O cenário feminino em transformação
O mundo do Counter-Strike feminino brasileiro passou por uma revolução nos últimos anos. Com a criação da ESL Impact em 2022, as jogadoras ganharam um circuito profissional estruturado, mas será que todas as mudanças foram positivas? Conversamos com veteranas do cenário para entender os prós e contras dessa nova era.
Os números do cenário
Um levantamento detalhado mostra como a quantidade de competições evoluiu:
2020: 7 campeonatos (todos online)
2021: 14 torneios (2 LANs)
2022: 36 competições (21 Cash Cups e 4 LANs)
2023: 35 torneios (25 Cash Cups e 1 LAN)
2024: 32 campeonatos (24 Cash Cups e 3 LANs)
Interessante notar que 2022, ano de lançamento da ESL Impact, registrou o maior número de competições. Mas será que quantidade significa qualidade? Algumas veteranas têm opiniões divergentes sobre isso.
Visões das veteranas
Camila "cAmyy" Natale, com mais de 10 anos de carreira, tem uma perspectiva crítica:
"Antes era mais interessante. Tínhamos a GC Masters Feminina duas vezes ao ano, a Liga Feminina como qualificatória, além de eventos como MEG e BGS. Os internacionais incluíam IEM Katowice, WESG e GirlGamer. Hoje sinto falta dessa variedade."
Já Gabriela "GaBi" Maldonado, do MIBR, vê benefícios na nova estrutura:
"Ter um campeonato mundial garantido como a Impact League dá visibilidade e uma meta clara. Mas concordo que precisamos de mais ligas ao longo do ano para revelar novas talentos e manter o cenário ativo em todas as camadas."
O debate continua enquanto o cenário se prepara para o Lótus Challenge, primeira LAN feminina do ano no Brasil, com final marcada para acontecer no maior navio da Marinha brasileira em agosto.
Desafios e oportunidades no cenário atual
Enquanto o circuito profissional se consolida, surgem novos desafios para as jogadoras. A concentração de premiações nos torneios da ESL Impact criou uma disparidade econômica no cenário. "Antes, qualquer time podia sonhar em ganhar um torneio e levar um prêmio considerável. Hoje, a diferença entre o primeiro e o segundo escalão é enorme", comenta Julia "juh" Alonso, que já passou por várias organizações.
Por outro lado, a profissionalização trouxe benefícios inegáveis:
Contratos estáveis com organizações tradicionais como FURIA e MIBR
Estrutura de treinos e preparação física comparável ao cenário masculino
Oportunidades de patrocínio e visibilidade midiática
Presença constante em eventos internacionais
O dilema das novas jogadoras
Para as iniciantes, o caminho se tornou paradoxalmente mais difícil e mais claro ao mesmo tempo. "Temos um roadmap definido com as qualificatórias para a Impact League, mas a competição está mais acirrada do que nunca", explica Rafaela "rafaa" Lima, capitã de um time emergente.
Um dado preocupante: apenas 3 das 20 jogadoras que disputaram a primeira edição da Impact League em 2022 ainda estão entre as melhores do cenário. A rotatividade aumentou significativamente, levantando questões sobre a sustentabilidade da carreira para quem não alcança o topo.
"O maior problema hoje é a falta de torneios intermediários. Ou você está no nível Impact ou fica presa nos Cash Cups, que não oferecem a mesma experiência competitiva" - Letícia "lele" Motta, treinadora
O papel das organizações
Times tradicionais começaram a investir mais pesado no cenário feminino, mas com abordagens distintas. Enquanto alguns mantêm equipes profissionais com salários fixos, outros optam por parcerias pontuais com equipes independentes.
O caso mais emblemático é o da FURIA, que em 2023 tornou seu time feminino parte integral da organização, com direito a bootcamps internacionais e estrutura completa de suporte. "Quando nos tratam como atletas de verdade, o desempenho melhora naturalmente", afirma Paula "pau" Nascimento, awp da equipe.
Mas será que esse modelo é sustentável para todas as organizações? E o que acontece com as jogadoras quando um time profissional decide encerrar seu projeto feminino, como ocorreu com a INTZ no ano passado? Essas questões continuam sem respostas definitivas enquanto o mercado se adapta às novas realidades.
O futuro imediato
Todos os olhos estão voltados para o Lótus Challenge, que promete ser um termômetro para o interesse do público nos esports femininos. Com transmissão na TV fechada e premiação recorde, o evento pode definir os rumos do cenário nos próximos anos.
Enquanto isso, surgem movimentos independentes interessantes. Uma coalizão de ex-jogadoras está organizando uma liga alternativa para times sem patrocínio, e plataformas como Gamers Club anunciaram planos para revitalizar suas competições femininas. "Precisamos de mais opções para manter o ecossistema saudável", defende Marina "mari" Costa, uma das organizadoras.
Com informações do: Dust2


