A Four Magic Gaming, organização que acaba de ingressar no cenário competitivo de Counter-Strike feminino através da ESL Impact S8 sul-americana, está sendo liderada por uma figura familiar do futebol brasileiro. Pedro Bicalho, ex-meio-campista do Palmeiras e Vitória, atua como CEO da organização e revelou em entrevista exclusiva os motivos por trás dessa movimentação estratégica.
O atrativo do cenário feminino de Counter-Strike
Bicalho foi bastante direto ao explicar o que levou a Four Magic a investir no CS feminino. "O grande atrativo para nós foi dar espaço e oportunidade para jogadoras talentosas, que muitas vezes não contam com a mesma estrutura que os times masculinos", afirmou o executivo. Ele complementou: "Enxergamos no CS feminino não apenas um mercado promissor, mas também uma forma de reforçar o nosso compromisso com a inclusão e o desenvolvimento do cenário competitivo".
Essa perspectiva me parece particularmente relevante num momento em que o esporte eletrônico feminino ainda luta por visibilidade e investimentos equivalentes aos times masculinos. A postura da Four Magic sugere uma compreensão madura do potencial de crescimento nesse segmento.
Expansão estratégica além do Counter-Strike
Apesar de ser uma novidade no Counter-Strike, a Four Magic já possui experiência em outros títulos. A organização já manteve equipes em PUBG, Blood Strike Mobile e outras modalidades. Bicalho detalhou a visão da organização: "A Four Magic Gaming nasceu recentemente, mas já com uma visão clara: construir algo sólido no cenário competitivo da América Latina e Mundial".
Atualmente, o foco principal da organização está no Rainbow Six Siege, que segundo o CEO, "é um ecossistema que acreditamos ter grande potencial de crescimento". Essa diversificação de jogos demonstra uma estratégia inteligente de não colocar todos os ovos na mesma cesta, algo que muitas organizações menores negligenciam.
Dupla de ex-jogadores na gestão esportiva
Um aspecto interessante da Four Magic é a participação de outro jogador de futebol na gestão: Kady Borges, que começou a carreira no Coritiba e atualmente defende o Qarabag, do Azerbaijão - time que também é o de Bicalho. Sobre a dinâmica de gestão, Bicalho explicou: "Tanto eu quanto o Kady temos um contato direto com a gestão e com os atletas. Gostamos de estar próximos do dia a dia porque acreditamos que o crescimento da organização depende desse alinhamento entre diretoria, staff e jogadores".
Essa proximidade com o dia a dia das equipes é algo que muitas organizações perdem conforme crescem, então é interessante ver essa abordagem sendo mantida desde o início. Bicalho finalizou: "Nós dois participamos ativamente das decisões estratégicas e acompanhamos de perto cada projeto, desde a parte administrativa até o suporte às equipes em competições. A Four Magic é uma organização em construção, e a nossa função é garantir que cada passo seja dado com planejamento e propósito".
O time feminino de Counter-Strike da Four Magic, que anteriormente competia como "Quem são elas", já estreou com vitória pela nova organização. O quinteto derrotou a Dusty Roses por 2 a 0 e, temporariamente, divide a primeira colocação da ESL Impact S8 sul-americana com o MIBR feminino.
Mas o que realmente diferencia essa aposta da Four Magic? Bicalho compartilhou alguns detalhes sobre a estrutura oferecida às jogadoras: "Estamos implementando um programa de desenvolvimento contínuo que inclui não apenas treinamentos táticos, mas também suporte psicológico e físico. Muitas atletas femininas precisam conciliar estudos, trabalho e a carreira competitiva - queremos facilitar esse equilíbrio".
Os desafios específicos do cenário feminino
Quando perguntei sobre os obstáculos que o CS feminino enfrenta, Bicalho foi pragmático: "A falta de patrocínios robustos ainda é o maior limitador. Times masculinos conseguem fechar contratos significativamente maiores, o que cria uma disparidade estrutural difícil de superar". Ele acrescentou: "Mas estamos vendo mudanças lentas. Marcas começam a perceber o engajamento único que as competições femininas geram".
E os números parecem corroborar essa visão. A final da ESL Impact Season 7 alcançou picos de mais de 100 mil espectadores simultâneos - números que muitas competições masculinas de tier 2 sequer alcançam. "Há um público ávido por conteúdo de qualidade no cenário feminino", observou Bicalho. "E as jogadoras estão mostrando um nível técnico que surpreende até os mais céticos".
Planos de crescimento e sustentabilidade
A longo prazo, a Four Magic planeja construir um ecossistema auto-sustentável. "Não queremos ser apenas mais uma organização que entra e sai do cenário", explicou Bicalho. "Estamos estabelecendo parcerias com universidades para programas de estágio, desenvolvemos nossa própria plataforma de conteúdo e buscamos patrocinadores que acreditem na nossa visão de longo prazo".
Um aspecto interessante é a abordagem regional da organização. "A América Latina tem um talento incrível que muitas vezes é negligenciado pelas grandes organizações internacionais", comentou Bicalho. "Queremos ser a ponte que conecta esse talento ao cenário global. Já estamos em conversas com organizações europeias para programas de intercâmbio e scouting".
Essa estratégia me faz pensar no quanto o cenário competitivo brasileiro ainda depende de iniciativas locais para ganhar solidez. Enquanto grandes organizações internacionais frequentemente entram e saem do Brasil conforme as tendências do mercado, são as organizações com raízes locais que mantêm a cena viva durante os períodos mais difíceis.
A sinergia entre futebol e esports
Como ex-atleta profissional, Bicalho traz perspectivas interessantes sobre as similaridades entre esportes tradicionais e eletrônicos. "A mentalidade competitiva é incrivelmente similar", refletiu. "A pressão por resultados, a necessidade de trabalho em equipe, a disciplina requerida - tudo me remete aos meus tempos de vestiário".
Ele detalhou como essa experiência influencia sua gestão: "Aplicamos muitos conceitos do futebol profissional na nossa estrutura. Desde análise de desempenho individual até gestão de carga de treinos para evitar burnout. Muitas organizações de esports ainda estão descobrindo essas práticas que os esportes tradicionais já dominam há décadas".
Essa troca de conhecimentos entre esportes tradicionais e eletrônicos é algo que venho observando com interesse nos últimos anos. Clubes de futebol estabelecidos como São Paulo, Santos e Internacional já possuem divisões de esports, mas ver ex-atletas migrando para a gestão de organizações dedicadas é um movimento relativamente novo no Brasil.
Bicalho parece consciente desse papel pioneiro: "Temos a oportunidade de construir algo que una o melhor dos dois mundos. A paixão e tradição dos esportes convencionais com a inovação e agilidade dos esports".
O caminho à frente, no entanto, não será fácil. O mercado de esports ainda é volátil, especialmente para organizações de porte médio. "Sabemos dos desafios", admitiu Bicalho. "Mas acreditamos que com gestão responsável e foco no desenvolvimento de talentos, podemos construir uma organização sustentável que contribua para o crescimento do ecossistema como um todo".
Enquanto isso, o time feminino de Counter-Strike continua sua campanha na ESL Impact. As próximas semanas serão cruciais para testar não apenas o desempenho das jogadoras, mas também a eficácia da estrutura implementada pela Four Magic. O sucesso competitivo imediato seria obviamente desejável, mas Bicalho deixa claro que estão pensando além: "Resultados imediatos são importantes, mas não sacrificaremos nosso planejamento de longo prazo por vitórias rápidas. Queremos construir uma base sólida que permita às nossas atletas crescerem tanto dentro quanto fora do jogo".
Com informações do: Dust2


