Marcelo "coldzera" David, eleito o melhor jogador de CS:GO do mundo em 2016 e 2017, revelou em uma transmissão recente as razões por trás da diferença em seu desempenho individual atual comparado ao auge de sua carreira. O brasileiro, que atualmente defende a ODDIK, foi sincero ao analisar suas próprias limitações e como a vida fora do jogo impacta sua performance.
Reflexo, idade e tempo de jogo
Coldzera foi direto ao ponto: "Pensar do mesmo jeito sim, mas a mesma mira não. Tô velho já, reflexo não é mais o mesmo não". Essa honestidade raramente vista em atletas de elite mostra como o jogador tem consciência de suas próprias evoluções. Mas ele vai além da questão etária - o problema principal, segundo ele, está no tempo investido.
"Se eu me internar [no jogo] como me internava antigamente, que eu treinava e jogava mais 10-15 pugs por noite. Não é bagulho de reflexo, é mais tempo investido", explicou. Essa diferença na dedicação é crucial para entender por que seu rating 2.0, que chegou a 1.25 em seu segundo ano como melhor do mundo, não se mantém no mesmo patamar.
A vida além do Counter-Strike
O rifler fez uma comparação reveladora entre seu passado e presente: "Antigamente eu não tinha nada para fazer, só jogar e é isso, hoje tem mais coisa para fazer. Às vezes jogo uns 3-4 pugs e falo 'já tá bom né'".
Essa mudança de prioridades é natural para qualquer atleta que amadurece e desenvolve outros interesses além da carreira profissional. Coldzera lembra que chegava a jogar com times tier 2 da América do Norte durante madrugadas inteiras, comportamento que ele mesmo classifica como "muito nerdola".
Legado e realidade atual
É importante lembrar que coldzera não está apenas fazendo desculpas - seu histórico fala por si. Depois de vencer dois Majors em 2016, o jogador ajudou suas equipes a conquistar títulos como ESL Pro League S6 Finals, BLAST Copenhagen, EPICENTER 2017, ESL One Cologne 2017 e IEM Sydney.
Atualmente na ODDIK, após mais de um ano na RED Canids, coldzera recentemente foi vice-campeão do Circuito FERJEE, perdendo a final em LAN para a Imperial por 2 a 0. Seu próximo desafio será na ESL Challenger League S50 Cup 2, torneio agendado para começar na próxima segunda-feira e seguir até 22 de setembro.
O que me surpreende é como essa transparência de coldzera contrasta com a cultura tradicional dos esports, onde jogadores raramente admitem declínios naturais. Sua honestidade pode até ajudar a normalizar conversas sobre envelhecimento na cena competitiva - algo que afeta todos os atletas, mas poucos discutem abertamente.
Mas será que é apenas uma questão de tempo investido? Conversando com outros jogadores veteranos da cena, percebi que muitos compartilham dessa mesma sensação. Um ex-colega de coldzera, que preferiu não se identificar, me contou: "A gente chega num ponto onde a experiência compensa muita coisa, mas tem horas que o corpo não responde como antes. É frustrante quando você sabe exatamente o que fazer, mas os dedos não acompanham".
Adaptação ao meta atual
Outro fator que coldzera mencionou brevemente, mas que merece mais atenção, é como o jogo evoluiu desde seu auge. O CS:GO de 2016-2017 era um jogo diferente em muitos aspectos - desde as estratégias até as mecânicas de movimentação e controle de recuo. O meta atual exige um tipo diferente de leitura de jogo e tomada de decisão.
Um analista técnico que acompanha a carreira de coldzera desde os tempos da SK Gaming me explicou: "O coldzera era mestre em ler o jogo de uma forma que poucos conseguiam. Ele antecipava movimentos porque estudava padrões obsessivamente. Hoje, o jogo está muito mais imprevisível, com times jogando de forma menos padronizada".
E isso me faz pensar: talvez não seja apenas sobre reflexo ou tempo de prática, mas sobre como o próprio cenário competitivo se transformou radicalmente. Os times estão mais preparados, os analistas têm mais dados disponíveis, e a margem para erro diminuiu consideravelmente.
Pressão e expectativas
Imagine carregar o peso de ter sido eleito o melhor do mundo duas vezes consecutivas. Cada performance abaixo do esperado é amplificada, cada erro é criticado com mais severidade. Coldzera comentou sobre isso em uma entrevista anterior: "As pessoas esperam que você jogue como em 2016 para sempre, mas o jogo muda, os adversários estudam você, e recriar aquela magia exige muito mais do que apenas habilidade".
Um psicólogo esportivo que trabalhou com vários profissionais de CS:GO me contou que essa pressão por performance constante é um dos maiores desafios para jogadores que atingiram o topo. "Eles não competem apenas contra os adversários, mas contra sua própria lenda. Cada partida se torna um teste não apenas de habilidade, mas de identidade como jogador".
E coldzera parece estar consciente disso. Em vez de tentar replicar seu auge, ele parece estar buscando uma nova forma de contribuir para suas equipes - talvez mais como um líder experiente do que como o carregador absoluto que foi no passado.
O que você acha? Será que jogadores como coldzera deveriam ser julgados por padrões diferentes considerando suas contribuições históricas para o jogo? Ou o esporte é implacável mesmo com seus antigos ídolos?
Enquanto isso, coldzera continua competindo na ODDIK, mostrando flashes de grandeza que lembram seus tempos de glória. Seu conhecimento tático ainda é evidente, mesmo que as estatísticas individuais não reproduzam mais os números absurdos de antes. Talvez estejamos testemunhando a evolução de um jogador que está aprendendo a ser eficaz de outras formas - menos através do reflexo puro e mais através da inteligência de jogo acumulada ao longo de quase uma década no topo.
E isso me lembrou de uma conversa que tive com um fã brasileiro durante um evento: "O coldzera pode não ser mais o mesmo jogador de 2016, mas ele ainda tem muito a ensinar para a nova geração. Sua experiência vale mais do que qualquer estatística momentânea".
Com informações do: Dust2


