O jogador norte-americano Michael "Swisher" Schmid, da equipe M80, levantou uma questão importante sobre o sistema de pontuação do Valve Regional Standings (VRS) que determina a classificação para o Major de Counter-Strike. Em suas críticas, ele apontou que o peso excessivo dado às vitórias em LANs, independentemente do nível da competição, cria um desbalanceamento no cenário competitivo.

O problema do multiplicador de pontuação em LANs

Swisher não economizou palavras ao expressar sua frustração com o sistema atual. "As vitórias em LAN têm muito peso nesse VRS, isso é muito desbalanceado. Não importa quem é seu oponente, simplesmente está maximizando por ser LAN, isso é muito ridículo", escreveu o jogador em sua conta no X (antigo Twitter).

O que realmente incomoda Swisher - e provavelmente muitos outros profissionais - é que o sistema atual não faz distinção entre diferentes níveis de competição. Uma vitória em uma LAN menor, contra adversários de nível inferior, vale praticamente o mesmo que uma vitória em um torneio de elite. E isso, francamente, não faz muito sentido para um esporte que busca ser cada vez mais profissional.

A resposta da comunidade e o caso da Complexity

Graham Pitt, manager da Complexity, decidiu entrar na discussão de maneira bem-humorada. Ele brincou sobre a escolha da M80 de se classificar para a fase final da BLAST Open London em vez de participar da Fragville - LAN que aconteceu nos Estados Unidos no mesmo final de semana.

Swisher prontamente respondeu, esclarecendo que sua crítica era mais ampla: "Estou falando no geral, não devia ser tão desbalanceado. Devia ser vitória em uma LAN tier 1 contra LAN tier 2, que não vai carregar tanto peso. 10 vitórias em uma LAN tier 2 deveria ser igual a três no tier 1 ou algo assim, não um multiplicador simplesmente".

E ele tem um ponto interessante aqui. Será que o sistema não deveria ser mais inteligente, reconhecendo a diferença de nível entre as competições? Afinal, vencer um torneio regional não deveria valer o mesmo que uma vitória em um campeonato internacional de alto nível.

O contexto competitivo e as consequências práticas

No mesmo dia em que a Fragville começava nos Estados Unidos, a M80 entrava no servidor para enfrentar a MOUZ pelas quartas de final da BLAST Open London, na Inglaterra. A equipe de Swisher acabou perdendo por 2 a 1 e foi eliminada da fase final do torneio.

Enquanto isso, na última atualização da Valve para o VRS, realizada no dia 1° de setembro, a M80 estava na sétima posição do ranking das Américas. A região levará 10 times para o StarLadder Budapest Major, com a definição final marcada para o dia 6 de outubro.

O timing dessas críticas não é coincidência. Com diversas LANs regionais surgindo na reta final para a definição dos times convidados para o Major, a discussão sobre a justiça do sistema de pontuação se torna cada vez mais relevante. Equipes precisam fazer escolhas estratégicas sobre quais torneios jogar, e um sistema desbalanceado pode distorcer completamente a meritocracia esportiva.

O que me surpreende é que, em um esporte tão técnico e data-driven como o Counter-Strike, ainda existam sistemas de classificação que não levam em conta a qualidade real das vitórias. Não seria mais justo um sistema que ponderasse as conquistas pelo nível de dificuldade?

O impacto nas equipes em desenvolvimento

O que muitas pessoas não percebem é como esse sistema desbalanceado afeta especialmente as equipes em ascensão. Imagine uma organização que investe pesado em estrutura, treinadores, analistas e psicólogos, mas perde vaga no Major para um time que basicamente farmou pontos em LANs regionais de menor expressão. A sensação de injustiça deve ser enorme.

Conheço casos de jogadores que dedicaram anos para chegar a um nível competitivo internacional, apenas para verem suas chances serem comprometidas por um sistema que não reconhece adequadamente a hierarquia competitiva. É desanimador, para dizer o mínimo.

Possíveis soluções e modelos alternativos

Swisher sugeriu uma abordagem mais ponderada: "Devia ser vitória em uma LAN tier 1 contra LAN tier 2, que não vai carregar tanto peso. 10 vitórias em uma LAN tier 2 deveria ser igual a três no tier 1 ou algo assim". Mas como implementar isso na prática?

Uma possibilidade seria a Valve criar um sistema de classificação de torneios semelhante ao que vemos no tênis ou no xadrez. Torneios receberiam uma pontuação baseada no nível das equipes participantes, no prize pool e no histórico competitivo. Assim, vencer um ESL Pro League valeria significativamente mais do que vencer uma LAN regional com poucas equipes de elite.

Outra abordagem seria adotar um modelo de coeficiente variável, onde o multiplicador de pontos para vitórias em LAN seria progressivo - quanto melhor a qualidade da competição, maior o multiplicador. Simplesmente dar o mesmo bônus para qualquer evento presencial parece, francamente, uma solução preguiçosa.

O dilema dos organizadores de torneios

Por outro lado, é preciso considerar a perspectiva dos organizadores de torneios regionais. Se o sistema de pontuação do VRS desvalorizar demais suas competições, eles podem enfrentar dificuldades para atrair patrocínios e equipes de qualidade. É um equilíbrio delicado.

Mas será que a solução atual - que basicamente iguala todos os eventos presenciais - é a melhor maneira de lidar com esse desafio? Provavelmente não. Deveria haver um meio-termo onde torneios regionais ainda ofereçam pontos válidos para a classificação, mas sem distorcer completamente o cenário competitivo.

Aliás, essa discussão me lembra um problema similar que tivemos há alguns anos com o ranking mundial da HLTV, onde vitórias contra equipes de baixo rendimento valiam quase o mesmo que vitórias contra os melhores times do mundo. Felizmente, eles ajustaram seu algoritmo para ser mais sensível à qualidade dos adversários.

As implicações para o futuro do cenário competitivo

O que mais me preocupa é o efeito de longo prazo desse sistema. Se equipes descobrirem que é mais eficiente farmar pontos em LANs menores do que se desafiar contra os melhores times do mundo, o que isso significa para a evolução do esporte?

Estamos basicamente criando incentivos perversos onde a estratégia ótima pode ser evitar competições de alto nível para focar em torneios mais acessíveis. Isso não só prejudica o desenvolvimento dos jogadores como também empobrece o ecossistema competitivo como um todo.

Já vi isso acontecer em outros esports - sistemas de pontuação mal elaborados que distorcem completamente o comportamento das equipes. No League of Legends, por exemplo, tivemos que ajustar várias vezes o sistema de circuit points exatamente para evitar que times privilegiassem competições menores em detrimento do desenvolvimento competitivo.

E o pior: quando essas equipes finalmente chegam em competições internacionais, muitas vezes não estão preparadas para o nível de jogo. O resultado são performances decepcionantes e um gap competitivo que parece aumentar rather than diminuir.

O caso da M80 é particularmente interessante porque eles estão justamente nessa fronteira entre o tier 1 e o tier 2. São bons o suficiente para competir com equipes de elite, mas ainda dependem do sistema de pontuação para garantir vagas em Majors. Sua crítica vem de uma place de experiência real com as distorções do sistema.

Curiosamente, essa não é a primeira vez que jogadores reclamam do peso excessivo das LANs no VRS. Lembro-me de discussões similares antes do Major anterior, mas parece que a Valve não fez ajustes significativos. Será que desta vez a pressão da comunidade será suficiente para provocar mudanças?

O que me deixa pensativo é como a Valve, company que geralmente é tão meticulosa com game design balance, pode ter implementado um sistema tão cru para algo tão importante quanto a classificação para seu principal evento competitivo. Parece quase incompatível com a filosofia de design que vemos em seus jogos.

Com informações do: Dust2