No complexo mercado do Sul da Ásia, os manuais de publicação padrão não se aplicam. Dependendo da região, os fãs de jogos de tiro tático consomem campanhas e interagem com o esports através de lentes culturais vastamente diferentes. Sentamos com Anushka Bhatnagar, Publishing Lead da Riot Games para Índia e Sul da Ásia, para discutir como a Riot está construindo um ecossistema de VALORANT de baixo para cima. Bhatnagar compartilhou insights sobre por que o grassroots é o motor do crescimento, como ela vê as mudanças na qualificação do VCT APAC e por que o VALORANT Mobile representa um canal de distribuição massivo.
Construindo o Funil: Grassroots e o VALORANT Campus Cup
Para qualquer ecossistema competitivo sobreviver, deve haver um caminho visível do matchmaking casual até o palco profissional. No Sul da Ásia, esse ponto de partida estava faltando, criando uma lacuna entre jogadores comuns e organizações de primeira linha. Para preencher isso, a Riot lançou o VALORANT Campus Cup (VCC) como um portal grassroots primário.
Através do VCC, a Riot encontra jogadores em faculdades e lan houses, construindo um funil massivo de talentos. O torneio do ano passado terminou com uma final intensa entre Bangalore e a JECRC College de Jaipur, com Jaipur levando o campeonato. A Riot fez parceria com a JioBLAST para escalar o VCC ainda mais. "O VCC está essencialmente permitindo que todas essas faculdades, lan houses, jogadoras, jogadores de comunidades marginalizadas, todos participem porque o ponto de partida estava faltando e queríamos realmente preencher essa lacuna." Ao dar aos amigos da faculdade um ponto de entrada de baixa barreira para organizar um "five-stack" e competir, a Riot está estabelecendo as bases para a próxima geração de talentos profissionais.
Promovendo Inclusividade desde a Base
O compromisso global da Riot com a diversidade é liderado pela iniciativa Game Changers, que constrói um caminho para mulheres e gêneros marginalizados para a competição tier-2 e tier-1. Em 2025, escalações regionais como Asterisk Women e jogadoras como CaspeR alcançaram alturas incríveis e viajaram internacionalmente. Mas o trabalho não para no alto nível. A integração do Game Changers com o VCC e outros torneios locais é crucial para garantir que o talento feminino tenha um caminho sustentável, não apenas um momento de destaque.
O que me impressiona nessa abordagem é a paciência. Em vez de forçar uma estrutura de cima para baixo, a Riot está plantando sementes em comunidades onde o jogo já é popular, mas a infraestrutura competitiva é jovem. É uma estratégia que reconhece que o crescimento sustentável leva tempo.
VCT APAC e a Mudança de Qualificação
As mudanças na qualificação para o VCT APAC são um tópico quente entre os fãs. Bhatnagar vê essas mudanças como uma evolução necessária. "O cenário competitivo está amadurecendo. Precisamos garantir que as equipes que chegam ao estágio internacional não apenas tenham habilidade mecânica, mas também experiência tática e consistência." Isso significa que o caminho para o Pacific não é mais apenas sobre vencer um torneio local; é sobre construir uma organização sustentável que possa competir em um palco maior.
Para os times sul-asiáticos, isso é um chamado para elevar o nível. Não basta ter um bom elenco; é preciso ter suporte técnico, análise de dados e preparação mental. A Riot está essencialmente dizendo: "Nós vamos fornecer a plataforma, mas vocês precisam trazer a profissionalização."
VALORANT Mobile: O Canal de Distribuição Massivo
Se o VCC é o funil de talentos, o VALORANT Mobile é o funil de jogadores. Bhatnagar não esconde o entusiasmo: "O Mobile é um canal de distribuição massivo. Na Índia e no Sul da Ásia, o celular é o primeiro dispositivo de jogo para milhões de pessoas. Não é um complemento; é a porta de entrada."
Isso muda completamente a equação. Enquanto o PC é dominante nos cibercafés urbanos, o mobile alcança áreas rurais e suburbanas onde o acesso a hardware de PC é limitado. O VALORANT Mobile não é apenas uma versão portátil do jogo; é uma ferramenta de expansão de mercado que pode trazer milhões de novos jogadores para o ecossistema.
E aqui está o ponto crucial: esses jogadores mobile não ficarão presos ao celular para sempre. Muitos eventualmente migrarão para o PC, e quando o fizerem, já estarão familiarizados com o VALORANT, com a Riot e com a cena competitiva. É um investimento de longo prazo em aquisição de jogadores.
O que fica claro é que a estratégia da Riot para o Sul da Ásia é holística. Não se trata de um único torneio ou de uma única plataforma. Trata-se de construir um ecossistema onde um jogador de celular em uma cidade pequena pode se tornar um fã de esports, depois um jogador de PC, e eventualmente um competidor no VCC ou até mesmo no VCT. A pergunta que fica é: como as organizações locais vão se adaptar a essa nova realidade? E será que a infraestrutura de torneios vai acompanhar o ritmo do crescimento do mobile?
E essa visão de longo prazo não se limita apenas ao mobile. Bhatnagar também destacou como a Riot está repensando a maneira como os fãs consomem conteúdo na região. "Não basta transmitir uma partida; precisamos criar narrativas que ressoem com o público local. Isso significa investir em casting em hindi, em inglês e em outros idiomas regionais, além de produzir conteúdo que mostre as personalidades por trás dos jogadores." É uma mudança sutil, mas poderosa: em vez de simplesmente traduzir o produto global, a Riot está tentando criar uma identidade local para o VALORANT.
Essa abordagem também se reflete na forma como a empresa lida com os criadores de conteúdo. Em vez de impor diretrizes rígidas, a Riot tem incentivado os criadores a experimentar e encontrar seu próprio nicho. "Os criadores são os embaixadores do jogo na comunidade. Eles entendem melhor do que ninguém o que funciona para o público local. Nosso papel é dar suporte e ferramentas para que eles possam crescer." E os números parecem confirmar que essa estratégia está funcionando. O engajamento em plataformas como YouTube e Instagram na Índia cresceu exponencialmente, com clipes de jogadas incríveis e momentos engraçados de streamers alcançando milhões de visualizações.
Mas nem tudo são flores. Bhatnagar reconhece que ainda há desafios significativos. A infraestrutura de internet em algumas áreas do Sul da Ásia ainda é irregular, e o custo de dispositivos capazes de rodar VALORANT Mobile em configurações competitivas pode ser proibitivo para muitos. "Estamos cientes dessas barreiras. É por isso que estamos trabalhando em parcerias com fabricantes de dispositivos e operadoras de telecomunicações para tornar o jogo mais acessível. Não se trata apenas de lançar o jogo; trata-se de garantir que as pessoas possam realmente jogá-lo."
Outro ponto que me chamou a atenção foi a discussão sobre a sustentabilidade financeira dos times na região. Com a mudança nas qualificações do VCT, os times precisam investir mais em estrutura, mas o retorno financeiro ainda é incerto. "Estamos vendo um interesse crescente de patrocinadores não endêmicos, ou seja, marcas que não são tradicionalmente associadas a esports. Isso é um sinal positivo. Mas precisamos continuar provando o valor do ecossistema para esses investidores." A Riot está, portanto, não apenas construindo um caminho competitivo, mas também um modelo de negócios viável para as organizações.
E o que dizer da base de fãs? Bhatnagar acredita que o público sul-asiático é um dos mais apaixonados do mundo. "Os fãs aqui são incrivelmente dedicados. Eles viajam horas para assistir a um evento ao vivo, criam arte, fazem cosplay, participam de discussões online. Essa energia é contagiante e nos motiva a fazer mais." Ela mencionou que a Riot está planejando mais eventos presenciais na região, não apenas torneios, mas também experiências imersivas que aproximem os fãs do jogo e dos jogadores.
No entanto, há uma preocupação que muitos na comunidade têm: a fragmentação do cenário. Com o VCC, o Game Changers, o VALORANT Mobile e os torneios terceirizados, existe o risco de que os jogadores fiquem sobrecarregados ou que os talentos se espalhem por muitas frentes. Bhatnagar, no entanto, vê isso como uma força. "A diversidade de pontos de entrada é o que torna o ecossistema resiliente. Um jogador pode começar no mobile, migrar para o PC, competir no VCC e depois tentar o Game Changers. Cada um desses caminhos oferece uma experiência única e contribui para o crescimento geral."
Ela também abordou a importância de aprender com outras regiões. "Observamos de perto o que funcionou no Brasil, na América do Norte e na Europa. Mas não copiamos cegamente. Adaptamos as estratégias para a realidade local. O que funciona em São Paulo pode não funcionar em Mumbai." Essa flexibilidade é crucial em um mercado tão diverso quanto o Sul da Ásia, onde cada país tem suas próprias nuances culturais e econômicas.
Uma das coisas mais interessantes que Bhatnagar compartilhou foi sobre a relação com as lan houses. "As lan houses são o coração do cenário competitivo em muitas partes da Índia. Elas são onde os jogadores se reúnem, treinam e formam equipes. Estamos trabalhando para integrá-las ao ecossistema de forma mais estruturada, oferecendo suporte para que possam sediar eventos e se tornar centros de treinamento." Isso não apenas fortalece a comunidade, mas também cria oportunidades de negócios para os donos de lan houses, que muitas vezes lutam para se manter relevantes em uma era de jogos mobile.
E o futuro? Bhatnagar prefere não fazer previsões ousadas, mas deixa claro que a Riot está comprometida com a região a longo prazo. "Estamos apenas começando. Há muito mais que queremos fazer, desde melhorar a experiência do espectador até criar novas oportunidades para os jogadores. O potencial é imenso." Ela conclui com uma nota de otimismo cauteloso: "O Sul da Ásia não é apenas um mercado emergente; é um mercado que está moldando o futuro dos esports. E estamos orgulhosos de fazer parte dessa jornada."
Fica a sensação de que a Riot está jogando o jogo longo, e isso é revigorante em uma indústria que muitas vezes busca resultados rápidos. A pergunta que permanece é se as organizações locais e os jogadores estarão prontos para aproveitar as oportunidades que estão sendo criadas. E, mais importante, se a infraestrutura de torneios e o suporte financeiro continuarão a evoluir no mesmo ritmo. O caminho para o Pacífico é longo, mas os primeiros passos já foram dados.
Fonte: THESPIKE











