O cenário competitivo de VALORANT está prestes a passar por sua maior transformação desde a adoção do modelo de franquias. Em uma revelação franca durante uma participação no canal Platchat, Leo Faria, o head global de esports do jogo, confirmou que a Riot Games está mirando um futuro com menos jogos no formato de liga e um calendário repleto de torneios internacionais. A mudança, que começa a ser esboçada já em 2026, promete sacudir a estrutura atual e redefinir como os fãs consomem o esporte eletrônico. Mas será que essa transição será tranquila para as equipes parceiras que investiram pesado no modelo atual?
O Fim de uma Era: O Modelo de Liga Sob Revisão
Leo Faria foi direto ao ponto: o atual sistema, baseado nas ligas regionais das Américas, EMEA, Pacífico e China, tem "prazo de validade". A meta declarada da Riot é migrar para um ecossistema mais dinâmico, onde grandes torneios pontuados ao longo do ano ganhem protagonismo. No entanto, Faria reconhece os desafios práticos dessa mudança. As equipes parceiras, que pagaram uma vultosa taxa de entrada para garantir um lugar nas ligas, têm expectativas contratuais sobre um número mínimo de partidas e visibilidade.
"Queremos nos mover para um futuro com mais torneios e menos jogos em estilo de liga. Esse é o futuro em que queremos viver agora", afirmou Faria. "Ainda estamos em um mundo, em 2026, onde temos ligas, nossas equipes parceiras têm expectativas e queremos cumpri-las. Então não estamos tirando o band-aid e dizendo que tudo será torneio porque, se fizermos isso, vamos diminuir o número mínimo de partidas das equipes — e eu provavelmente vou ser assassinado nas ruas." A analogia do curativo é reveladora. A Riot parece consciente de que uma mudança brusca poderia alienar seus principais stakeholders, as organizações. É um equilíbrio delicado entre a visão de longo prazo e os compromissos de curto prazo.
2026: O Ano da Transição e os Primeiros Sinais de Mudança
O calendário competitivo para o próximo ano já dá pistas concretas de como essa transição começará. A alteração mais significativa será no Stage 2 do VCT, cujos playoffs serão "itinerantes" — ou seja, realizados fora das sedes fixas das ligas internacionais, mais parecidos com um torneio tradicional. Outra novidade importante é a abertura de vagas no campeonato mundial, o VALORANT Champions, para equipes do circuito Challengers, a divisão de acesso. Isso cria uma ponte mais sólida entre as bases do cenário e o topo, aumentando o dinamismo e as chances de surgirem zebras.
Na minha opinião, essas mudanças são astutas. Elas testam as águas para um formato mais baseado em eventos sem descartar de vez a estrutura que sustenta o ecossistema financeiro atual. É como aprender a nadar sem sair da borda da piscina. Mas Faria deixa claro que 2026 é apenas o aquecimento. A verdadeira revolução está marcada para 2027.
2027: O "Recomeço" Prometido e um Novo Capítulo
É aqui que as coisas ficam realmente interessantes. Leo Faria foi categórico ao dizer que, a partir de 2027, a Riot terá liberdade para refazer o circuito como bem entender. "A verdade é que, se eu puder ser completamente honesto, começando em 2027 podemos fazer o que diabos quisermos. Então haverá mudanças mais substanciais", declarou. Essa afirmação sugere que os contratos ou acordos com as equipes parceiras podem ter cláusulas de revisão ou término que se ativam nessa data, dando à Riot um novo ponto de partida.
O que isso significa na prática? É pura especulação no momento, mas abre espaço para um formato completamente novo. Podemos ver a extinção das ligas regionais como as conhecemos, substituídas por uma série global de torneios Masters que concedem pontos para um campeonato mundial ainda maior. Ou talvez um sistema misto, com ligas mais curtas e seletivas. A promessa é de um "recomeço", palavra que carrega tanto esperança quanto incerteza para as organizações. Para os fãs, no entanto, a perspectiva de mais confrontos internacionais de alto nível ao longo de todo o ano é, sem dúvida, tentadora. Afinal, quem não gosta de uma boa final de torneio com plateia lotada?
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Mas vamos pensar um pouco sobre o que realmente está em jogo aqui. A transição de um modelo de liga para um de torneios não é apenas uma mudança de calendário; é uma alteração fundamental na economia do esporte. As ligas, com seus jogos semanais e transmissões regulares, oferecem uma previsibilidade de receita que é o sonho de qualquer patrocinador. É um produto consistente, quase como uma série de TV. Torneios, por outro lado, são eventos de pico. Geram um frenesi enorme, mas são esporádicos. A pergunta que fica é: será que a audiência e o engajamento conseguem se manter nesses vales entre um grande evento e outro?
O Desafio Financeiro: Das Taxas de Franquia aos Prêmios em Dinheiro
Não dá para ignorar o elefante na sala: o investimento inicial das organizações. Os valores pagos para entrar nas ligas internacionais do VCT foram astronômicos, rumores na casa de dezenas de milhões de dólares. Esse dinheiro comprou, em teoria, um assento permanente à mesa e uma fatia garantida da receita. Em um ecossistema baseado em torneios, a lógica muda. A estabilidade dá lugar à meritocracia extrema. Se sua equipe não se classificar para os grandes eventos, você basicamente fica de fora da festa — e do caixa.
Como a Riot vai equilibrar isso? Será que veremos um sistema de "convites" ou "pontos de franquia" que garanta a presença das organizações parceiras em certos torneios, mesmo com desempenho ruim? Ou a empresa vai compensar as equipes de outra forma, talvez com uma participação maior na receita de merchandising e transmissões? Faria mencionou o compromisso com as expectativas das equipes, mas os detalhes são nebulosos. É fácil prometer um futuro brilhante; o difícil é pagar a conta do presente.
E os jogadores? Para eles, a mudança pode ser uma faca de dois gumes. Por um lado, torneios internacionais oferecem palcos gloriosos e a chance de se tornar uma lenda da noite para o dia — pense no estrelato que um campeão de um Masters pode alcançar. Por outro, a pressão é imensa. Um mau desempenho em poucas partidas pode significar a eliminação precoce e meses de inatividade no cenário global. A rotina de treinos e a saúde mental sob esse modelo de "tudo ou nada" serão um desafio colossal.
O Impacto nos Fãs e na Narrativa do Esporte
Do ponto de vista do espectador, a promessa é sedutora: mais clássicos internacionais, mais finais eletrizantes, menos jogos "de meio de tabela" que às vezes parecem ter poucas consequências. Mas há uma magia nas ligas que pode se perder. A construção de rivalidades regionais, a narrativa de uma temporada longa, a trajetória de uma equipe que se recupera de um começo ruim — tudo isso fica mais difícil em um calendário fragmentado.
Imagine a NFL ou a Premier League sendo substituídas por uma série de Super Bowls ou finais da Champions League ao longo do ano. É emocionante? Sem dúvida. Mas você perde a história. Perde a constância. O torcedor médio de VALORANT talvez não se importe. Ele quer ver o melhor contra o melhor, e ponto final. Mas para o fã hardcore, aquele que acompanha todas as partidas, conhece as estatísticas e vive as narrativas, a liga oferece uma profundidade que um torneio isolado não consegue replicar.
E não podemos esquecer do aspecto geográfico. As ligas regionais criaram centros de excelência e desenvolveram cenas locais. O que acontece com a cena brasileira, por exemplo, se a liga das Américas deixar de existir? Os times BR ainda terão a mesma exposição regular, ou serão forçados a se mudar para os Estados Unidos ou a viajar constantemente para se manterem relevantes? A identidade regional, um pilar tão forte no esporte tradicional, pode se diluir em um circuito globalizado.
O Que Outros Jogos Ensinam? Lições do CS:GO e do League of Legends
A Riot não está inventando a roda. Basta olhar para o cenário do Counter-Strike, que sempre foi movido a torneios independentes (até a chegada da BLAST Premier e do ESL Pro Tour, que tentaram impor uma estrutura mais parecida com uma liga). O modelo de CS é caótico, intenso e incrivelmente popular. As equipes viajam o mundo todo, os jogadores são estrelas globais e os maiores eventos lotam estádios. No entanto, também é um ambiente brutal para as organizações, com pouca estabilidade financeira a longo prazo — quantas marcas icônicas do CS já fecharam as portas?
Curiosamente, a Riot está fazendo o caminho inverso com League of Legends, seu outro titã. O LoL, após anos de ligas regionais, está justamente tentando injetar mais elementos de torneio no calendário, com o Mid-Season Invitational e um formato de Worlds mais longo. Parece que a empresa está convergindo os modelos de seus dois principais esports para um meio-termo. Será que existe uma fórmula ideal que eles estão buscando?
O que me preocupa, em meio a todo esse planejamento estratégico, é o jogador casual. A pessoa que assiste uma ou duas partidas por semana. Ela vai conseguir acompanhar um circuito baseado em torneios? A liga oferece um ponto de entrada fácil: "toda quinta tem jogo do LOUD". Em um mar de siglas de eventos (Masters Madrid, Masters X, Champions Tour Y), o fã casual pode simplesmente se perder e desistir. A acessibilidade é um trunfo que não pode ser negligenciado.
No fim das contas, a declaração de Leo Faria é um reconhecimento tácito de que o modelo atual, por mais seguro que seja, pode estar engessando o potencial de crescimento do esporte. É uma aposta arriscada. A Riot está basicamente dizendo: "Acreditamos que a emoção de torneios frequentes vai gerar mais audiência, mais engajamento e, consequentemente, mais dinheiro para todo mundo do que a segurança monótona das ligas."
Só o tempo dirá se eles estão certos. Enquanto isso, as equipes, os jogadores e nós, fãs, ficamos no limbo, entre a estrutura que conhecemos e o futuro incerto que está sendo desenhado. A sensação é a de estar prestes a trocar um carro confiável, porém comum, por um foguete experimental. Pode ser a viagem da nossa vida, ou podemos explodir na decolagem. A contagem regressiva para 2027 já começou.
Fonte: THESPIKE

