Com um elenco inicial de 48 heróis e a promessa de um novo personagem por mês, Marvel Rivals já nasce como um dos jogos de heróis mais ambiciosos do mercado. Mas em meio a essa expansão constante, uma pergunta surge entre os fãs: a NetEase Games criaria personagens originais, fora do cânone da Marvel, para o jogo? Em uma conversa recente, os desenvolvedores deram uma resposta que, ao mesmo tempo que fecha portas, abre uma janela interessante sobre os planos futuros do hero shooter.
O universo Marvel como fonte inesgotável
"Temos tantos personagens agora. Não é o momento", afirmou Danny Koo, produtor executivo do jogo, quando questionado sobre a possibilidade de heróis originais. E ele tem um ponto difícil de contestar. Desde 1939, a Marvel construiu um universo com milhares de personagens através de quadrinhos, filmes, séries e jogos. A equipe da NetEase tem permissão para criar personagens originais se quiserem – isso foi confirmado –, mas simplesmente não veem necessidade no curto prazo.
Pense bem: o jogo já tem desde ícones como Homem-Aranha e Hulk até figuras mais nichadas como Angela e Else Bloodstone. E a lista de pedidos dos fãs é longuíssima – Bishop, Cyclops, Nightcrawler e Sersi são só alguns nomes que pipocam nas comunidades online. Por que criar algo do zero quando você tem 85 anos de material para explorar?
Koo também afastou a ideia de colaborações com propriedades fora do universo Marvel, algo comum em jogos como Fortnite ou Overwatch 2. "Fora da Marvel? Temos tantos personagens na Marvel, [não estamos] olhando para fora da Marvel", explicou. A estratégia parece clara: aprofundar-se no próprio ecossistema, talvez com crossovers entre outros jogos da Marvel, antes de buscar parcerias externas.
O verdadeiro desafio não é o equilíbrio, é a interface
Aqui está uma perspectiva que pode surpreender. Perguntei a Guangyun "GuangGuang" Chen, diretor criativo, se ele se preocupa com o equilíbrio do jogo conforme o elenco cresce. Sua resposta foi quase despreocupada: "Não é um número muito grande, e podemos lidar com isso".
Mas então qual é o problema? De acordo com Koo, o gargalo está na interface do usuário (UI).
"Não acho que os heróis serão um problema", disse Koo. "É mais sobre otimização da UI. É tipo, 'Quem são seus heróis favoritos que você quer jogar, para que você possa tê-los a qualquer momento à sua disposição? Quais são os novos personagens que você quer jogar?' E isso acontece toda temporada, e você tem que resolver esse problema. E então, se o elenco muda, é tipo, 'Como vou escolher esses personagens?'"
Ele tem experiência nisso, trabalhando no lado de live service de outros jogos da Marvel que já passam dos 200-300 personagens. O desafio é criar uma interface que permita aos jogadores acessar rapidamente seus personagens preferidos em um mar de opções, sem que a experiência se torne confusa ou lenta. É um problema de usabilidade, não de balanceamento.
A busca por mecânicas únicas, não por rostos novos
O critério principal para adicionar um novo personagem, segundo os desenvolvedores, não é necessariamente sua popularidade, mas o que ele traz de único em termos de jogabilidade.
"Queremos trabalhar com a equipe para introduzir mecânicas de jogo diferentes", explicou Koo. "Se alguém é muito similar, então não é tão emocionante. Se tivermos cinco atiradores como o Punisher, será menos emocionante do que alguém que faz algo completamente diferente."
Isso explica por que vemos personagens como a Raposa Branca (White Fox) – que pode possuir inimigos – sendo adicionados ao jogo. A equipe está claramente procurando preencher nichos de gameplay, criando uma experiência tática onde a composição do time realmente importa. Não se trata apenas de colocar seu herói favorito no jogo; trata-se de como esse herói muda a dinâmica de uma partida.
E essa filosofia se conecta com a colaboração em andamento com o Universo Cinematográfico Marvel (MCU), o evento "Caminho para o Juízo Final" (Path to Doomsday). Embora seja tentador esperar skins e personagens baseados nos filmes, Koo deixa claro que "o jogo vem primeiro". Qualquer conteúdo do MCU precisa funcionar dentro das mecânicas e do balanceamento do Marvel Rivals, não o contrário.
Enquanto isso, os jogadores podem esperar a chegada da Gata Negra (Black Cat) na temporada 7.5, com os mistérios heróis 50 e 51 sendo revelados na temporada 8. O ritmo de um personagem por mês parece sustentável para a equipe, que planeja conteúdo com cerca de um ano de antecedência.
E você, concorda com a abordagem da NetEase? Em um universo com tantos personagens icônicos ainda fora do jogo, faz sentido priorizar o cânone estabelecido em vez de criar novos heróis? Ou a possibilidade de um personagem original da NetEase, feito especificamente para as mecânicas do Rivals, seria mais interessante do que mais um herói dos quadrinhos?
Essa decisão de mergulhar fundo no cânone existente, em vez de criar novos personagens, reflete uma tendência interessante no mercado de jogos baseados em propriedades intelectuais. Por um lado, há um risco menor – você está trabalhando com figuras que já têm uma base de fãs estabelecida e uma história rica para explorar. Por outro, há o desafio de atender às expectativas altíssimas dos fãs mais hardcore, que conhecem cada detalhe da lore e podem ser críticos ferozes de qualquer adaptação que considerem infiel.
Mas vamos pensar um pouco além do óbvio. A afirmação de Koo sobre a UI ser o verdadeiro problema é, na minha experiência, um insight valioso que muitos desenvolvedores subestimam. Já joguei títulos com elencos gigantescos onde encontrar seu personagem favorito era uma tarefa hercúlea, uma busca tediosa em menus aninhados. Se o Marvel Rivals conseguir resolver essa dor de forma elegante – talvez com um sistema de favoritos inteligente, filtros dinâmicos ou até uma IA que aprenda suas preferências –, isso pode se tornar uma vantagem competitiva tão importante quanto o balanceamento em si.
O que os fãs realmente querem: profundidade versus novidade
Nas comunidades online, a discussão é fervorosa. Enquanto alguns clamam por personagens obscuros das eras de bronze e prata dos quadrinhos, outros questionam se não seria mais interessante ver a NetEase arriscar uma criação própria. Afinal, personagens originais em jogos como League of Legends ou Valorant nascem já otimizados para a jogabilidade, sem as amarras de décadas de continuidade.
Um usuário no Reddit levantou um ponto interessante: "Um personagem feito do zero para o Rivals poderia ter habilidades que quebram completamente as regras atuais, algo que talvez não encaixasse no lore de um herói já estabelecido." É verdade. Quando você cria dentro de um cânone tão vasto, há certas expectativas sobre o que um personagem pode ou não fazer. O Homem-Aranha precisa ter teia e sentido-aranha; o Wolverine precisa se regenerar. Um personagem original teria liberdade total.
No entanto, há uma magia inegável em controlar um ícone que você acompanha há anos. A emoção de finalmente jogar com o Ciclope e lançar seus raios ópticos, ou de ver a Sersi transformando o ambiente ao seu redor – isso tem um peso emocional que um personagem novo dificilmente conseguiria replicar de imediato. A NetEase parece estar apostando nessa conexão emocional pré-existente.
O longo jogo: sustentabilidade e planejamento
O fato de planejarem conteúdo com um ano de antecedência não é um detalhe menor. Isso sugere uma abordagem metódica, quase cirúrgica, para a expansão do elenco. Não se trata de adicionar personagens por adicionar, mas de construir um ecossistema onde cada novo herói tenha um propósito claro dentro do meta do jogo.
Pergunto-me, porém, se esse ritmo de um personagem por mês será sustentável a longo prazo. À medida que o elenco se aproximar de 70, 80, 100 personagens, os desafios de balanceamento – que GuangGuang Chen minimizou – podem se tornar mais complexos. Como evitar que certas combinações de habilidades se tornem opressoras? Como garantir que todos os personagens tenham um nicho viável, sem que alguns caiam no completo esquecimento?
E há outra questão: o custo de produção. Cada personagem no Marvel Rivals não é apenas um modelo 3D e um conjunto de animações. São efeitos visuais únicos, linhas de dublagem (provavelmente em múltiplos idiomas), skins, balanceamento contínuo... Manter esse ritmo mensal exigirá uma infraestrutura robusta e, muito provavelmente, um modelo de monetização que sustente esse nível de produção.
O caminho das colaborações internas, mencionado brevemente por Koo, me parece particularmente promissor. Imagine um evento crossover com Marvel Snap ou Spider-Man 2 da Insomniac, não apenas com skins, mas com mecânicas de jogo inspiradas nesses títulos. Isso aprofundaria a sensação de um universo Marvel coeso nos jogos, algo que os fãs sempre desejaram.
O elefante na sala: quando o "não agora" se torna "nunca"?
A declaração "não é o momento" deixa uma porta aberta, mas também levanta uma questão: quando seria o momento? O que precisaria mudar para que a NetEase considerasse criar um personagem original?
Talvez quando sentirem que esgotaram os principais arquétipos de gameplay dentro do cânone Marvel. Ou quando identificarem uma necessidade mecânica específica que nenhum herói existente possa preencher de forma satisfatória. Ou ainda – e isso é pura especulação minha – quando o jogo estiver tão estabelecido que possa arriscar uma jogada ousada sem comprometer sua base de jogadores.
Há precedentes interessantes na indústria. Genshin Impact, da própria miHoYo (agora HoYoverse), começou com personagens originais e só muito depois introduziu colaborações. Fortnite fez o caminho inverso. Ambos são sucessos estrondosos. Não há uma fórmula única, apenas diferentes filosofias de design.
O que me intriga é como essa decisão afetará a identidade do Marvel Rivals daqui a dois ou três anos. Será que os jogadores verão o jogo como "aquele hero shooter da Marvel com todos os personagens", ou como uma experiência única com sua própria personalidade? A resposta pode estar em como a NetEase lida com a adaptação – não apenas em trazer os heróis para o jogo, mas em reinterpretá-los de formas que façam sentido dentro do gênero hero shooter.
Tomemos como exemplo a Gata Negra, que chegará em breve. Nos quadrinhos, ela é uma ladra com sorte sobre-humana. Como isso se traduz em habilidades? Será um buff passivo de chance crítica? Uma habilidade que desvia ataques inimigos aleatoriamente? A forma como a equipe resolver esse tipo de desafio criativo dirá muito sobre até onde estão dispostos a se afastar das interpretações tradicionais.
E você, tem alguma teoria sobre quem poderiam ser os mistérios heróis 50 e 51? Será que finalmente veremos os X-Men ganharem mais representantes, ou a NetEase surpreenderá com alguém completamente inesperado das profundezas do cânone? A beleza de ter 85 anos de história para explorar é que as possibilidades são quase infinitas – e é exatamente isso que mantém a comunidade engajada, especulando e ansiosa por cada nova revelação.
Fonte: IGB BRASIL










