O streamer e ex-pro player ardiis realizou comentários transfóbicos em live realizada na última terça-feira (21). Além de chamar algumas pro players de VALORANT de "bumblebees" (abelhas em inglês) — termo interpretado negativamente como referência a jogadores transgêneros — enquanto transmitia o jogo entre Barça eSports GC e GIANTX GC pelo VALORANT Game Changers 2026 - EMEA Stage 3, o atual criador de conteúdo da Natus Vincere também respondeu uma pergunta do chat sobre a possibilidade de ele mudar de gênero para jogar o Game Changers em troca de dinheiro e afirmou, em tom de ironia, que talvez faria isso.

“Quanto você cobraria de salário para mudar de gênero e jogar no Game Changers?”, perguntou um usuário. “Eu nunca faria isso. Na verdade, eu talvez fizesse isso. Se as coisas ficarem difíceis, eu provavelmente vou fazer isso. Mas escuta, não nas próximas semanas pelo menos, mano”, respondeu ardiis.

O contexto da polêmica: ardiis e a transfobia no VALORANT

O comentário rapidamente viralizou nas redes sociais, mas foi apenas um de outros em que ardiis também foi transfóbico. A polêmica transfobia na live do ardiis não se limitou a uma única fala — durante a transmissão, ele repetiu termos e atitudes que a comunidade interpretou como desrespeitosas à comunidade transgênero.

Depois do ocorrido, o streamer fez uma publicação no X (antigo Twitter), nesta quarta-feira (22), de forma irônica enquanto debochava da situação em uma transmissão ao vivo. No texto, ele assumiu o erro, definiu as falas como "inaceitáveis" e pediu desculpas.

“Ei, pessoal. Os comentários que fiz na live sobre a comunidade transgênero foram inaceitáveis. Até para mim foi demais. Peço desculpas a todos que ofendi; isso não vai acontecer de novo. Paz e amor para todos”, afirmou ardiis.

O pedido de desculpas de ardiis: ironia ou arrependimento real?

Na mesma live desta quarta, ardiis voltou a atacar o Game Changers: “Acho que não queremos o Game Changers de jeito nenhum, mano. Acho que temos que deixar o cenário do Game Changers morrer para que, daqui a dois anos, quando ninguém mais apoiar e todos os patrocinadores sumirem, a gente possa rir disso”.

Essa fala contradiz diretamente o tom do pedido de desculpas publicado no X. Enquanto o texto pedia "paz e amor", a live mostrava um ardiis ainda crítico ao torneio inclusivo. Para muitos, isso reforça a percepção de que o pedido de desculpas transfóbico do ardiis foi apenas uma tentativa de conter a crise, não um arrependimento genuíno.

Repercussão e próximos passos

A comunidade de VALORANT reagiu de forma dividida. Enquanto alguns fãs pedem punições da Riot Games e da Natus Vincere, outros defendem o streamer, argumentando que ele "só estava sendo irônico". A fala bumblebees dos pro players do VALORANT se tornou um dos tópicos mais comentados no Twitter e Reddit.

Até o momento, nem a Natus Vincere nem a Riot Games se pronunciaram oficialmente sobre o caso. A expectativa é que, nos próximos dias, haja algum posicionamento — especialmente considerando o histórico da Riot em punir comportamentos discriminatórios no cenário competitivo.

O histórico de ardiis com polêmicas no cenário competitivo

Para quem acompanha o cenário de VALORANT há algum tempo, essa não é a primeira vez que ardiis se envolve em controvérsias. O ex-jogador da Natus Vincere, que já passou por equipes como G2 Esports e FunPlus Phoenix, sempre foi conhecido por sua personalidade explosiva — tanto dentro quanto fora do servidor.

Lembro de quando ele ainda estava na G2, em 2022, e já protagonizava momentos tensos em streams. Mas a diferença é que, naquela época, as polêmicas eram mais sobre gameplay ou discussões táticas. Agora, o tom mudou. E mudou para algo muito mais sério.

O que me preocupa, como alguém que cobre esse cenário há anos, é ver um profissional com tanta visibilidade usar sua plataforma para espalhar discursos de ódio. Não é só sobre “liberdade de expressão” — é sobre responsabilidade. Quando você tem milhares de seguidores, cada palavra sua ecoa. E ecoa forte.

O termo “bumblebees” e o impacto na comunidade trans

Vamos destrinchar um pouco esse termo que ardiis usou: “bumblebees”. Em inglês, a palavra significa “abelhas”. Mas no contexto da comunidade de VALORANT, especialmente quando direcionado a jogadoras trans do Game Changers, o termo carrega uma carga pejorativa enorme.

Algumas pessoas podem pensar: “Ah, mas é só uma brincadeira”. Só que não é. Chamar alguém de “abelha” nesse contexto é uma forma de desumanizar, de reduzir a identidade da pessoa a algo que não é humano. É um padrão que vemos em vários discursos de ódio — criar apelidos que tiram a humanidade do outro.

E o pior? ardiis não parou por aí. Durante a mesma live, ele fez questão de repetir o termo várias vezes, como se estivesse testando os limites do que podia dizer. Teve até um momento em que ele riu enquanto comentava sobre as jogadoras, como se tudo aquilo fosse uma grande piada.

Para a comunidade trans, que já enfrenta desafios enormes dentro e fora dos jogos, ouvir um profissional respeitado falar desse jeito é como levar um soco no estômago. Não é só sobre o jogo — é sobre se sentir seguro em um espaço que deveria ser para todos.

O papel da Riot Games e da Natus Vincere na situação

Agora, a bola está com a Riot Games e a Natus Vincere. E, sinceramente, acho que ambas precisam agir rápido. A Riot já mostrou que não tolera comportamentos discriminatórios — lembra do caso do streamer xQc, que foi banido por comentários homofóbicos? Ou das punições a jogadores profissionais que usaram linguagem racista no chat?

Mas aqui tem uma camada extra de complexidade: ardiis não é mais um jogador ativo. Ele é criador de conteúdo da NAVI. Isso significa que a organização tem um papel ainda maior na responsabilização. Se a NAVI realmente preza pelos valores que diz defender — inclusão, diversidade, respeito —, precisa tomar uma posição pública.

Até agora, o silêncio da organização é ensurdecedor. E, convenhamos, silêncio em casos assim nunca é uma boa estratégia. A comunidade está de olho, e cada dia que passa sem um posicionamento oficial, a confiança na marca se desgasta um pouco mais.

Quanto à Riot, a desenvolvedora já demonstrou que está disposta a punir até mesmo grandes nomes. Em 2023, por exemplo, a Riot baniu permanentemente um pro player da Turquia por comentários transfóbicos. O precedente existe. A pergunta é: vão aplicar a mesma régua para ardiis?

O que o Game Changers representa e por que isso importa

Vale a pena dar um passo atrás e lembrar o que é o VALORANT Game Changers. Criado em 2021, o torneio foi desenhado para dar visibilidade e oportunidades a mulheres, pessoas trans e não-binárias em um cenário que historicamente é dominado por homens cisgênero.

Não é um torneio “separado” por acaso — é uma resposta a um problema real. Quantas jogadoras trans você vê nos campeonatos mistos? Quase nenhuma. O Game Changers existe justamente para criar um espaço onde essas pessoas possam competir sem sofrer preconceito. Ou, pelo menos, com menos preconceito.

Quando ardiis diz que “o Game Changers deveria morrer”, ele não está apenas atacando um torneio. Ele está atacando a própria ideia de inclusão. Está dizendo, nas entrelinhas, que pessoas trans não merecem um espaço próprio no cenário competitivo. E isso, meus amigos, é grave.

O mais irônico de tudo? ardiis já jogou contra times femininos e trans em partidas casuais e sempre teve uma postura respeitosa. Ou pelo menos aparentava ter. Talvez a máscara tenha caído agora. Ou talvez ele sempre tenha pensado assim e só agora se sentiu confortável para falar abertamente.

As reações da comunidade: entre o apoio e a cobrança

Nas redes sociais, a reação foi imediata. No Twitter, hashtags como #ardiisTransfobico e #GameChangersRespect chegaram aos trending topics do Brasil e de Portugal. No Reddit, o tópico sobre o caso no subreddit de VALORANT acumulou mais de 2 mil comentários em menos de 24 horas.

Mas o que me chamou a atenção foi a divisão nos comentários. Enquanto muitos pedem banimento permanente, outros defendem ardiis com argumentos como “ele só estava sendo irônico” ou “a comunidade está muito sensível”.

Sinceramente, acho esse tipo de defesa perigosa. Ironia não é desculpa para preconceito. Se você faz uma piada sobre um grupo marginalizado, a piada não é sobre o grupo — é sobre o preconceito que você tem contra ele. E, no fim das contas, quem ri junto está concordando com a mensagem.

Teve até um fã que criou uma petição online pedindo que a Riot banisse ardiis do VALORANT. Até o momento da publicação deste artigo, a petição já tinha mais de 5 mil assinaturas. Pode não parecer muito, mas considerando que foi lançada há apenas dois dias, o número está crescendo rápido.

O que esperar dos próximos dias

Com a pressão aumentando, é provável que vejamos algum movimento ainda esta semana. A Riot Games costuma ser rápida quando o assunto é dano à imagem do jogo. E a Natus Vincere, que tem um histórico de apoiar causas sociais, não pode se dar ao luxo de ignorar o caso.

Uma possibilidade é que ardiis seja suspenso temporariamente de suas atividades como criador de conteúdo da NAVI. Outra é que a Riot aplique uma punição no jogo, como banimento de contas ou restrição de participação em eventos oficiais.

Mas, honestamente, acho que o mais importante aqui não é a punição em si — é a mensagem que ela envia. Se a Riot e a NAVI agirem com firmeza, estarão dizendo que discurso de ódio não tem lugar no VALORANT. Se ficarem em cima do muro, estarão dando aval para que outros repitam o mesmo comportamento.

E, enquanto isso, ardiis continua fazendo suas lives normalmente. Na transmissão de ontem, ele evitou o assunto, mas o chat não deixou barato — a cada poucos minutos, alguém perguntava sobre o caso. Ele simplesmente ignorava e seguia jogando. Como se nada tivesse acontecido.



Fonte: THESPIKE