Todo mês, a Valve nos dá uma janela fascinante para os hábitos de jogo dos donos do Steam Deck, e setembro de 2025 não foi exceção. A lista, baseada no tempo total de jogo acumulado por todos os usuários, revelou não apenas os lançamentos quentes do momento, mas também uma tendência interessante de jogos que se tornaram companheiros de viagem perfeitos para o portátil. E, para ser sincero, algumas das escolhas me surpreenderam – mas fazem todo o sentido quando você pensa na experiência de jogo em um dispositivo móvel.

No Man's Sky sendo jogado em um dispositivo portátil

Os Campeões de Setembro: Novidades e Clássicos

O topo da lista foi dominado por um lançamento que os fãs aguardavam há anos. Hollow Knight: Silksong não só estreou em primeiro lugar, mas também deu um impulso significativo ao seu antecessor, Hollow Knight, que conquistou a segunda posição. É um fenômeno comum: um novo capítulo reacende o amor pelo universo e leva os jogadores a revisitarem – ou descobrirem pela primeira vez – a obra original. E a um preço de lançamento de R$ 59,99 na Steam, Silksong se mostrou uma proposta de valor tentadora.

O terceiro lugar ficou com outro gigante que saiu da acesso antecipado: Hades II. A combinação de uma jogabilidade roguelike viciante, sessões relativamente curtas e um desempenho sólido no Deck parece ter sido a fórmula perfeita para cativar os jogadores. Mas a lista vai muito além dos lançamentos.

Personagem de Hades II em ação

O que realmente me chamou a atenção foi a presença forte de títulos que são, digamos, "amigos do portátil". Jogos como Stardew Valley, Balatro e o próprio No Man's Sky (que apareceu em quarto!) compartilham uma característica: são incrivelmente adequados para jogar em sessões de 20 minutos no sofá ou em longas viagens. Eles oferecem progressão constante, mecânicas envolventes e, muitas vezes, uma sensação relaxante que combina bem com o formato portátil.

O Ecossistema Steam Deck: Mais do que uma Lista

É crucial entender como essa lista é compilada, porque ela conta apenas parte da história. A Valve contabiliza apenas as horas jogadas em títulos rodando nativamente pela Steam. Isso significa que uma vasta quantidade de jogabilidade fica de fora da métrica oficial.

Pense bem: quantos donos de Deck você conhece que instalaram a Epic Games Store ou a GOG via métodos não oficiais? Ou que dual-bootam com Windows para acessar o Game Pass? Eu mesmo já perdi horas (que não contaram para essa lista) em títulos do Game Pass no meu Deck. A lista, portanto, é um retrato fiel do que está popular dentro do ecossistema Steam oficial, mas subestima a diversidade real de jogos que o hardware consegue executar.

Isso levanta uma questão interessante: será que a experiência de jogo no SteamOS é tão superior que mantém os jogadores dentro do ambiente da Steam, ou a conveniência de ter a biblioteca toda em um só lugar é o fator decisivo? A flexibilidade do Deck é uma de suas maiores forças, mas essa métrica mensal só consegue medir um segmento dela.

O Que Essa Lista Nos Diz Sobre o Público do Deck?

Analisando os títulos que aparecem consistentemente – Baldur's Gate 3, um RPG massivo e denso; Deep Rock Galactic: Survivor, um auto-shooter; os já citados Hades e Hollow Knight –, podemos traçar um perfil. O público do Steam Deck parece valorizar:

  • Jogabilidade profunda e rejogabilidade: Muitos dos tops são roguelikes ou têm elementos que incentivam múltiplas playthroughs.
  • Progressão em sessões curtas: A capacidade de salvar e retomar rapidamente, ou de completar uma "corrida" em meia hora.
  • Experiências imersivas de longo fôlego: Sim, mesmo um RPG como Baldur's Gate 3 encontra seu público, provavelmente para longas sessões em casa, mostrando que o Deck também é um console de sofá.
  • Indies e AAAs lado a lado: Não há preconceito. A lista é uma mistura saudável de produções independentes aclamadas e grandes lançamentos.

E aí, o seu jogo favorito no Deck apareceu na lista? A ausência de algum título te surpreendeu? A beleza dessas listas mensais é que elas geram conversas e nos fazem pensar sobre como, onde e por que jogamos. Setembro foi claramente o mês dos sequels aguardados e dos indies atemporais. Resta saber se outubro trará novas surpresas ou a consolidação desses favoritos.

Falando em ausências, você notou que alguns "suspeitos habituais" dos rankings tradicionais da Steam não apareceram com tanta força aqui? É um ponto que merece uma pausa para reflexão. Títulos competitivos online intensos, como Counter-Strike 2 ou Apex Legends, que dominam as listas de PC tradicionais, têm uma presença mais modesta no Deck. Será que o controle tátil, em comparação com mouse e teclado, desencoraja um pouco? Ou será que o público do Deck, em sua maioria, busca uma experiência de jogo mais pessoal e menos voltada para a performance competitiva em tempo real quando está no portátil? Eu, particularmente, evito jogos PvP no Deck justamente por essa sensação de desvantagem – prefiro reservá-los para a mesa.

Baldur's Gate 3 rodando na tela do Steam Deck

A Otimização Invisível: O Trabalho Nos Bastidores

Um aspecto que raramente é celebrado, mas é absolutamente vital para entender por que certos jogos florescem no Deck, é o selo "Verificado" ou "Jogável" da Valve. Pegue Baldur's Gate 3, por exemplo. Um RPG colossal, com cenários densos e dezenas de personagens na tela. Como ele consegue ser tão popular em um hardware portátil? A resposta está em um trabalho meticuloso de otimização, tanto da Larian Studios quanto da própria Valve através do Proton (a camada de compatibilidade que permite jogos Windows rodarem no SteamOS).

É uma dança complexa. Os desenvolvedores ajustam configurações gráficas padrão, tamanho de texto para a tela de 7 polegadas, e mapeamento de controles. A Valve, por sua vez, constantemente aprimora o Proton para tratar de problemas específicos de DirectX ou de anti-cheat. Quando você vê um jogo como esse no topo, não está vendo apenas um jogo bom – está vendo o sucesso de uma colaboração técnica silenciosa. E isso me faz pensar: quantas horas de engenharia estão por trás de cada hora de jogo registrada nessa lista?

Por outro lado, a ausência do selo "Verificado" não é necessariamente uma sentença de morte. A comunidade é incrivelmente proativa. Sites como ProtonDB são repletos de relatos de usuários que encontraram configurações manuais para fazer jogos "Não Suportados" rodarem perfeitamente. Essa camada de esforço comunitário é outro pilar do ecossistema que a lista oficial não captura. É quase uma cultura de "faça você mesmo" que empodera o dono do Deck a ir muito além do que a Valve certificou.

O Efeito "Preço do Deck" na Escolha dos Jogos

Aqui vai uma teoria pessoal, baseada em conversas com outros donos do aparelho: existe um viés de valor. Após investir uma quantia considerável no hardware, muitos jogadores (eu me incluo nisso) tendem a ser mais seletivos com os jogos que compram, especialmente os lançamentos AAA a preço cheio. O Deck se torna a plataforma perfeita para explorar aquela biblioteca de jogos indie ou em promoção que ficou esquecida. Não é à toa que títulos como Vampire Survivors ou Terraria têm uma vida tão longa nessas listas.

São jogos que oferecem dezenas, senão centenas, de horas de diversão por uma fração do custo de um lançamento blockbuster. Essa economia do entretenimento por hora jogada fica muito evidente. O portátil, então, transforma-se não só em uma máquina de jogar, mas em uma máquina de extrair valor de uma biblioteca já existente. É uma dinâmica fascinante que distorce um pouco a comparação direta com os rankings do PC tradicional, onde o hype do lançamento a preço cheio muitas vezes domina.

E isso nos leva a um futuro interessante. Com a rumores constantes de um "Steam Deck 2", como a promessa de mais poder de processamento vai alterar esse panorama? Vamos começar a ver mais jogos exigentes, como os feitos na Unreal Engine 5, subirem nas listas? Ou o apelo dos indies bem otimizados e dos jogos "amigos da bateria" vai permanecer inabalável, porque toca na essência do que é jogar em um portátil: conveniência e imersão pessoal, não necessariamente gráficos de ponta? A Valve criou, sem querer, um laboratório vivo de hábitos de jogo móvel.

Olhando para o horizonte, outubro já traz seus próprios candidatos. Títulos com modos campanha sólidos e que prometem boa performance no portátil naturalmente chamam a atenção. Mas a verdadeira revolução pode estar em outro lugar. A crescente adoção de ferramentas de IA para geração de conteúdo procedural em jogos indie pode criar uma nova leva de títulos com rejogabilidade infinita, perfeitos para o formato portátil. Imagine um roguelike onde os biomas e inimigos são sempre únicos, gerados localmente no Deck. Seria o sonho de consumo para sessões curtas e eternas.

Steam Deck OLED mostrado em um ambiente casual

Enquanto isso, a lista de setembro permanece como um instantâneo. Ela não é definitiva, nem totalmente abrangente, mas é um reflexo poderoso de uma comunidade que abraçou uma forma diferente de jogar. Uma comunidade que valoriza a flexibilidade, a profundidade da jogabilidade sobre os gráficos ultrarrealistas (embora também os aprecie) e a magia de levar mundos complexos no bolso. A cada mês, esses dados nos convidam a não apenas ver o que está popular, mas a questionar por quê. E essa, talvez, seja a conversa mais valiosa de todas.

Fonte: Adrenaline