O mundo dos esports e o futebol profissional parecem universos distintos, mas para o lateral-esquerdo Guilherme Arana, do Fluminense, eles se conectam de forma natural e apaixonante. Em uma participação recente na FERJEE IN HOUSE, o atleta revelou que, além de dominar as laterais do campo, também é um entusiasta de longa data do Counter-Strike, um hobby que ele considera um dos seus preferidos para relaxar da rotina intensa do futebol.

De LAN houses a notebooks gamers: uma paixão de longa data

A relação de Arana com o CS não é de hoje. Ele mesmo conta que vem dos tempos das antigas LAN houses e dos famosos "corujões", aquelas madrugadas inteiras dedicadas ao jogo, mesmo contra a vontade da mãe. "Minha relação com o CS é das antigas mesmo, época de LAN house, corujão. Por mais que minha mãe não deixasse eu ficar nos corujões, a gente sempre dava um jeito", relembra, com um tom de nostalgia que muitos jogadores da velha guarda vão reconhecer.

Depois de uma pausa, o retorno veio por um caminho inesperado: através de colegas de profissão. Foi em uma conversa de bobeira com o também jogador Alan Kardec, que assistia a lives de CS na Twitch, que a chama se reacendeu. "Ele estava assistindo CS, aí começamos a conversar sobre CS, e eu comprei o computador e voltei a jogar", explica Arana. É curioso, não é? Ver como um passatempo pode resurgir através de uma simples conversa entre amigos.

A rotina de atleta e a busca por equilíbrio

Você já parou para pensar como um jogador de futebol de alto rendimento consegue encaixar os treinos, viagens e jogos com tempo para jogar videogame? Para Arana, a resposta está na adaptação. Ele percebeu que a rotina de um atleta de futebol não é tão diferente da de um pro player de CS: ambas são marcadas por muitas viagens e uma agenda apertada.

Mas ele encontrou uma solução prática. "Porém, eu comprei um notebook gamer e, às vezes quando dá, eu levo para brincar um pouquinho, para passar o tempo", conta. Essa é uma lição interessante sobre encontrar brechas para nossos hobbies, mesmo na correria. E ele não joga apenas por jogar; acompanha o cenário competitivo, torcendo especialmente pela FURIA. "A gente vinha há muito tempo pedindo para eles serem campeões, então estou acompanhando meio que por cima o desempenho deles", comenta.

Aliás, essa conexão com o cenário profissional vai além de ser apenas fã. Arana criou uma amizade com jogadores como Italo "ksloks" Meinberg, da ODDIK. E brinca sobre as vantagens: "O bom de jogar com eles (jogadores profissionais) é que podemos fazer o que quiser e eles resolvem quando sobra (risos)". Na minha opinião, essa é uma das belezas dos games: nivelam o campo e criam amizades em contextos totalmente fora do usual.

Do campo ao servidor: level 13 e planos futuros

E no CS, como ele se sai? Arana revela que é level 13 na plataforma Gamers Club. O número não foi escolhido por acaso. "É igual o número da minha camisa no Galo, no Fluminense e no Corinthians. Então acho que é o número que me persegue (risos)", diverte-se. É um detalhe curioso que mostra como elementos da sua vida profissional acabam permeando o lazer.

Mas será que esse interesse poderia ir além do hobby? A possibilidade de investir no cenário de esports, como outros jogadores de futebol já fizeram, passa pela sua cabeça. Ele menciona que já conversou com Alan Kardec sobre a ideia de criarem uma organização juntos e até tirou dúvidas com o ksloks sobre como funciona a rotina e os investimentos no meio.

"Porém, eu não fui a fundo do negócio, do assunto. Tanto eu quanto o Alan Kardec já pensamos em estudar mais, pensar mais sobre um investimento, sobre abrir uma organização. Mas ficou apenas nas palavras. Quem sabe em um futuro próximo", pondera. É uma reflexão que muitos fazem: transformar uma paixão em negócio. Requer estudo, planejamento e, claro, um timing certo.

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E essa conversa sobre investimento não é mera especulação. O cenário de esports no Brasil, especialmente o de Counter-Strike, tem se mostrado um campo fértil para figuras do futebol. Você se lembra do goleiro Cássio, do Corinthians, que já foi sócio da organização MIBR? Ou do lateral-direito Daniel Alves, que em 2021 investiu na Team oNe? É um movimento que mostra como o esporte tradicional está de olho no potencial dos games. Para Arana, a barreira parece ser mais sobre o desconhecimento do que sobre falta de interesse. "É um mundo muito diferente, com uma dinâmica própria. A gente vê de fora, acha interessante, mas mergulhar de cabeça exige entender como as coisas funcionam por dentro", reflete.

Aliás, falando em dinâmica, ele faz uma comparação espirituosa entre as duas profissões. "No futebol, a pressão é imensa, mas é uma pressão que a gente conhece desde criança. No CS, acho que a cobrança é mais imediata, mais técnica. Um erro de posicionamento no jogo é punido na hora, com um headshot. No futebol, às vezes você erra um passe e pode se recuperar no próximo lance." É uma percepção aguçada de quem vive a pressão de um estádio lotado e consegue enxergar nuances similares em um servidor virtual. Será que essa experiência como atleta de elite dá a ele uma resiliência diferente nos games? É algo para se pensar.

O jogo como refúgio e a comunidade gamer

Para além dos possíveis negócios, o que realmente salta aos olhos no depoimento de Arana é o papel do CS como uma válvula de escape genuína. Num mundo onde a rotina de um atleta é minuciosamente cronometrada – treinos, fisioterapia, alimentação, descanso –, encontrar um espaço para simplesmente "brincar" é um desafio. O notebook gamer virou, nas suas palavras, um companheiro de viagem. "Em hotel, antes de jogo, quando a concentração permite um tempo livre, é uma forma de desligar a cabeça do futebol sem sair do lugar", explica.

E não se trata apenas de jogar sozinho. A parte social é fundamental. Ele menciona formar squad com amigos de infância que não são do meio do futebol. "É legal porque a conversa não gira em torno de contrato, de lesão, de próximo jogo. A gente fala de estratégia, reclama do time adversário no jogo, ri de uma jogada errada. É um reset mental." Essa capacidade de se conectar com uma realidade paralela, onde sua identidade principal não é a de jogador do Fluminense, mas sim de mais um "peladeiro" virtual, parece ser o cerne do hobby. É um lembrete poderoso de que até os ídolos precisam de seus cantinhos de normalidade.

O relacionamento com a comunidade de fãs que também são gamers é outro ponto curioso. Nas redes sociais, especialmente depois da participação na FERJEE, muitos fãs passaram a comentar não só sobre seus cruzamentos, mas também para perguntar seu rank ou sugerir duelos. "Às vezes me marcam em uns clipes engraçados de CS, ou falam 'joga comigo aí, Arana'. É uma interação diferente, mais descontraída", comenta. Essa dupla identidade – atleta e gamer – cria uma ponte única com o público, humanizando a figura do jogador profissional de uma maneira que apenas o futebol não conseguiria.

O futuro: entre o servidor e o campo

E o que esperar daqui para frente? Arana deixa claro que o futebol é e continuará sendo a prioridade absoluta. Mas os planos para o CS seguem vivos, mesmo que em segundo plano. Além da possibilidade de investimento, ele menciona um desejo mais imediato: melhorar seu nível de jogo. "Quero chegar no level máximo da Gamers Club. É uma meta pessoal, sabe? Algo para eu me desafiar fora do futebol", afirma. É interessante ver como a mentalidade competitiva do atleta transborda para o lazer. Não basta jogar; é preciso ter um objetivo, uma meta a ser batida.

Outro plano é organizar um campeonato interno com outros jogadores de futebol que também jogam. "A gente sabe que tem vários que curtem. Seria divertido fazer um torneio, uma transmissãozinha para o público ver a gente se enfrentando em algo totalmente diferente." Imagine só a cena: jogadores que se enfrentam no Maracanã ou no Allianz Parque, agora disputando uma Mirage ou uma Inferno. O potencial para um conteúdo engraçado e autêntico é enorme. E mostra como os games podem ser um terreno comum para rivalidades saudáveis e muita diversão.

Por fim, ele toca em um ponto que muitos jogadores casuais relatam: a dificuldade de conciliar a evolução no jogo com a falta de tempo para treinar consistentemente. "O CS hoje é muito tático, muito estudado. Você vê os pro players treinando smoke, molotov, posicionamento por horas. Eu não tenho esse tempo. Meu treino é o futebol. Então eu jogo mais no feeling, no que lembro da época que jogava mais." Essa limitação, no entanto, não tira a graça. Pelo contrário. Jogar sem a pressão de ser o melhor, apenas pelo prazer puro da disputa e da companhia, parece ser justamente o que mantém a chama acesa. E no fim das contas, não é disso que se trata um bom hobby?

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Fonte: Dust2