A primeira partida do VALORANT Champions Tour 2025 na Accor Arena, em Paris, já trouxe uma surpresa. Na final do chave superior, a equipe norte-americana da NRG venceu a europeia Fnatic por 2 a 0, um resultado que pegou muitos de surpresa. Com a vitória, a NRG se classificou direto para a grande final, enquanto a Fnatic terá que buscar a vaga na repescagem. Após a partida, o site THESPIKE conversou com Kaajak, o duelista principal da Fnatic. Apesar da derrota, o jogador manteve o otimismo e falou sobre o resultado, a experiência no palco principal e, é claro, sobre o mapa Abyss – que ele não poupou críticas.

Uma análise franca sobre a derrota e o mapa Abyss

Quando questionado sobre o que faltou para a Fnatic vencer no mapa Ascent, escolha da própria equipe, Kaajak foi direto. "Nós começamos devagar. Estávamos perdendo por 5 a 1 e foi difícil. Sabíamos que nosso lado de defesa era mais forte, então ainda estávamos confiantes naquela partida", explicou. Ele citou a perda de clutches e momentos de desentrosamento como fatores decisivos. "É o que é", resignou-se.

Mas foi sobre o Abyss, o segundo mapa da série, que suas opiniões foram mais contundentes. "Abyss? Eu acho que é o pior mapa do jogo. Mas você tem que jogá-lo, então...", disse, fazendo uma pausa significativa. "Quer dizer, é um mapa ok para jogar, mas definitivamente não é um mapa divertido de jogar". A declaração ecoa o sentimento de seu capitão, Boaster, que também expressou descontentamento com o mapa em coletiva de imprensa. É interessante notar como, mesmo entre os melhores do mundo, certos elementos do jogo podem ser unanimemente malvistos, mas ainda assim precisam ser dominados.

Agentes, equipamentos e o futuro do circuito

A conversa também abordou a escolha de agentes. Kaajak, conhecido por seu Yoru, acabou utilizando Waylay (nome do agente Iso) no Abyss. Ele admitiu que a "diversão" com o agente diminuiu. "Se você joga algumas partidas com o Waylay, os times sabem como você joga. Eles sabem para onde você vai dar dash e preparam uma defesa, ou sabem quais posições você ocupa na defesa... então fica mais difícil", analisou. É um lembrete de como a meta do jogo evolui rapidamente e como as estratégias inovadoras têm uma vida útil curta no topo da competição.

Como rookie (calouro) em um palco tão grandioso quanto o Champions, Kaajak compartilhou sua experiência única. "Acho que este foi, na verdade, um dos problemas: eu não senti que ia jogar uma partida importante ou algo do tipo. Eu simplesmente entrei. Me senti bastante confiante. Me senti bem relaxado, mas as coisas não saíram como queríamos". Sobre o equipamento fornecido pela organização, ele foi elogioso, mas com uma ressalva técnica que qualquer jogador hardcore entenderia: "Talvez os monitores pudessem ser melhores". Quando provocado sobre a taxa de atualização (refresh rate), brincou: "Pelo menos 360hz, sabe?"

Olhando para o futuro, Kaajak mostrou entusiasmo com o calendário anunciado para 2025, que inclui Masters em Santiago, Londres e o Champions em Xangai. "Eu diria Santiago porque nunca estive no Chile ou no Brasil ou algo assim. Isso seria muito legal. A China também é muito legal. Londres é bastante importante para a Fnatic porque eles são do Reino Unido...", ponderou, demonstrando a perspectiva global que um jogador de esports precisa ter.

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Nota: Algumas partes da entrevista escrita foram alteradas para maior clareza e/ou brevidade. Imagem em destaque: Colin Young-Wolff/Riot Games

E essa questão do Abyss é realmente intrigante, não é? Você vê jogadores profissionais, que literalmente dedicam suas vidas a dominar o jogo, expressando uma aversão tão clara por um elemento competitivo. Mas o que exatamente torna um mapa "ruim" no mais alto nível? Seria apenas uma questão de equilíbrio, ou há algo mais subjetivo, relacionado ao "feeling" e ao fluxo das rodadas? Kaajak tocou em um ponto crucial: a falta de diversão. Em um cenário onde cada detalhe é otimizado para a vitória, o prazer de jogar ainda importa. Talvez seja essa a linha tênue entre um trabalho e uma paixão.

A pressão invisível do palco principal

Voltando à experiência de Kaajak na Accor Arena, há uma camada a mais para se considerar. Ele mencionou não ter sentido que estava em uma partida importante. Soa quase contra-intuitivo, vindo de um rookie. Será que essa aparente calma era, na verdade, um mecanismo de defesa? Ou uma genuína confiança que, por um twist do destino, não se traduziu em resultado? É fascinante como a psicologia funciona nesses ambientes de alta pressão. Às vezes, a ansiedade te paralisa. Outras, a falta dela te tira o "edge", aquela centelha de urgência necessária para decisões milésimais.

E pensar que tudo isso acontece na frente de milhares de fãs ao vivo e centenas de milhares online. O barulho da torcida, as luzes, a sensação de que cada movimento seu está sendo dissecado por câmeras e comentaristas... é um tipo de exposição para o qual não há treino real. Você só aprende mergulhando. Kaajak parece ter mergulhado de cabeça, mesmo que o resultado imediato não tenha sido o ideal. Essa resiliência, aliás, é o que separa os que ficam dos que desistem após a primeira grande queda.

A evolução constante da meta: uma corrida sem fim

O comentário de Kaajak sobre o Waylay (Iso) foi um insight precioso sobre a vida útil das estratégias no VALORANT competitivo. "Se você joga algumas partidas, os times sabem como você joga." É um ciclo implacável. Uma equipe inova com um agente ou uma composição, colhe vitórias, e então, como um vírus, a contramedida se espalha pela cena. De repente, aquela jogada infalível não funciona mais. Aquele ângulo surpresa é sempre vigiado.

Isso coloca uma demanda brutal nas equipes e nos analistas. Não basta ser bom no jogo atual; é preciso estar dois, três passos à frente, antecipando o que a meta *vai se tornar*. É um jogo de xadrez onde as peças mudam de poder a cada torneio. E para um duelista como Kaajak, cujo estilo agressivo e imprevisível com Yoru o tornou famoso, adaptar-se a um agente mais "sistêmico" como o Iso pode ser um desafio particular. Requer repensar timings, reposicionamentos e até a própria identidade dentro do time. É como um guitarrista de rock tentando tocar jazz – a base está lá, mas o ritmo e a improvisação são totalmente diferentes.

E falando em equipamentos, a brincadeira sobre os 360hz vai direto ao coração de qualquer competidor. Para nós, meros mortais, a diferença entre 240hz e 360hz pode ser imperceptível. Mas no nível deles, onde um frame pode significar a diferença entre um headshot e uma morte, cada vantagem marginal é perseguida com fervor. É um lembrete de que o cenário competitivo é um ecossistema que vai muito além do software – o hardware, o conforto, a latência, tudo é parte da equação da performance.

O mundo como um palco: a vida nômade do pro player

A empolgação de Kaajak com os destinos de 2025 – Santiago, Londres, Xangai – revela outro lado da moeda. Por trás das derrotas e das críticas a mapas, há a aventura. A chance de conhecer culturas novas, de jogar para torcidas diferentes, de provar comidas estranhas (e torcer para não passar mal antes de um jogo importante). É uma carreira única, que compacta experiências de uma vida inteira em poucos anos.

Mas também é desgastante. Jet lag constante, hotéis, treinos em salas emprestadas, longe de casa e da rotina normal. A saudade bate. A pressão para performar em solo estrangeiro, sem a energia caseira, é outra. Quando ele menciona Londres ser importante para a Fnatic, toca nesse ponto: a chance de dar alegria para a torcida local, de criar uma memória especial em "casa", mesmo que a organização seja multinacional. Esses momentos são combustível para a moral da equipe.

E Santiago... um campeonato major na América do Sul. Isso promete uma atmosfera elétrica. A paixão das torcidas sul-americanas é lendária. Jogar lá, seja para aclamação ou vaias, é uma prova de fogo diferente. Será que a Fnatic, com seu estilo europeu mais metódico, se adaptaria ao caos controlado que times da região podem impor? São esses contrastes que tornam o circuito global tão rico.

No fim das contas, uma entrevista como essa vai além do placar de 2 a 0. Ela mostra os pensamentos, as frustrações, as expectativas e a humanidade por trás dos nicknames e dos uniformes. Kaajak pode não ter gostado do Abyss, e a Fnatic pode ter perdido essa partida, mas o caminho até o Champions está longe de terminar. A repescagem é uma segunda chance, muitas vezes mais cruel e emocionante do que o caminho principal. A pergunta que fica é: como eles vão digerir essa derrota? O que vão ajustar? O Abyss continuará sendo um calcanhar de Aquiles, ou eles encontrarão uma maneira de transformar o "pior mapa" em uma fortaleza inesperada? A beleza do esporte está justamente nesse "a se ver".



Fonte: THESPIKE