Em um momento de transparência rara no mundo dos influenciadores, Imane "Pokimane" Anys finalmente abordou o destino de sua marca de biscoitos, Myna Snacks, que desapareceu silenciosamente das prateleiras. A streamer, uma das maiores personalidades da Twitch, compartilhou os bastidores de uma empreitada que começou com grande entusiasmo, mas encontrou desafios inesperados no caminho.
O sonho da Myna Snacks e a realidade do mercado
Lançada em 2022, a Myna Snacks foi apresentada como uma extensão natural da personalidade de Pokimane – algo divertido, gostoso e feito com carinho para sua comunidade. A ideia era criar biscoitos que fossem um "snack de conforto", algo para acompanhar as longas sessões de stream ou estudo. No início, o feedback foi positivo. Mas, sabe como é, o diabo mora nos detalhes.
Produzir e distribuir um produto alimentício em escala nacional (ou internacional) é um negócio complexíssimo, muito diferente de vender merch ou assinaturas. Logística, prazos de validade, custos de produção, distribuição para varejistas... a lista de obstáculos é longa. E, francamente, a margem de lucro em alimentos embalados é notoriamente apertada, especialmente para uma marca nova sem o poder de compra de uma gigante como a Nestlé ou a Mondelēz.
Os desafios que não aparecem na câmera
Em suas explicações, Pokimane tocou em pontos que muitos empreendedores de primeira viagem reconheceriam. Ela mencionou a dificuldade de escalar a operação de forma que fizesse sentido financeiro. Você pode vender um lote inicial para seus fãs mais dedicados, mas e depois? Como você mantém a produção rodando quando a demanda inicial, movida pela novidade, eventualmente estabiliza?
Há também a pressão implícita de colocar seu nome em um produto físico. Se um jogo patrocinado não for perfeito, é uma coisa. Mas se um biscoito chegar quebrado, com o sabor errado ou, pior, causar qualquer problema, a repercussão para a imagem pessoal do influenciador é direta e muito mais intensa. "É meu rosto na embalagem", ela deve ter pensado. A responsabilidade é enorme.
Além disso, o tempo e a energia mental demandados são brutais. Gerenciar uma empresa de alimentos não é um "side project"; é um trabalho em tempo integral. Para alguém cuja carreira principal já é extremamente demandante – com streams, edição de vídeos, aparições públicas e gestão de sua própria marca pessoal –, adicionar essa camada extra de estresse pode simplesmente não ser sustentável.
Um legado de aprendizado, não de fracasso
O que me chamou a atenção foi a maturidade com que Pokimane tratou o assunto. Não houve drama, nem busca por culpados, nem promessas vazias de um retorno. Foi um balanço honesto: "Tentamos, aprendemos muito, mas no momento não é viável continuar". E isso é algo poderoso.
Num ecossistema onde influencers frequentemente anunciam produtos com fogos de artifício e os abandonam em silêncio quando não dão certo, essa honestidade é refrescante. Ela normaliza a ideia de que nem todo projeto precisa ser um sucesso estrondoso para valer a pena. O aprendizado em si tem valor.
E, pensando bem, quantos de nós já não nos empolgamos com uma ideia, investimos tempo e recursos, e depois percebemos que o custo (seja financeiro, emocional ou de tempo) era maior do que estávamos dispostos a pagar a longo prazo? A história da Myna Snacks é, no fundo, uma lição de empreendedorismo aplicada ao mundo dos criadores de conteúdo. Mostra que mesmo com uma audiência de milhões, algumas barreiras do mercado são universais.
O silêncio em torno do fim da marca, até agora, também é revelador. Talvez seja um sinal de que o mundo dos influencers está amadurecendo. Em vez de transformar cada revés em um conteúdo dramático para engajamento, há espaço para decisões de negócios quietas e respeitosas. A comunidade de Pokimane parece ter entendido isso, reagindo com apoio e compreensão às suas explicações.
E isso me faz pensar: será que estamos vendo o início de uma nova fase para os negócios de influenciadores? Por anos, o modelo padrão era lançar qualquer coisa com seu nome – roupas, produtos de beleza, suplementos – e torcer para que a audiência comprasse por lealdade. Mas a experiência da Myna Snacks sugere que talvez o público esteja ficando mais seletivo, e os próprios criadores, mais conscientes dos riscos reais.
Não me entenda mal – ainda há espaço para colaborações genuínas e produtos bem-feitos. Mas a barreira para entrar em mercados altamente regulados e competitivos, como o de alimentos, é absurdamente alta. Requer parcerias com fabricantes confiáveis, compliance com agências como a ANVISA (no Brasil) ou FDA (nos EUA), e uma cadeia de distribuição robusta. São desafios que um post patrocinado no Instagram simplesmente não prepara ninguém para enfrentar.
O custo oculto da expansão de marca
Algo que raramente é discutido abertamente é o desgaste emocional de diversificar para muito longe do seu core business. Pokimane é, antes de tudo, uma entertainer. Sua habilidade principal é conectar-se com as pessoas através de uma tela, seja jogando, conversando ou reagindo a vídeos. Gerenciar fornecedores, negociar com caminhoneiros e lidar com reclamações de clientes sobre biscoitos amassados... bem, isso está a anos-luz da sua zona de conforto e expertise.
E há uma ironia aqui. Muitos fãs adoram influenciadores justamente pela autenticidade, pela sensação de que estão interagindo com uma pessoa real, não uma corporação. Mas ao se tornarem marcas multiproduto, eles arriscam se transformar naquilo que seus seguidores talvez não queiram comprar: mais uma empresa impessoal. O charme da Myna Snacks era ser "o biscoito da Poki". Mas no momento em que os problemas logísticos surgem, a "Poki" tem que vestir o chapéu de CEO, e a magia pode se dissipar um pouco.
Conversando com outros criadores de conteúdo, percebo que esse dilema é comum. A pressão para monetizar a audiência de todas as formas possíveis é enorme. As plataformas mudam seus algoritmos, as receitas de anúncios flutuam, então diversificar parece a única estratégia sensata. Mas diversificar para onde? O caso da Myna é um lembrete de que nem todas as estradas são transitáveis, mesmo com um mapa cheio de seguidores.
E o que fica para outros criadores?
Então, qual é a lição prática aqui? Acho que vai além de "não lance uma marca de biscoitos". A reflexão é mais sobre alinhamento e profundidade de envolvimento. Talvez, para um criador, faça mais sentido uma parceria profunda com uma marca estabelecida de snacks, onde ele contribui com o desenvolvimento do sabor e o marketing, mas a gigante da logística assume a parte operacional pesada. Ou focar em produtos digitais, cursos, ou até mesmo em mercadorias físicas com cadeias de suprimentos mais simples e previsíveis.
Outro ponto crucial é a transparência pós-projeto. O que acontece quando a coisa não dá certo? O silêncio de Pokimane por um tempo foi compreensível – ninguém quer anunciar um "fracasso". Mas sua decisão posterior de abordar o assunto abertamente, sem vitimismo, provavelmente fez mais pela sua credibilidade como empresária do que se o produto tivesse sido um sucesso moderado. Mostrou resiliência e inteligência emocional. Na era do "fingir até conseguir", admitir que algo foi mais difícil do que o esperado e que você optou por mudar de rumo é, paradoxalmente, uma demonstração de força.
E a comunidade? Bem, a reação foi um caso de estudo. Em vez de zombaria ou cobrança, prevaleceu o apoio. "Pelo menos você tentou", "Obrigado pela honestidade", "Aprendemos juntos". Isso revela uma maturidade incrível de ambos os lados da tela. Sugere que o relacionamento entre criador e audiência pode sobreviver – e até se fortalecer – quando baseado em respeito mútuo, e não apenas na promessa de um próximo produto legal.
No fim das contas, a jornada da Myna Snacks talvez seja mais valiosa do que o produto em si. Ela serviu como um experimento público, um teste de fogo sobre os limites da expansão de marca no mundo dos influenciadores. E os resultados, embora tenham significado o fim dos biscoitos, estão cheios de insights para qualquer um que pense em transformar seu alcance online em um negócio físico. Às vezes, o maior sucesso não está no lançamento, mas na sabedoria adquirida para saber quando fazer uma pausa, recalibrar e escolher uma batalha diferente para lutar.
Fonte: Dexerto









