Peter "dupreeh" Rasmussen abriu o jogo sobre as diferenças entre três dos maiores capitães da história do Counter-Strike. Em entrevista ao Radar em Paris, da Dust2 Brasil, o pentacampeão mundial comparou a experiência de atuar ao lado de Finn "karrigan" Andersen, Lukas "gla1ve" Rossander e Dan "apEX" Madesclaire.

O dinamarquês, que construiu uma carreira vitoriosa jogando sob diferentes estilos de liderança, detalhou como cada IGL enxerga o jogo de forma distinta. E a conversa rendeu insights valiosos sobre o que separa um bom capitão de um grande capitão.

karrigan e a arte de dar liberdade

"Acho que o karrigan tinha uma abordagem bem especial do jogo comparado ao que estávamos acostumados. É por isso que ele chega em qualquer time e o nível sobe na hora", afirmou dupreeh.

Para o pentacampeão, o diferencial do atual IGL da Falcons vai muito além do sacrifício individual dentro do servidor. "O que ele fazia naquela época que ainda acho um pouco parecido com hoje é que ele é muito bom em entender como aproveitar seus jogadores da melhor forma. Entender que tipo de espaço eles precisam e como deixá-los mais confortáveis."

O ex-jogador destacou a liberdade que karrigan sempre deu aos companheiros. Na visão de dupreeh, o estilo do dinamarquês sempre foi baseado naquele "caos controlado" — tirando espaço dos adversários enquanto permite que os próprios jogadores criem.

"Na FaZe, o estilo de jogo dele sempre foi aquele caos controlado, tirar o espaço dos adversários e dar total liberdade para os próprios jogadores criarem. Com essa liberdade, eles ganhavam uma certa quantidade de espaço e ele conecta os pontos e passa a melhor call para o round."

E essa característica segue viva na Falcons atual. "É exatamente como ele faz na Falcons hoje com m0NESY e NiKo, que já jogavam soltos co..."

Essa abordagem, segundo dupreeh, contrasta diretamente com o que ele viveu sob o comando de gla1ve na Astralis. Se karrigan é o maestro da improvisação, gla1ve é o arquiteto da precisão cirúrgica.

gla1ve e a estrutura que virou lenda

"O gla1ve era completamente diferente. Ele era muito mais estruturado, muito mais sobre o sistema, sobre os detalhes de cada utilidade, cada posicionamento", explicou o dinamarquês.

Na visão de dupreeh, a genialidade de gla1ve estava em transformar o Counter-Strike em algo quase matemático. Cada rodada tinha um propósito claro, cada movimento era calculado para abrir uma janela específica. Não havia espaço para o acaso — e isso era exatamente o que a Astralis precisava para dominar como dominou.

"Com o gla1ve, você sabia exatamente qual era o seu papel em cada situação. Isso dava uma confiança enorme, porque você nunca estava realmente perdido no round. Mesmo quando as coisas davam errado, a estrutura te pegava pela mão e te trazia de volta."

O pentacampeão também ressaltou que essa rigidez não significava falta de criatividade. Pelo contrário: a estrutura criada por gla1ve permitia que os jogadores da Astralis explorassem micro-situações com uma liberdade que só existia porque o macro estava tão bem definido.

"É uma abordagem que exige muito de todo mundo, mas quando funciona, parece que você está jogando um jogo diferente dos outros times. E foi isso que vivemos por anos."

Mas se karrigan e gla1ve representam dois polos — o caos criativo e a ordem metódica —, onde entra apEX? Para dupreeh, o capitão francês da Vitality é uma mistura curiosa de ambos, com um tempero extra de intensidade emocional.

apEX e a energia que move um time

"O apEX é um cara que vive o jogo de uma forma muito intensa. Ele sente cada round, cada momento. E isso transborda para o time", contou dupreeh.

O dinamarquês, que jogou ao lado de apEX na Vitality, destacou que o estilo do francês é menos sobre sistemas e mais sobre conexão humana. "Ele é muito bom em ler o momento do time. Se alguém está precisando de um empurrão, ele está lá. Se alguém está confiante demais, ele sabe como trazer essa pessoa de volta para o chão."

Essa abordagem mais emocional, segundo dupreeh, funciona especialmente bem em times que já têm uma base sólida de talento individual. "O apEX não precisa te dizer exatamente o que fazer a cada segundo. Ele confia que você sabe o seu trabalho. O que ele faz é criar um ambiente onde você quer dar o seu melhor."

E é interessante notar como esses três estilos diferentes moldaram a carreira de dupreeh de maneiras complementares. Se karrigan mostrou a ele o valor da adaptabilidade e da leitura de jogo, gla1ve o ensinou a importância da disciplina e do detalhe. Já apEX reforçou que o Counter-Strike é, antes de tudo, um esporte coletivo jogado por seres humanos — e que a energia certa pode ser tão decisiva quanto a utilidade perfeita.

"Cada um deles me ensinou algo que levo até hoje. E eu acho que isso é o mais bonito no CS: você pode aprender com estilos completamente diferentes e se tornar um jogador mais completo por causa disso."

O que fica claro na fala de dupreeh é que não existe uma fórmula única para ser um grande IGL. O que existe são abordagens diferentes que, quando bem executadas e alinhadas ao elenco certo, podem levar qualquer time ao topo. E poucos jogadores na história tiveram a oportunidade — e o talento — de experimentar três dessas abordagens em primeira mão, saindo de cada uma com um pedaço de sabedoria que poucos conseguem acumular.



Fonte: Dust2