A estratégia da paiN Gaming para 2025 era clara: treinar no Brasil, mas focar exclusivamente em competições internacionais. Agora, em 2026, o cenário mudou. Em uma entrevista à Dust2 Brasil, o jogador Rodrigo "biguzera" Bittencourt explicou os motivos por trás da decisão do time de voltar a disputar torneios locais, começando pela FERJEE In House. A mudança, segundo ele, não foi por capricho, mas uma resposta pragmática a um sistema de pontuação que recompensa mais a presença doméstica.
A Lógica por Trás da Decisão
"Acho que foi um pouco por causa do método agora do VRS", começou biguzera, referindo-se ao sistema de ranking que define as vagas para os grandes torneios. "Somos um time que se adapta a como achamos que tem que ser. Então, com essa mudança, querendo ou não, os times estão disputando mais LANs locais e acabam pontuando mais do que nós lá fora."
E aí está o cerne da questão. Enquanto a paiN buscava glória em palcos internacionais, times que se dedicavam ao circuito brasileiro acumulavam pontos preciosos no VRS. O resultado? Uma desvantagem na corrida por vagas em eventos como o Major de Cologne. Biguzera foi direto: "Nos vimos na necessidade de voltar para o Brasil e tentar essa pontuação".
É uma decisão que fala muito sobre o estado competitivo atual. Você já parou para pensar como um sistema de pontuação pode alterar completamente a rota de uma equipe de elite? A paiN, conhecida por sua ambição global, agora precisa olhar para dentro para garantir seu lugar lá fora. "Foi uma questão mais lógica", reforçou o jogador. "Acho que era muito óbvio que tínhamos que tomar essa decisão."
Uma Nova Estratégia para o Segundo Semestre
Com a participação confirmada na FERJEE In House e no Circuit X Mayhem — as duas principais LANs brasileiras antes do corte para o Major —, a paiN desenha um novo mapa para 2026. A ideia, segundo biguzera, é uma espécie de calendário dividido.
"Para ser bem sincero, é algo que temos que estudar a fundo", admitiu. "Acho que a nossa prioridade a partir de agora é o VRS, se continuar dessa forma. Então, temos que criar uma nova estratégia."
E qual seria essa estratégia? Ele deu uma pista: "Talvez a gente jogue mais campeonatos aqui no início do semestre e no final vamos acabar jogando os campeonatos lá de fora e administrar os pontos".
Em outras palavras, a equipe planeja usar as LANs nacionais no primeiro trimestre como uma alavanca para acumular a pontuação necessária no VRS. Isso garantiria sua classificação para os torneios internacionais de maior peso no final do ano, onde poderiam focar 100% na performance sem se preocupar com a tabela de pontos. É um jogo de xadrez logístico, onde cada movimento é calculado para maximizar as chances no cenário global.
Expectativas e a Pressão de Ser Favorito
A estreia na FERJEE In House está marcada para esta sexta-feira, às 17h, contra a Bounty Hunters. E biguzera não esconde que a paiN chega com o peso de ser a grande favorita. Há uma aura em torno do time quando pisa em solo brasileiro.
"A expectativa é sempre vencer", afirmou, com a confiança de quem carrega a história. "Acho que sempre que se trata de Brasil, o pessoal lembra muito de nós porque quando chegamos aqui, nos tornamos um time muito forte. Os times veem a gente como um adversário muito forte, a gente se sente forte."
Mas ele sabe que favoritismo, no Counter-Strike, é apenas um papel. O jogo se decide nos servidores. "Acho que agora é só manter a cabeça no lugar e fazer o nosso trabalho, jogar o nosso CS que a gente vai conseguir."
É interessante notar como essa volta ao Brasil, embora motivada por uma necessidade pontual, reacende a chama de uma rivalidade doméstica. A paiN retorna não apenas como mais um competidor, mas como o gigante que precisa reafirmar sua dominância em casa para fortalecer sua jornada no exterior. A partida contra a Bounty Hunters será o primeiro teste dessa nova fase—uma fase onde o sucesso local se tornou, paradoxalmente, a chave para o sucesso global.
E essa pressão, claro, não vem apenas dos adversários. A própria torcida da paiN, acostumada a ver o time brilhando em eventos como o IEM Dallas ou a BLAST Premier, agora espera uma dominância absoluta em solo nacional. É uma cobrança diferente, sabe? Quando você está lá fora, representando o Brasil, qualquer vitória já é celebrada como uma conquista. Aqui dentro, a régua está mais alta. A torcida quer ver um espetáculo, quer ver aquele CS agressivo e confiante que fez a equipe ser temida internacionalmente.
Biguzera reconhece isso. "A gente sente o peso, mas tenta transformar em motivação", comentou em um tom mais reflexivo. "É bom estar de volta a um ambiente mais familiar, com a torcida perto, mas também é um desafio porque todo mundo quer te derrubar. Você vira o alvo principal."
O Impacto no Cenário Competitivo Brasileiro
A volta da paiN não é só uma notícia para os fãs da organização. Ela mexe com todo o ecossistema do CS brasileiro. De repente, as outras equipes nacionais — como FURIA, MIBR, Imperial e as novas promessas — têm a chance de medir forças contra um dos melhores times das Américas em um contexto de LAN, com tudo que isso implica: pressão da torcida, menor ping, a energia do evento presencial.
Isso eleva o nível de todos. Não é exagero dizer que a presença constante da paiN em torneios locais pode ser o catalisador que o cenário nacional precisava para dar um salto de qualidade consistente. Afinal, que melhor maneira de evoluir do que enfrentando regularmente um time do calibre deles?
"Acho que é saudável para o cenário", ponderou biguzera. "Quando a gente sumia, ficava aquela lacuna. Agora, os outros times vão ter que se preparar de verdade para nos enfrentar, e a gente também vai ter que estudar eles de perto de novo. Antes a gente via mais os europeus, os norte-americanos. Agora o foco volta um pouco para cá."
E essa dinâmica cria um ciclo virtuoso. Times brasileiros mais fortes significam um circuito nacional mais competitivo, o que atrai mais atenção, patrocínios e, consequentemente, mais recursos para as equipes se estruturarem. A longo prazo, isso só fortalece a posição do Brasil no cenário mundial. É um daqueles casos em que uma decisão tomada por necessidade pontual pode acabar tendo um efeito colateral extremamente positivo para todo um ecossistema.
Os Desafios Logísticos e de Adaptação
Mas nem tudo são flores. Conciliar um calendário que agora mistura LANs nacionais com compromissos internacionais exige uma logística de outro mundo. Imagine a rotina: uma semana treinando em São Paulo para a FERJEE, na seguinte viajando para a Europa para um RMR, e depois voltando ao Brasil para o Circuito X. O jet lag vira um adversário a mais, a adaptação a diferentes condições de servidor e meta do jogo precisa ser rápida, e o desgaste físico e mental dos jogadores é uma variável que a comissão técnica terá que administrar com pinças.
"É o maior desafio, sem dúvida", admitiu biguzera quando questionado sobre isso. "A gente tá acostumado a ficar um tempo maior fora, se adaptar a um só lugar. Agora vai ser um vai e volta constante. Vai testar nossa resistência e nossa capacidade de nos preparar para estilos de jogo diferentes em um curto espaço de tempo."
E não é só isso. A estratégia de drafts, os estudos de demos, a preparação contra adversários específicos — tudo fica mais complexo. O analyst da paiN, por exemplo, que antes podia focar quase que exclusivamente nas equipes europeias e norte-americanas, agora precisa dividir seu tempo e atenção entre dezenas de times brasileiros em ascensão. É um volume de trabalho que aumenta exponencialmente.
Como eles pretendem lidar com isso? Biguzera deu a entender que a solução passa por uma divisão de tarefas mais clara dentro da equipe e, talvez, uma aposta maior na intuição e na experiência acumulada em momentos decisivos. "Às vezes, em LAN, você não tem tempo de estudar tudo. Aí entra a leitura de jogo, a experiência de saber o que o adversário provavelmente vai fazer naquela situação. Acho que isso vai ser crucial."
E você, o que acha? Essa volta da paiN ao circuito nacional, forçada pelo sistema de pontuação, vai acabar fortalecendo o time no longo prazo por expô-lo a mais competições de alto nível, ou vai sobrecarregar os jogadores e dispersar o foco, prejudicando o desempenho justamente nos torneios internacionais que são o objetivo final?
O tempo dirá. Por enquanto, o que se vê é uma organização pragmática, disposta a jogar o jogo dentro das regras que lhe são impostas. Eles identificaram que a rota direta para o topo mundial estava bloqueada pelo sistema VRS, então traçaram um caminho alternativo que passa, inevitavelmente, por voltar a ser os reis do seu próprio quintal. A partida contra a Bounty Hunters é só o primeiro capítulo dessa nova e intrigante fase da história da paiN Gaming.
Além do mais, essa mudança levanta uma questão fundamental sobre o esporte eletrônico como um todo: até que ponto os sistemas de classificação e ranking devem moldar o calendário e as prioridades das equipes? Quando a lógica competitiva força um time de elite a alterar sua estratégia global para acumular pontos em torneios regionais, isso é um sinal de um sistema que funciona para equilibrar as oportunidades, ou de uma distorção que prejudica a busca pelo mais alto nível de competição?
Biguzera, em suas declarações, não critica o sistema abertamente. Ele apenas constata sua realidade e se adapta. Mas entre as linhas, é possível sentir uma certa frustração de ter que redirecionar energia e recursos para um front que, em um mundo ideal, não seria a prioridade máxima. "A gente queria estar lá fora o tempo todo, é onde a gente se testa de verdade", ele chegou a dizer, antes de completar com o pragmatismo que marca a nova postura: "Mas se é assim que tem que ser, a gente vai lá e faz".
Fonte: Dust2











