A ESL, uma das principais organizadoras de competições de esports do mundo, anunciou nesta semana o fim do circuito Impact, seu torneio dedicado exclusivamente a equipes femininas de Counter-Strike. A decisão, que pegou muitos fãs e profissionais de surpresa, significa que a atual temporada será a última para a competição que serviu como uma das principais plataformas de visibilidade para jogadoras no cenário competitivo. A notícia levanta questões importantes sobre o futuro do suporte institucional ao CS feminino e deixa um vácuo significativo no calendário competitivo.
O fim de uma era e o impacto no cenário
O circuito ESL Impact foi lançado em 2022 com a promessa de criar um "caminho sustentável" para jogadoras de CS:GO, oferecendo premiações significativas e transmissões de alta qualidade. Durante suas três temporadas, o torneio se consolidou como o palco de elite para equipes como a Nigma Galaxy, a FURIA fe e a GODSENT fe, que dominaram as competições. A ESL justificou a decisão citando uma "reavaliação estratégica" de seus investimentos, mas, sinceramente, a explicação soa um pouco vaga para quem acompanha de perto.
O que isso significa na prática? Bem, de repente, dezenas das melhores jogadoras do mundo ficam sem seu torneio principal. A ESL Impact não era apenas mais uma competição; era um ponto fixo no calendário, com etapas regionais e uma grande final mundial que garantia visibilidade constante. Sem ele, o caminho para a profissionalização fica muito mais nebuloso. Onde essas atletas vão competir regularmente? Como vão manter a rotina de treinos e a exposição necessária para atrair patrocínios?
O vácuo deixado e as reações da comunidade
A notícia foi recebida com uma mistura de desapontamento e preocupação por parte de jogadoras, treinadores e comentaristas. Muitos apontam que, apesar dos avanços, o cenário feminino ainda depende criticamente de iniciativas patrocinadas por grandes organizadoras como a ESL para existir em um nível profissional. Sem esse suporte estrutural, há um risco real de regressão.
Algumas vozes na comunidade questionam: será que o mercado simplesmente não sustentou o investimento? Ou a ESL está redirecionando recursos para outros projetos? É difícil não ficar um pouco cínico. Por um lado, a organização sempre destacou seu compromisso com a diversidade. Por outro, a decisão prática de encerrar o principal torneio do gênero conta uma história diferente. A sensação que fica é que o "Impact" cumpriu um ciclo, mas foi interrompido antes de atingir sua maturidade plena.
E olha, não é como se não houvesse público. As finais do Impact costumavam atrair dezenas de milhares de espectadores simultâneos. O engajamento estava lá. O que talvez faltasse era um modelo de negócio que transformasse essa audiência fiel em receita sustentável para a organizadora. É um desafio complexo, comum a muitos nichos dentro dos esports.
E agora? O futuro do CS feminino pós-ESL
Com o fim do Impact, a bola agora está com outras organizadoras, ligas e até com as próprias equipes. A ESL mencionou que continuará a "apoiar a inclusão" através de outros meios, mas não detalhou quais. Enquanto isso, torneios independentes e ligas regionais ganham uma importância ainda maior. A pergunta que não quer calar é: eles terão a escala e os recursos para preencher o vazio deixado por uma gigante como a ESL?
Alguns apostam em uma fragmentação do cenário, com mais torneios menores e regionais. Outros esperam que uma nova organizadora surja para assumir o papel de âncora. Há também a possibilidade, embora remota, de uma integração mais profunda com os circuitos mistos ou "abertos", mas as barreiras estruturais para isso ainda são enormes. Minha impressão é que estamos diante de um momento de transição incômoda. O crescimento do CS feminino nunca foi linear, e este é mais um obstáculo no caminho.
O que é inegável é que a base construída nos últimos anos não vai simplesmente desaparecer. O talento está aí, a paixão pelo jogo também. A comunidade que se formou em torno do Impact – jogadoras, staff, fãs – agora precisa se reorganizar. Talvez, ironicamente, o fim deste circuito force uma nova conversa sobre modelos mais sustentáveis e independentes. Quem sabe não saia algo mais forte disso? Só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: o último capítulo do ESL Impact ainda está por ser escrito, e as jogadoras vão querer encerrar essa era com chave de ouro.
Mas vamos olhar para os números, porque eles contam parte da história que a justificativa corporativa não conta. A premiação total do circuito Impact na Season 4, a última, foi de $500,000. Parece um valor sólido, não é? Só que, quando você coloca isso ao lado dos milhões de dólares dos torneios principais da ESL Pro League ou até mesmo de algumas competições regionais masculinas, a disparidade fica gritante. A pergunta que fica é: esse investimento era visto como um custo de marketing para a imagem da ESL como uma organização inclusiva, ou como um produto genuíno com potencial de crescimento próprio? A resposta, pelo visto, inclinou-se para a primeira opção.
E isso nos leva a um ponto delicado, mas crucial: a dependência. O cenário feminino de CS, em sua busca por legitimidade e estrutura, acabou se apoiando fortemente em iniciativas de grandes players como a ESL e a BLAST (que tem seu próprio torneio feminino, o BLAST Rising). É um pacto faustiano, de certa forma. Você ganha visibilidade instantânea e produção de alto nível, mas fica vulnerável às mudanças de estratégia dessas empresas. Quando a prioridade corporativa muda, o chão some. Será que o caminho para a sustentabilidade passa por uma maior independência, mesmo que isso signifique começar com um patamar mais modesto?
O papel das organizações de equipes e o "efeito dominó"
A reação das próprias organizações que mantinham elencos femininos foi um termômetro importante. Para clubes como a FURIA, a GODSENT ou a Nigma Galaxy, o Impact era o pilar central de sua programação competitiva feminina. De repente, o principal objetivo da temporada desaparece. O que uma diretoria de esports faz nessa situação? Redireciona o orçamento? Investe em outros jogos? Ou, na pior das hipóteses, dissolve o time?
Eu já vi isso acontecer em outros nichos de esports. Um torneio âncora fecha, as organizações começam a hesitar, os patrocínios minguam e, em pouco tempo, toda uma cena definha. É um efeito dominó assustador. A boa notícia é que, até agora, as principais organizações se manifestaram publicamente reafirmando seu compromisso com as jogadoras. Mas palavras são uma coisa; a renovação de contrato no final do ano, com um calendário vazio pela frente, é outra completamente diferente. A pressão agora está sobre essas orgs para que não apenas mantenham as equipes, mas que se tornem agentes ativos na criação de novas oportunidades.
Aliás, isso me faz pensar: será que não é a hora de uma associação ou liga gerida pelas próprias equipes? Um modelo parecido com o que vemos na VCT Game Changers de Valorant, que tem um apoio forte da Riot, mas com uma identidade própria muito forte. Sem uma gigante como a ESL no comando, a autonomia poderia ser maior, e a divisão de receitas, mais justa. Claro, é um projeto ambicioso que requer capital inicial e uma governança impecável, mas a necessidade aguça o engenho, como dizem.
O elefante na sala: a integração com os circuitos "abertos"
Nenhuma discussão sobre o futuro é completa sem tocar nesse tema espinhoso. Muitos fãs sempre perguntam: "Por que não simplesmente deixam as mulheres competirem nos torneios normais?" A resposta nunca foi simples. Não se trata apenas de habilidade – há jogadoras no Impact que poderiam, sim, disputar espaço em tier 2 masculino. O problema é estrutural.
Imagine uma jogadora de 17 anos, talentosa, tentando entrar no cenário. Ela compete em torneios abertos online, onde a cultura tóxica e o assédio ainda são, infelizmente, uma realidade frequente. Muitas desistem antes mesmo de mostrar seu potencial. O circuito feminino oferecia um ambiente seguro para o desenvolvimento, uma escada para subir antes de enfrentar o caos dos opens. Tirar esse degrau é jogar essas novas promessas no lago dos piranhas. A integração é um objetivo nobre, mas precisa ser feita com pontes, não com um salto no escuro.
E tem outro lado prático: a economia das equipes. Uma org contrata um time masculino aspirante com a esperança de que ele qualifique para um RMR e, quem sabe, um Major. O retorno financeiro potencial é astronômico. Já um time feminino, no modelo atual, tinha seu teto definido pela premiação do Impact. Sem esse teto garantido, o cálculo de risco para um investidor muda completamente. Por que investir $X em um time feminino se não há um campeonato de $Y no horizonte? A lógica é fria, mas é a que move o mercado.
O que me deixa um pouco esperançoso, mesmo nesse cenário cinza, é a resiliência que essa comunidade já demonstrou. As jogadoras do CS feminino estão acostumadas a lutar por espaço desde sempre. Elas não começaram com a ESL Impact e, muito provavelmente, não vão acabar com ele. Já estão surgindo conversas nas redes sociais, grupos fechados de Discord, tentativas de organizar torneios comunitários. Há uma semente de auto-gestão aí.
Talvez o legado mais importante do Impact não tenha sido o troféu ou o cheque, mas a prova de conceito. Ele mostrou, sem sombra de dúvida, que há público, há talento de elite e há histórias incríveis para serem contadas. Agora, o desafio é descobrir quem vai pegar essa bola – ou se a comunidade vai ter que fabricar uma nova bola e um novo campo de jogo. Os próximos meses serão de observação atenta, de muito rumor e, esperamos, de anúncios inesperados que possam reacender a chama. A partida está longe de terminar; apenas entrou em um intervalo não programado.
Fonte: Dust2

