Os jogos da série Dark Souls são famosos por sua dificuldade brutal, desafiando até os jogadores mais experientes. Mas e se você adicionasse uma restrição absurda a esse desafio já monumental? Um YouTuber decidiu enfrentar Dark Souls II de uma maneira que poucos imaginariam: usando apenas um item considerado inútil e cômico – as "Dung Pies", ou tortas de esterco do jogo. O feito, que parece mais uma piada do que uma estratégia viável, revela uma camada profunda de conhecimento sobre os sistemas do jogo e uma dose impressionante de paciência.

O Desafio Absurdo: Armas Convencionais Não Permitidas

Em um desafio autoimposto que redefine o conceito de "jogar no modo hardcore", o YouTuber ymfah – conhecido por completar jogos com regras extremamente limitadas – decidiu que sua única ferramenta de ataque em toda a jornada por Drangleic seriam as Dung Pies. Para quem não conhece, esses itens são geralmente vistos como piada pelos jogadores. Eles causam dano mínimo por impacto e, principalmente, acumulam o status de "Envenenamento" e "Toxina" nos inimigos, que drena a vida lentamente.

Isso significa que cada confronto, desde os inimigos mais básicos até os chefes mais temidos, precisou ser resolvido com uma chuva de... bem, excremento. A estratégia básica se resume a arremessar as tortas, recuar para evitar ataques, e esperar que o dano contínuo do veneno faça seu trabalho. Soa tedioso? Porque é. Mas é aí que a genialidade (ou a loucura) reside.

A Logística de uma Jornada Fedorenta

Um dos maiores obstáculos não era nem a dificuldade dos chefes, mas a logística. Dung Pies são um recurso finito. Você não pode simplesmente comprá-las infinitamente em uma loja no início do jogo. O jogador precisou planejar meticulosamente sua rota para garantir que teria estoque suficiente para chegar ao próximo ponto de reabastecimento, muitas vezes farmando inimigos específicos que têm uma chance baixa de dropar o item.

Imagine gastar horas apenas para coletar fezes virtuais antes de tentar enfrentar um chefe como o Velho Rei do Ferro ou a Nashandra. É um teste de persistência que vai muito além da habilidade de esquiva ou tempo de reação. Requer um conhecimento íntimo dos sistemas de drops, rotas alternativas e economia de itens que a maioria dos jogadores nunca precisará dominar.

O Que Isso Revela Sobre os Jogos da FromSoftware?

Desafios como esse vão além do mero entretenimento bizarro. Eles funcionam como uma autópsia dos sistemas de jogo. Ao forçar um único item marginal a ser a solução para todos os problemas, o jogador expõe a profundidade e a flexibilidade do design de Dark Souls II. O fato de ser teoricamente possível – mesmo que dolorosamente lento – vencer o jogo dessa maneira mostra que os desenvolvedores criaram um mundo com múltiplas soluções, mesmo que não intencionais.

Além disso, destaca a criatividade da comunidade. A série Souls é famosa por sua cultura de desafios: speedruns, runs sem tomar dano, usando apenas instrumentos musicais como armas. A "Dung Pie Only Run" se encaixa perfeitamente nesse ecossistema, onde a dificuldade oficial do jogo é apenas o ponto de partida para a imaginação dos fãs. É uma forma de rejogar, recontextualizar e celebrar um jogo anos após seu lançamento.

No final, a pergunta que fica não é "por que alguém faria isso?", mas "o que mais é possível?". Se fezes podem derrotar um deus antigo em um videogame, que outros limites autoimpostos a comunidade pode quebrar? O feito do ymfah, documentado em seu canal no YouTube, serve como um testemunho hilário e impressionante do que acontece quando a obstinação humana encontra a física de um mundo virtual. E, de certa forma, é uma lição estranhamente inspiradora: até as ferramentas mais desprezadas podem se tornar a chave para a vitória, se você tiver paciência e um plano fedorento o suficiente.

Mas vamos falar sobre os detalhes sujos, literalmente. A mecânica de veneno e toxina em Dark Souls II é um pouco diferente dos outros títulos da série. O veneno drena vida de forma constante, mas relativamente lenta. A toxina, no entanto, é uma versão mais agressiva, causando um dano por segundo muito maior. As Dung Pies têm a chance de infligir ambos os status. O que isso significa na prática? O jogador precisava não apenas acertar os arremessos, mas também torcer pela RNG (geração de números aleatórios) para que o status mais forte fosse aplicado, especialmente contra chefes com enormes pools de vida.

E acertar os arremessos não era trivial. Dung Pies têm um arco de lançamento curto e uma trajetória que exige proximidade. Contra um chefe como o Espadachim de Mirrah, que é ágil e agressivo, ficar no alcance para arremessar era um convite para ser espetado. Ymfah precisou dominar os frames de animação de cada chefe, os momentos exatos em que poderia se aproximar, arremessar e rolar para fora do perigo. Era menos um combate e mais uma coreografia perigosa e meticulosa.

Os Pontos de Virada Mais Nojentos (e Brilhantes)

Alguns momentos específicos da run se destacam como verdadeiros pesadelos logísticos. A área de Black Gulch, por exemplo, é um campo minado de estátuas que cospem veneno e criaturas escondidas na poça de petróleo. A estratégia convencional é correr ou quebrar as estátuas. Com o desafio das Dung Pies, o youtuber precisou usar seu próprio estoque limitado para envenenar as criaturas de longe e esperar – muito – até que morressem, tudo enquanto desviava dos jatos de veneno. Foi uma sessão de pura tortura virtual que provavelmente testou os limites da sanidade de qualquer um assistindo.

E o que dizer dos chefes opcionais, como o Duque's Dear Freja ou o Velho Dragão Cinzento? Essas lutas, já desafiadoras com armas normais, se transformaram em maratonas de resistência que podiam durar dezenas de minutos. Um erro significava não apenas a morte, mas o desperdício de um recurso precioso. A pressão psicológica de saber que cada Dung Pie mal-arremessada era uma a menos para enfrentar o próximo obstáculo é uma camada de dificuldade que poucos jogos conseguem replicar intencionalmente.

Além do Meme: A Economia de um Mundo Pós-Apocalíptico

Esse desafio bizarro acaba revelando, mesmo que sem querer, uma crítica interessante aos sistemas de economia dos RPGs. Em um mundo devastado como Drangleic, faria sentido que itens descartáveis e "improvisados" como uma torta de esterco fossem commodities valiosas? A necessidade extrema de farmar esses itens de inimigos comuns força o jogador a interagir com o ambiente de uma maneira completamente nova. De repente, aqueles cavaleiros vazios em Forest of Fallen Giants não são apenas obstáculos, mas fontes potenciais de uma munição crucial.

Isso me faz pensar: quantas outras mecânicas marginais em jogos famosos estão esperando por um desafio absurdo para serem exploradas? A comunidade de Souls já fez runs com apenas escudos, apenas punhos, ou usando a câmera do binóculo para travar o aggro dos inimigos. Cada uma dessas restrições é como colocar o jogo sob um microscópio, isolando uma variável para ver como todo o ecossistema reage. É uma forma de ciência, só que com mais mortes grotescas e humor negro.

E aí está outro ponto. O humor é parte integral do apelo. Há uma dissonância hilariante entre a grandiosidade sombria da narrativa de Dark Souls II – com seus reis caídos e ciclos de fogo – e a solução prática de derrotar essas entidades arremessando cocô nelas. A seriedade épica é subvertida pelo método mais baixo e nojento possível. É uma paródia jogável, uma desconstrução do próprio tom do jogo. Assistir a um ser ancestral de pura escuridão ser derrotado por uma chuva de excrementos é, de certa forma, libertador. Reduz todos os deuses e monstros ao mesmo nível ridículo.

Mas será que os desenvolvedores da FromSoftware previam esse tipo de uso? Duvido. No entanto, o fato de o sistema de status, o dano contínuo, a mecânica de arremesso e a economia de itens se sustentarem mesmo sob essa pressão extrema fala volumes sobre a robustez do motor do jogo. Muitos títulos modernos quebrariam diante de uma exploração tão fora da curva. Em Dark Souls II, a resposta foi simplesmente: "Vai funcionar, mas vai ser horrivelmente lento". Há uma certa honestidade nisso.

O sucesso de runs como essa também alimenta um ciclo criativo. Outros criadores de conteúdo veem o feito e pensam: "E se eu tentar vencer usando apenas o encantamento 'Warmth' para curar inimigos até que eles morram de overdose de saúde?" ou "E se eu só puder causar dano refletindo os ataques dos chefes com um escudo específico?". A fronteira do possível é constantemente empurrada, não pela tecnologia, mas pela imaginação e teimosia humanas. A "Dung Pie Only Run" não é um ponto final; é uma porta de entrada para um universo paralelo de possibilidades dentro do mesmo jogo que milhões já zeraram da forma "normal".



Fonte: Dexerto