Quando se fala em campeonatos de esports no Brasil, é comum que o Rio de Janeiro venha primeiro à mente, especialmente após a realização do primeiro Major de CS:GO no país. Mas a história dos eventos de esportes eletrônicos Brasil é mais rica e geograficamente diversa do que muitos imaginam. Vamos relembrar alguns dos principais torneios que marcaram o cenário competitivo nacional, mostrando que o país já foi palco de grandes batalhas muito antes do IEM Rio se tornar um marco anual.

Os primeiros grandes eventos: Belo Horizonte e São Paulo nos holofotes

Antes da era Rio, outras capitais brasileiras já abriam suas portas para o mundo dos esports. Em 2018, Belo Horizonte recebeu a ESL One Belo Horizonte, um torneio de Counter-Strike: Global Offensive que contou com oito equipes. O Brasil foi representado pela lendária SK Gaming e pela "Não Tem Como", equipe de Gabriel "fnx" Toledo. A jornada brasileira, no entanto, foi truncada: a Não Tem Como foi eliminada na fase de grupos, enquanto a SK caiu nas semifinais para a europeia MOUZ. O título ficou com a poderosa FaZe Clan.

Já em 2019, São Paulo voltou a sediar um torneio de alto nível com a BLAST Pro Series São Paulo. O formato era diferente, com seis equipes disputando em um sistema de pontos corridos seguido de final. O MIBR, na época a principal esperança nacional, teve uma campanha frustrante, perdendo todos os seus jogos e terminando em último lugar. A vitória ficou com a dinastia dinamarquesa da Astralis, que na época dominava o cenário mundial. Foi um lembrete difícil de como o caminho para o topo nos competições de esports realizadas no Brasil pode ser árduo para as equipes locais.

A consolidação do Rio e a era dos Majors

O ano de 2019 também viu o Rio de Janeiro entrar de vez no mapa com a DreamHack Open Rio. O torneio teve uma forte presença brasileira, com FURIA, Sharks, INTZ, W7M e Redemption POA. A FURIA, que começava a ascender como nova potência nacional, fez uma campanha sólida e chegou à grande final. No entanto, a vitória escapou por pouco, com a AVANGAR, liderada por Dzhami "Jame" Ali, levando o troféu. Foi um gostinho do que estava por vir.

O grande salto, no entanto, aconteceu em 2022. O Brasil não só recebeu um grande torneio, mas o ápice da competição de CS:GO: um Major. O IEM Rio Major 2022 foi um marco histórico. A FURIA, carregando as esperanças de uma nação, teve uma campanha memorável, eliminando a NAVI de Oleksandr "s1mple" Kostyliev nas quartas de final. A semifinal contra a HEROIC foi eletrizante, mas terminou em derrota. O título ficou com a Outsiders. Apesar da não conquista, o evento provou que o Brasil tinha estrutura e paixão de sobra para sediar o mais alto nível de competição. A energia do público na Jeunesse Arena se tornou lendária.

E o Rio não parou por aí. A ESL transformou o evento em uma parada fixa no calendário, com as edições de 2023 e 2024 da IEM Rio. Em ambas, a FURIA se consolidou como a principal força brasileira, sendo a única equipe local a alcançar os playoffs. Em 2023, caíram para a HEROIC nas quartas, e em 2024, foram parados pela MOUZ na semifinal. Os títulos foram para Team Vitality e Natus Vincere, respectivamente. Você já parou para pensar no que falta para uma equipe brasileira quebrar essa barreira e vencer em casa?

E o futuro? A IEM Rio 2026 e além

Após um ano de 2025 sem grandes torneios de Counter-Strike no país – uma pausa que deixou muitos fãs ansiosos –, o circuito retorna em 2026. A IEM Rio 2026 está marcada para abril, trazendo 16 equipes de elite para disputar o título. Desta vez, o Brasil terá três representantes diretos: FURIA, Legacy e RED Canids. Será que a maior representatividade pode ser a chave para finalmente vermos um time brasileiro levantar o troféu em solo nacional?

Olhando para trás, fica claro que o histórico de campeonatos de games no Brasil é uma tapeçaria de evolução. Começamos com eventos pontuais em várias cidades, passamos pela consolidação de um polo no Rio de Janeiro com a conquista do direito de sediar um Major, e agora vivemos a era de um torneio Tier-1 anual. Cada evento desses não só trouxe entretenimento de alto nível, mas também inspirou uma nova geração de jogadores, criadores de conteúdo e profissionais da indústria. A infraestrutura melhorou, a cobertura da mídia se expandiu e o público amadureceu.

E você, qual foi o momento mais marcante que você viveu ou acompanhou nesses campeonatos de esports no Brasil? A eliminação da NAVI pela FURIA no Major de 2022? A final da DreamHack Rio em 2019? A atmosfera única de cada evento prova que o Brasil tem um lugar especial no coração do esporte eletrônico global. Resta saber quando a nossa vez no topo do pódio, em casa, finalmente chegará.

Mas a história não se resume apenas a Counter-Strike, claro. Embora o FPS da Valve tenha sido o grande catalisador para eventos de grande porte, outras franquias também escreveram seus capítulos em solo brasileiro. O cenário de League of Legends, por exemplo, teve seu momento de glória internacional aqui em 2017, com a realização do Mid-Season Invitational (MSI) no Rio de Janeiro. O evento reuniu as melhores equipes do mundo naquele momento, incluindo a SK Telecom T1 do lendário Lee "Faker" Sang-hyeok. O Ginásio do Maracanãzinho ficou lotado para ver a disputa, e apesar da equipe brasileira, RED Canids, não ter ido longe, a experiência mostrou o apetite do público brasileiro por competições de alto nível em outros gêneros.

E quem se lembra do Brasil Game Show (BGS) não como apenas uma feira, mas como um palco competitivo? Por anos, o evento em São Paulo foi muito mais do que um local para lançamentos e cosplays. Ele sediou etapas importantes de circuitos mundiais, como a Intel Extreme Masters (IEM) em edições anteriores, trazendo jogos como StarCraft II e League of Legends para disputas acirradas. Foi na BGS que muitos fãs tiveram seu primeiro contato presencial com astros internacionais do esporte. A atmosfera era única – um misto de feira comercial e arena de batalha eletrônica, com o cheiro de pizza e o som de teclados mecânicos preenchendo o ar.

Os desafios por trás dos holofotes: infraestrutura e legado

Organizar um evento desse porte no Brasil nunca foi tarefa simples. Por trás de cada transmissão impecável e estádio lotado, há uma série de desafios logísticos, burocráticos e financeiros que poucos espectadores enxergam. A importação temporária de equipamentos de última geração para as cabines dos jogadores, a montagem de estruturas de transmissão que atendam aos padrões globais e até a garantia de vistos para delegações internacionais são obstáculos que os organizadores precisam superar. Muitas vezes, o sucesso de um evento aqui é uma vitória tanto para os jogadores quanto para a engenharia operacional por trás dele.

E qual é o legado real desses eventos? Para além dos memes e dos momentos de torcida, há um impacto tangível. Cidades-sede relatam um significativo impacto econômico durante os dias de competição, com hotéis, restaurantes e comércio local se beneficiando da invasão de fãs. Mais importante ainda, esses torneios servem como vitrines poderosas. Eles inspiram jovens talentos a levarem o jogo a sério, mostram para investidores e patrocinadores que o mercado brasileiro é vibrante e, não menos crucial, pressionam por melhorias na infraestrutura de internet e em espaços para eventos. Será que sem a IEM Rio, teríamos a mesma qualidade de arenas adaptadas para esports hoje?

Um ponto interessante é a evolução do público. Compare a recepção aos primeiros eventos com a dos atuais. Houve um amadurecimento coletivo. As vaias – que antes eram direcionadas indiscriminadamente a qualquer equipe estrangeira – deram lugar a uma torcida mais estratégica e, em muitos momentos, respeitosa. O público brasileiro aprendeu a valorizar o espetáculo técnico, mesmo quando apresentado por adversários. Claro, a paixão pela equipe da casa continua fervendo, mas hoje ela coexiste com uma apreciação mais ampla pelo jogo de alto nível. Isso é algo que você percebe nas transmissões?

Para além do eixo Rio-SP: o potencial adormecido

Embora Rio e São Paulo tenham se consolidado como os principais hubs, há um debate crescente sobre a necessidade de descentralizar os grandes eventos. Regiões como o Nordeste e o Sul possuem bases de fãs enormes e apaixonadas, além de infraestrutura hoteleira e de convenções que poderiam muito bem abrigar torneios de escala um pouco menor, mas ainda assim significativos. Imagine um campeonato do Brasileirão de League of Legends ou uma etapa do circuito challenger de VALORANT sendo disputada em Fortaleza, Recife ou Curitiba.

Essa expansão geográfica faria mais do que apenas agradar fãs de outras localidades. Ela fortaleceria o ecossistema nacional como um todo, criando novos polos de desenvolvimento para talentos, streamers e organizações. Um jogador talentoso de Salvador se inspiraria muito mais vendo um evento de perto do que apenas pela tela. A logística e os custos são, obviamente, barreiras consideráveis. Mas será que o modelo atual, tão concentrado, é o único sustentável a longo prazo? Ou as ligas e organizadoras estão perdendo uma oportunidade de cultivar um mercado mais amplo e resiliente?

Falando em VALORANT, a Riot Games tem um plano diferente. Enquanto o cenário de CS2 se consolidou no Rio, o VALORANT Champions Tour (VCT) das Américas escolheu São Paulo como sua sede fixa para a liga internacional. O estúdio da Riot na capital paulista recebe semanalmente as melhores equipes do continente, incluindo a brasileira LOUD. É um modelo distinto: em vez de um grande evento anual com público, temos uma competição contínua, quase como uma temporada esportiva tradicional, transmitida de um hub central. Esse formato "estúdio" oferece uma regularidade que os fãs apreciam, mas será que ele consegue capturar a mesma magia e energia crua de um estádio lotado? É uma troca interessante entre consistência e espetáculo.

E não podemos esquecer dos jogos móveis. O cenário competitivo de Free Fire é um fenômeno à parte, com uma base de fãs gigantesca e eventos que frequentemente lotam arenas. A Final Mundial de 2021, por exemplo, foi realizada em Cingapura, mas a presença e o domínio das equipes brasileiras são incontestáveis. A pergunta que fica é: quando veremos um campeonato mundial de Free Fire, ou de outro jogo móvel de enorme sucesso no Brasil, sendo sediado aqui? O potencial comercial e de público é inegável, mas parece haver uma certa hesitação das desenvolvedoras em trazer o ápice da competição móvel para o país que é um de seus maiores mercados. O que explica essa desconexão?



Fonte: Dust2