A Sony registrou um prejuízo de US$ 765 milhões relacionado à Bungie, desenvolvedora de Destiny 2 e do aguardado Marathon, após a empresa não atingir as metas financeiras no último ano fiscal. O número, que em alguns relatórios aparece como US$ 769 milhões, representa um dos maiores rombos em aquisições do setor de games nos últimos anos.
Mas o que exatamente aconteceu? E por que a gigante japonesa está amargando esse resultado agora, em 2026?
O contexto da aquisição e as expectativas frustradas
Quando a Sony comprou a Bungie em 2022 por US$ 3,6 bilhões, a ideia era clara: fortalecer sua presença no segmento de jogos como serviço (live service) e criar um braço multiplataforma competitivo. A Bungie, afinal, tinha um histórico sólido com Destiny 2 e prometia trazer expertise em operações contínuas, algo que a Sony tradicionalmente não dominava.
Só que as coisas não saíram como planejado. O Marathon, que deveria ser o grande lançamento para 2025, enfrentou adiamentos e, quando finalmente chegou ao mercado em 2026, não conseguiu replicar o sucesso esperado. As críticas foram mistas, e a base de jogadores, modesta para os padrões do estúdio.
Na prática, a Bungie gastou mais do que arrecadou. Custos operacionais elevados, equipe inchada e a necessidade de reinvestir em Destiny 2 para manter os jogadores existentes pesaram no balanço.
O impacto no resultado financeiro da Sony
O prejuízo de US$ 765 milhões aparece no relatório trimestral da Sony como um ajuste no valor contábil da Bungie. Em termos simples: a Sony pagou mais pela empresa do que ela vale hoje. Isso não é incomum em aquisições de tecnologia, mas a magnitude do ajuste chama atenção.
Para efeito de comparação, a Microsoft também enfrentou desafios com a Activision Blizzard, mas o caso da Bungie é mais grave proporcionalmente. A Sony basicamente reconheceu que o investimento não gerou o retorno esperado no curto prazo.
Alguns analistas apontam que a decisão de manter a Bungie operando de forma semi-independente pode ter sido um erro. A falta de integração com os estúdios internos da Sony, como a Naughty Dog ou a Insomniac, limitou sinergias que poderiam ter reduzido custos.
O que esperar da Bungie daqui para frente?
Apesar do prejuízo, a Sony não deve se desfazer da Bungie tão cedo. Seria um movimento drástico demais, e o estúdio ainda tem ativos valiosos — como a própria marca Destiny e a tecnologia por trás do Marathon.
No entanto, é provável que vejamos uma reestruturação. Cortes de pessoal já foram anunciados no início de 2026, e mais mudanças podem estar a caminho. A pergunta que fica é: será que a Bungie consegue se reinventar, ou o prejuízo de 2026 será apenas o começo de uma crise maior?
Fontes: Relatório financeiro oficial da Sony e matéria da Bloomberg sobre o resultado.
E tem mais um detalhe que muita gente ignora: o timing desse prejuízo. A Sony reportou o ajuste justamente no trimestre em que o Marathon finalmente foi lançado. Coincidência? Duvido. Parece mais uma estratégia contábil de "limpar a casa" — reconhecer o prejuízo agora, quando o jogo já está no mercado, para que os próximos trimestres mostrem uma recuperação mais limpa.
Você já parou para pensar como funciona essa lógica? Empresas grandes fazem isso direto. É o famoso "big bath" contábil: jogam todas as perdas num único período para que os resultados futuros pareçam melhores em comparação. Não estou dizendo que a Sony fez isso de propósito, mas o padrão é suspeito.
O que deu errado com o Marathon?
Vamos falar do elefante na sala: o Marathon. O jogo foi anunciado em 2023 como um extraction shooter — um gênero que estava em alta graças ao sucesso de Escape from Tarkov e Hunt: Showdown. A ideia era boa no papel: pegar a expertise da Bungie em tiroteios refinados e aplicar num formato mais hardcore e competitivo.
Mas a execução deixou a desejar. Quando o jogo entrou em beta fechado em 2025, os feedbacks já apontavam problemas: mapas confusos, progressão lenta e uma curva de aprendizado íngreme demais para atrair o público casual. A Bungie tentou ajustar, mas adiar o lançamento para 2026 não foi suficiente para corrigir os defeitos estruturais.
E tem o fator concorrência. Em 2026, o mercado de extraction shooters já estava saturado. Além dos veteranos, surgiram concorrentes como Project Delta da Ubisoft e um tal de Gray Zone Warfare que roubou boa parte da atenção dos jogadores mais hardcore. O Marathon chegou tarde e sem um diferencial claro.
Na minha opinião, a Bungie errou ao tentar agradar todo mundo. O jogo não era nem casual o suficiente para atrair fãs de Destiny, nem hardcore o bastante para conquistar os veteranos de Tarkov. Ficou num limbo estranho.
O efeito dominó em Destiny 2
Enquanto o Marathon consumia recursos, o Destiny 2 foi deixado de lado. E isso tem um custo. A base de jogadores ativos caiu cerca de 30% entre 2024 e 2026, segundo dados da SteamDB. As expansões recentes — The Final Shape e Apollo — foram bem recebidas, mas não o suficiente para reverter a tendência de queda.
O problema é que a Bungie sempre dependeu de um ciclo vicioso: conteúdo novo atrai jogadores, que compram itens da loja, que financiam mais conteúdo. Quando o estúdio desviou o foco para o Marathon, esse ciclo quebrou. As temporadas de Destiny 2 ficaram mais espaçadas e com menos conteúdo relevante.
E olha que eu sou fã de Destiny desde o primeiro jogo. Dói ver o estado atual. As filas para as atividades noturnas estão mais vazias, os clãs estão menos ativos. A comunidade sente que o estúdio abandonou o barco antes de terminar a travessia.
Alguns dados interessantes: o pico de jogadores simultâneos no Steam caiu de 316 mil em 2023 para cerca de 180 mil em 2026. Isso sem contar o declínio nos consoles, que historicamente sempre foram a plataforma principal da franquia. A Sony deve estar de olho nesses números com preocupação.
O que a Sony pode fazer agora?
Existem algumas opções na mesa, e nenhuma delas é fácil. A primeira seria uma reestruturação profunda na Bungie, com cortes de custos e foco total em Destiny 2 para estancar a sangria de jogadores. Mas isso significaria abandonar o Marathon — um investimento de centenas de milhões que ainda pode gerar receita no longo prazo.
A segunda opção seria integrar a Bungie aos estúdios da Sony de vez. Imagina só: a Naughty Dog ajudando com narrativa, a Insomniac com design de armas, a Guerrilla com tecnologia de mundo aberto. Seria um sonho para os fãs, mas um pesadelo burocrático. A Bungie sempre prezou pela independência criativa, e forçar uma integração poderia gerar atritos internos.
Tem também a possibilidade de vender partes da Bungie. A tecnologia de matchmaking e o motor gráfico do estúdio são considerados dos melhores da indústria. Empresas como a NetEase ou a Tencent já demonstraram interesse em adquirir ativos desse tipo. Mas vender tecnologia seria admitir que a aquisição como um todo não deu certo.
E não podemos esquecer do fator humano. A Bungie tem profissionais talentosos — designers, artistas, engenheiros — que poderiam ser realocados para outros projetos da Sony. Um God of War com elementos de live service? Um Horizon com matchmaking competitivo? As possibilidades existem, mas exigiriam uma mudança cultural enorme.
Fontes adicionais: Análise da GamesIndustry.biz sobre o lançamento do Marathon e Dados de jogadores simultâneos de Destiny 2 na SteamDB.
Fonte: Dexerto









