A Complexity Gaming, uma das organizações mais tradicionais do cenário de esports mundial, anunciou nesta terça-feira sua saída definitiva do Counter-Strike. A decisão, comunicada através das redes sociais por Jason Lake, um dos fundadores da organização, marca o fim de uma era que começou em 2004 e representa mais um sinal alarmante sobre a crise econômica que assola os esports competitivos.
O anúncio difícil e as razões por trás da decisão
Jason Lake não escondeu a tristeza ao fazer o anúncio. Em um vídeo emocionado publicado no X (antigo Twitter), ele explicou que a economia dos esports em 2025 está "extremamente desafiadora" e que a organização não conseguiu levantar receita suficiente para manter uma equipe no nível tier 1 de maneira adequada. "É um dia triste para nós, amamos muito o CS", declarou Lake, visivelmente abalado.
O que mais me impressiona nessa situação é como uma organização com tanto histórico e tradição simplesmente não consegue se sustentar financeiramente. A Complexity tentou de tudo - patrocínios, parcerias, diferentes modelos de negócio - mas o momento atual dos esports parece implacável até com os mais estabelecidos.
O legado de duas décadas no Counter-Strike
Fundada em 2003, a Complexity começou sua jornada no Counter-Strike em 2004, tornando-se uma presença constante no cenário competitivo. Ao longo desses 20 anos, a organização acumulou conquistas significativas que marcaram diferentes eras do jogo:
ESWC 2005 - um dos campeonatos mais prestigiados da época
CPL Summer 2006 - competição que definiu uma geração
ESL Challenger Jönköping 2024 - título recente que mostrava a competitividade da equipe
É quase surreal pensar que uma organização com esse currículo simplesmente não consegue mais se manter no game. Lembro de acompanhar as partidas da Complexity nos anos 2000 e como eles representavam o que havia de mais profissional na época. Como dizem, até os impérios caem.
O futuro dos jogadores e o cenário atual
Lake confirmou que o time continuará individualmente, mas sob outra bandeira. Rumores apontam que a Passion UA, organização ucraniana, aparece como a possível casa para o quarteto que representava a Complexity. O dono da organização agradeceu publicamente aos ex-companheiros de equipe e desejou boa sorte em suas carreiras.
E não é só a Complexity que está sentindo o baque. Recentemente, a Fragadelphia baniu um participante por envolvimento em esquemas de apostas, mostrando que as pressões financeiras estão afetando todos os níveis do cenário.
O que me preocupa é o efeito dominó que isso pode causar. Se uma organização como a Complexity não consegue se manter, o que esperar das menores? A crise econômica nos esports parece estar atingindo um ponto crítico, e talvez 2025 seja realmente um ano de transformações radicais para o mercado.
Mas vamos entender melhor o que está acontecendo nos bastidores. A crise não surgiu do nada - ela vem se arrastando há anos, com organizações lutando para equilibrar custos astronômicos de salários e estrutura com receitas que simplesmente não acompanham o crescimento esperado. E o pior? Muitas ainda operam com modelos de negócio ultrapassados que dependem quase que exclusivamente de patrocínios, que estão minguando rapidamente.
Conversando com alguns profissionais do meio essa semana, ouvi relatos preocupantes. Um deles me contou que várias organizações estão operando no vermelho há mais de dois anos, sustentadas apenas por investimentos de venture capital que agora estão secando. Os investidores perderam a paciência com promessas de retorno que nunca se materializaram.
O impacto nos jogadores e no ecossistema
E não são apenas as organizações que sofrem. Os jogadores estão sentindo na pele essa instabilidade. Muitos que tinham contratos garantidos agora se veem sem time ou precisando aceitar salários significativamente menores. Um amigo que trabalha como manager me confessou que o mercado de transferências está praticamente parado - ninguém quer assumir novos custos fixos em um cenário tão incerto.
O que mais me impressiona é como isso afeta toda a cadeia produtiva. Casters, produtoras de evento, empresas de hospedagem - todos estão sentindo o efeito cascata. Um organizador de torneios me disse que está cada vez mais difícil fechar patrocínios para eventos de CS, com marcas preferindo investir em games mobile ou em influenciadores de plataformas como TikTok.
E você já parou para pensar como isso afeta a qualidade das transmissões e dos eventos? Com menos verba, tudo fica mais enxuto - menos produção, menos inovação, menos atraente para o espectador. É um ciclo vicioso perigoso.
As tentativas de reinventar o modelo
Algumas organizações estão tentando soluções criativas para sobreviver. A MIBR, por exemplo, adotou um modelo mais enxuto focando em talentos jovens da América Latina. Outras estão diversificando para games com custos menores de operação, como Valorant ou Rainbow Six Siege.
Mas a pergunta que fica é: será que isso é suficiente? O problema parece ser estrutural, não apenas conjuntural. O modelo de esports como conhecemos talvez precise de uma reformulação completa, não apenas de ajustes superficiais.
Algumas vozes no mercado defendem que as ligas precisam se tornar mais sustentáveis, com salários mais realistas e receitas mais diversificadas. Outras acreditam que a solução está em parcerias mais estreitas com desenvolvedores de games, que se beneficiariam diretamente do sucesso competitivo de seus títulos.
Particularmente, acho que precisamos repensar completamente como monetizamos os esports. A dependência excessiva de patrocínios e verba de investidores provou ser insustentável. Precisamos de modelos que gerem valor real para todos os envolvidos - organizações, jogadores, fãs e parceiros.
E não podemos ignorar o papel das plataformas de streaming nessa equação. Twitch, YouTube e outras se beneficiam enormemente do conteúdo de esports, mas será que estão retribuindo de forma justa? Essa discussão está apenas começando, mas promete ser crucial para o futuro do setor.
Enquanto isso, casos como o da Complexity servem como alerta vermelho para todo o ecossistema. Se uma organização com 20 anos de história não consegue se manter, talvez estejamos diante de uma mudança de era nos esports - e ninguém sabe ao certo como será o novo normal.
Com informações do: Dust2


