A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) anunciou que vai acionar judicialmente o streamer GH Rell RJ e a plataforma Kick após um ataque homofóbico contra o ator João Victor Gonçalves, que deixava o festival Rock in Rio quando foi perseguido e ridicularizado ao vivo.
Em publicação nas redes sociais, Hilton afirmou que o caso será levado ao Ministério Público e que o episódio não pode ser tratado como simples entretenimento.
O que aconteceu no ataque ao ator
Nas imagens que circularam nas redes, Gonçalves aparece caminhando pela calçada após sair do festival enquanto GH Rell RJ o segue, rindo e debochando das roupas do ator. Durante todo o vídeo, o ator permanece em silêncio, tentando ignorar a perseguição.
Em um vídeo publicado em seu Instagram, Gonçalves afirmou que se sentiu acuado e que sofreu "agressão e ataque homofóbico". O ator disse ainda que o episódio "não vai passar em branco".
Posição de Erika Hilton sobre o caso
"Gravar uma pessoa na rua, sem mais nem menos, submetê-la ao deboche e ofensas de teor homofóbico e transmitir tudo isso ao vivo não é entretenimento. E isso vale pros streamers e pra plataforma que, ao que tudo indica, não apenas permite esse conteúdo, como o incentiva e o monetiza", escreveu a deputada.
Hilton também detalhou o que espera da ação judicial:
- Responsabilização dos envolvidos
- Aplicação de multa
- Destinação dos valores para políticas públicas de proteção a pessoas LGBTQIA+
- Combate aos crimes de ódio
Além disso, a deputada informou que está cobrando, via Ministério Público, que a organização do Rock in Rio e a Prefeitura do Rio melhorem o esquema de segurança na área dos gradis de acesso e saída do evento.
"Toda a minha solidariedade ao João Victor. Não podemos aceitar jamais a homofobia e qualquer forma de LGBTfobia recreativa. Quando nossas existências viram conteúdo ou piada, a desumanização já está em curso", completou.
Resposta do streamer
Após a repercussão, GH Rell RJ se manifestou dizendo que o clipe foi "retirado de contexto" e pediu desculpas "porque nós é ser humano e nós erra". A justificativa, no entanto, não convenceu os internautas, que seguem cobrando posicionamento da Kick sobre o ocorrido.
A plataforma ainda não se pronunciou oficialmente sobre o caso. A publicação de Erika Hilton pode ser conferida no link abaixo:
O caso reacendeu um debate que, confesso, já deveria estar superado: até que ponto a transmissão ao vivo de situações constrangedoras pode ser encarada como simples brincadeira? A linha entre humor e violência simbólica é tênue, e quando o alvo é uma pessoa em situação de vulnerabilidade — como alguém que acabou de sair de um evento e está sozinho na rua — o que era para ser piada se transforma em assédio.
Não é a primeira vez que streamers brasileiros se envolvem em polêmicas desse tipo. O formato de transmissão ao vivo, com sua interação instantânea com o público, muitas vezes incentiva comportamentos extremos em busca de reação e engajamento. A audiência, que cresce a cada minuto de tensão, acaba funcionando como um combustível para que o criador de conteúdo vá além dos limites do razoável.
O que chama atenção no caso de GH Rell RJ é a naturalidade com que ele conduziu a perseguição. Nas imagens, não há nenhum tipo de constrangimento ou hesitação — pelo contrário, o streamer parece se divertir com a situação, enquanto o ator visivelmente desconfortável tenta apenas seguir seu caminho. Essa inversão de valores, onde o agressor se sente no direito de transformar a vítima em personagem de seu show, é exatamente o tipo de comportamento que a deputada Erika Hilton quer combater.
E não é só a responsabilização individual que está em jogo. A menção à Kick na ação judicial é um passo importante, pois coloca a plataforma no centro do debate sobre moderação de conteúdo. Afinal, se a empresa monetiza esse tipo de transmissão — seja por doações, assinaturas ou publicidade — ela também precisa arcar com as consequências quando o conteúdo ultrapassa os limites legais. A Kick, que tem crescido no Brasil com contratos milionários e uma política de moderação mais permissiva que a concorrência, agora se vê diante de um dilema: manter a postura liberal que atrai criadores ou adotar medidas mais rígidas para evitar problemas judiciais.
Há também um aspecto prático que merece reflexão: a segurança nos arredores de grandes eventos. O Rock in Rio, que recebeu cerca de 100 mil pessoas por dia, tem um esquema de segurança que se concentra principalmente dentro do perímetro do festival. As áreas de acesso e saída, especialmente os corredores de gradis que direcionam o público para o transporte, acabam sendo pontos cegos onde situações como essa podem ocorrer sem intervenção imediata. A cobrança de Erika Hilton para que a organização e a Prefeitura do Rio melhorem esse esquema é pertinente, mas será que uma presença policial mais ostensiva resolveria o problema? Talvez o caminho seja uma combinação de mais iluminação, câmeras de vigilância e agentes treinados para identificar e intervir em situações de assédio.
Enquanto isso, a comunidade LGBTQIA+ acompanha o desenrolar do caso com uma mistura de cansaço e esperança. Cansaço por ver mais um episódio de violência gratuita sendo tratado como entretenimento, e esperança de que, desta vez, a justiça seja feita de forma exemplar. O pedido de desculpas do streamer, que parece mais uma tentativa de apagar o incêndio do que um reconhecimento genuíno do erro, não deve ser suficiente para encerrar a questão. A ação judicial prometida por Hilton pode estabelecer um precedente importante para casos futuros, mostrando que a LGBTfobia recreativa tem consequências concretas.
O que me preocupa, no entanto, é a velocidade com que esses episódios são esquecidos. Em um ciclo de notícias de 24 horas, o caso de João Victor Gonçalves pode facilmente ser substituído por outra polêmica na semana seguinte. Por isso, é fundamental que a discussão vá além do caso específico e questione as estruturas que permitem que esse tipo de conteúdo floresça. As plataformas de streaming precisam repensar seus algoritmos de recomendação, que muitas vezes priorizam conteúdo polêmico por gerar mais engajamento. Os criadores de conteúdo, por sua vez, precisam entender que sua influência vem acompanhada de responsabilidade.
E o público? Bem, o público também tem seu papel. Cada like, cada compartilhamento, cada comentário em transmissões desse tipo é um voto de confiança para que o comportamento se repita. Talvez seja hora de refletirmos sobre o que estamos consumindo e que tipo de entretenimento queremos incentivar. A diversão à custa da dignidade alheia não é diversão — é violência, e precisa ser tratada como tal.
Fonte: Dust2









