Imagine pagar uma quantia considerável para viver a experiência de assistir a um grande evento esportivo em um local de entretenimento, e ao chegar lá, se deparar com uma situação completamente diferente do prometido. Foi exatamente isso que aconteceu com torcedores que foram ao Circuit X, um complexo de entretenimento em São Paulo, durante a transmissão de jogos importantes. A frustração foi geral, e a situação levantou questões importantes sobre a organização de eventos e o respeito ao consumidor.
O que realmente aconteceu no Circuit X?
De acordo com relatos, os torcedores pagaram ingressos que variavam de R$ 150 a R$ 400 para assistir às partidas em um ambiente festivo. A expectativa, naturalmente, era de telões de alta qualidade, boa visibilidade e uma infraestrutura adequada para a transmissão. No entanto, a realidade foi bem diferente. Muitos relataram a ausência total de televisores ou telões em áreas comuns, forçando os fãs a se aglomerarem em poucos pontos com telas pequenas ou, pior, a improvisarem de maneiras criativas – e frustrantes – para não perderem o jogo.
Alguns tentaram assistir através das telas de celulares de outras pessoas, outros se espremeram em cantos com visão parcial. A sensação de ter pago por um serviço que não foi entregue foi unânime. E sabe o que é pior? Em um momento em que as experiências ao vivo são tão valorizadas, um erro de logística básica como esse pode manchar a reputação de um estabelecimento por um bom tempo.
Além da tela: a quebra da experiência prometida
O problema vai muito além da simples falta de uma TV. Quando você vende um ingresso para "assistir ao jogo", esse é o produto central. Toda a atmosfera, a comida, a bebida e a socialização são complementos que giram em torno desse eixo. Remover o eixo é como servir um hambúrguer sem o pão – a experiência desmorona.
Os relatos nas redes sociais foram contundentes. Torcedores expressaram sua indignação, mostrando vídeos e fotos do local superlotado e sem a infraestrutura mínima para a transmissão. A situação evidencia uma falha grave no planejamento. Será que a casa subestimou o número de interessados? Ou não se preparou adequadamente para um evento que, sabidamente, atrai multidões? Em minha opinião, parece uma combinação perigosa de superlotação e falta de preparo.
E isso nos leva a um ponto crucial: a responsabilidade. Locais que se propõem a ser pontos de encontro para transmissões esportivas têm a obrigação de garantir que o aspecto principal – assistir ao jogo – seja impecável. Do contrário, estão vendendo gato por lebre. A frustração do torcedor não é só por ter perdido dinheiro, mas por ter tido sua expectativa emocional quebrada. O futebol, para muitos, é mais que entretenimento; é paixão. E brincar com isso é um risco que nenhum negócio deveria correr.
O que essa situação revela sobre o mercado de experiências?
Vivemos uma era em que as experiências valem mais que produtos. As pessoas estão dispostas a pagar mais por momentos memoráveis. No entanto, episódios como o do Circuit X mostram que há uma lacuna gritante entre a promessa e a entrega em muitos negócios. A cobrança de um valor premium exige uma entrega premium. Quando isso não acontece, a reação nas redes sociais é imediata e pode ser devastadora para a marca.
É um alerta para todos os estabelecimentos do setor. Investir em uma boa infraestrutura audiovisual não é um detalhe, é a base. Ter planos de contingência para um número maior de pessoas, garantir a visibilidade de todos os cantos do espaço e treinar a equipe para lidar com imprevistos são medidas essenciais. O consumidor atual é informado e exige transparência. Ele não hesitará em expor uma falha, especialmente quando sente que foi lesado.
Afinal, qual é o sentido de criar um ambiente temático incrível, com decoração e cardápio especiais, se o cliente não consegue ver o motivo principal que o levou até lá? A lição, embora dura, é clara: na economia da experiência, a execução é tudo. Um único evento mal organizado pode apagar o brilho de meses de marketing bem-sucedido. E para o torcedor, fica a lição de sempre pesquisar e confiar em estabelecimentos com histórico comprovado nesse tipo de evento. Às vezes, a segurança de assistir em casa, no sofá, sem sustos, vale mais que qualquer ingresso caro.
Mas vamos pensar um pouco além do óbvio. Você já parou para considerar quantos outros estabelecimentos podem estar operando no limite, prometendo mais do que conseguem entregar? O caso do Circuit X não é, infelizmente, uma exceção isolada. É quase um sintoma de um mercado que cresceu rápido demais, sem que a infraestrutura e a expertise acompanhassem o mesmo ritmo. Em minha experiência frequentando bares e casas de show, já vi de tudo: telão que pifa no meio do jogo, som que distorce no gol mais importante, e até falta de energia elétrica no ápice da partida. A diferença é que, desta vez, a falha foi tão básica e generalizada que simplesmente não deu para ignorar.
O lado jurídico da frustração: o consumidor tem respaldo?
Aqui entra uma questão que muitos torcedores frustrados devem estar se perguntando: e os meus direitos? Pagar por um ingresso que promete "transmissão ao vivo do jogo" e não ter acesso a essa transmissão configura, na visão de muitos especialistas, um vício do produto ou serviço. É a velha história do descumprimento da oferta. O Procon e o Código de Defesa do Consumidor são ferramentas poderosas nesses casos. A restituição do valor pago é o mínimo. Em situações de grande transtorno, pode-se até pleitear indenização por danos morais. Afinal, não se trata apenas de dinheiro perdido, mas de um momento de lazer e emoção que foi completamente estragado.
No entanto, o caminho jurídico é burocrático e lento. A ação mais imediata – e que parece ter sido a adotada pelos torcedores – é a pressão nas redes sociais. E isso funciona. A velocidade com que a reclamação se espalha força uma resposta rápida da empresa. O Circuit X, por exemplo, se viu obrigado a se manifestar publicamente após a enxurrada de críticas. Mas será que um pedido de desculpas genérico é suficiente? Para quem gastou R$ 400 e passou por um stress desnecessário, provavelmente não. A credibilidade é um ativo que se constrói aos poucos e se perde em um instante.
O "efeito manada" na organização de eventos
Outro ponto interessante de se observar é o que eu chamo de "efeito manada" na organização. Grandes eventos geram uma demanda explosiva e, muitas vezes, imprevisível. Um estabelecimento pode ter estrutura para 500 pessoas em um jogo comum, mas quando se trata de uma final ou um clássico decisivo, esse número pode triplicar da noite para o dia. A pergunta que fica é: os organizadores estão preparados para essa escalada? Ou simplesmente abrem as portas e torcem para que tudo dê certo?
Parece que, no caso em questão, a segunda opção prevaleceu. Não houve um sistema de lotação controlada, nem um plano B para a transmissão. É uma postura arriscadíssima. Imagine o cenário: dezenas de pessoas pagaram, entraram, e descobriram que não teriam onde ver o jogo. O risco de tumultos e situações de conflito é enorme. A segurança, tanto dos clientes quanto dos funcionários, fica comprometida. É um erro de gestão que transcende a mera insatisfação – beira a irresponsabilidade.
E o que dizer da equipe no local? Em situações de caos, os funcionários são a linha de frente. Eles são os que precisam acalmar os ânimos, oferecer alternativas (se houver) e lidar com a frustração alheia. Sem um treinamento adequado e sem diretrizes claras da gerência, esses profissionais ficam expostos e impotentes. Já vi garçons sendo xingados por problemas que estavam completamente fora do seu controle, simplesmente porque eram o rosto visível do estabelecimento naquele momento. É uma situação injusta para todos os lados.
Para onde vai o dinheiro do ingresso caro?
Quando um ingresso custa R$ 400 para assistir a uma transmissão – e não a um jogo ao vivo –, o cliente está pagando pela experiência completa. Ele está bancando a infraestrutura de ponta, a tecnologia de qualidade, a comodidade, a segurança e a atmosfera. É um pacote. No momento em que o item principal desse pacote falha, toda a equação de valor desmorona. O cliente começa a fazer as contas: "Paguei R$ 400 para o quê? Para ficar em pé, sem ver nada, em um lugar lotado? Eu poderia ter feito isso de graça na praça!"
Essa reflexão é mortal para qualquer negócio. Ela revela uma desconexão total entre o preço cobrado e o valor percebido. E uma vez que essa percepção se estabelece, é muito difícil revertê-la. O torcedor que saiu frustrado do Circuit X dificilmente voltará. Pior: ele vai contar a experiência negativa para amigos, familiares e milhares de desconhecidos na internet. O prejuízo em termos de imagem e futura receita é incalculavelmente maior do que o custo de ter instalado algumas telas extras ou limitado a venda de ingressos.
Isso me faz pensar na transparência. Será que seria tão difícil para as casas de evento publicarem, junto com a venda do ingresso, informações claras sobre a infraestrutura disponível? "Contamos com 10 telões de 100 polegadas distribuídos pelo salão principal" ou "Garantimos visibilidade do telão a partir de qualquer ponto do setor VIP". São detalhes que geram confiança. A ausência deles, por outro lado, deixa margem para a desconfiança e, como vimos, para a decepção.
E então, surge a pergunta sobre o futuro. Episódios como esse servem de lição apenas para o estabelecimento em questão, ou para todo o setor? A tendência é que os consumidores fiquem mais exigentes. Eles vão começar a questionar, a pesquisar antes de comprar, a ler comentários de eventos anteriores. A "era da inocência", em que se comprava um ingresso apenas pela promessa, pode estar com os dias contados. O poder, cada vez mais, está nas mãos de quem consome. Basta saber usá-lo.
Por outro lado, será que os organizadores vão aprender? Vão investir em equipamentos de reserva, em treinamento de equipe, em planos de contingência? Ou vão continuar operando no modo "apaga-incêndio", correndo o risco de novos desastres? A resposta a essa pergunta vai definir não só o sucesso de negócios individuais, mas a própria credibilidade de um modelo de entretenimento que tem tudo para crescer – desde que feito com seriedade e respeito ao torcedor. Afinal, a paixão pelo futebol é um bem precioso. Explorá-la de forma negligente é um erro que pode custar muito caro.
Fonte: Dust2

