco inicial. Mas o terremoto ainda não passou. Os aftershocks – a falta de calendário, a busca por novos modelos, a incerteza financeira – são o que vão definir se a cena vai se reerguer mais forte ou se vai definhar aos poucos. O próximo movimento não virá de um único comunicado, mas de uma série de ações pequenas, persistentes e, muitas vezes, invisíveis. A construção de alternativas é um trabalho de formiguinha, e está apenas começando.
Fonte: Dust2

