Enquanto a Gaimin Gladiators luta por uma vaga no IEM Cologne Major no Circuit X Mayhem de São Paulo, o jogador João "felps" Vasconcellos oferece uma perspectiva refrescante sobre a pressão que cerca a disputa. Após uma vitória tensa contra a GameHunters que garantiu a equipe nos playoffs, felps falou abertamente sobre seu mindset, sua preparação e, principalmente, sobre como ele encara a corrida pelo cobiçado Major. Sua abordagem, focada no processo e na evolução individual e coletiva, contrasta com a ansiedade que costuma dominar o cenário competitivo em momentos decisivos.
A vitória contra a GameHunters e a mentalidade no servidor
"O CS hoje em dia é difícil mesmo", admitiu felps, refletindo sobre a partida contra a GameHunters. Ele reconheceu os erros da equipe, como a aceleração desnecessária de rounds e a perda de clutches decisivos, mas manteve uma visão pragmática. "Às vezes acabamos acelerando um pouco os rounds. E aí no momento talvez, aquela kill chave que poderia trazer o round para nós, o clutch que poderia trazer, acabamos perdendo."
Para ele, esses tropeços fazem parte da evolução. A vitória, conquistada mesmo após ficar atrás no placar da map Ancient (9x7), foi creditada à experiência da equipe. "Ganhamos, agora é felicidade, mas amanhã é outro dia", resumiu, demonstrando uma mentalidade que valoriza o presente sem se perder em expectativas futuras ou em arrependimentos do passado. É uma lição de resiliência que muitos times poderiam aprender.
Preparação para as quartas de final e a filosofia de treino
Com a classificação, os Gladiators agora enfrentam a RED Canids nas quartas de final. Quando questionado sobre a preparação, a resposta de felps foi direta e reveladora de sua dedicação. "Talvez amanhã vamos entrar um pouquinho mais cedo, dar uma conversada. Mas acho que nesse momento não é nem muito mais sobre criar coisa ou preparação."
Em vez de estratégias complexas no último minuto, sua receita é mais prática – e intensa. "Eu não sei o que os meninos vão fazer, mas vou para um lugar aqui, vou ficar jogando até 6h da manhã. E é isso, tem que estar bem preparado desse jeito." Essa declaração pinta um retrato claro de um jogador que acredita que a maestria vem da repetição e do tempo investido no jogo, uma filosofia old-school em um cenário cada vez mais tático e analítico.
Você já se perguntou o que realmente separa os bons jogadores dos grandes em momentos de pressão? Para felps, parece ser essa combinação de trabalho duro e uma mente descomplicada.
A disputa pelo Major: uma "consequência", não o objetivo final
Aqui está talvez a parte mais interessante da entrevista. A Gaimin Gladiators tem o destino do Major em suas próprias mãos, mas felps revela que não é isso que o motiva. "Sendo bem sincero, eu acho que a não classificação (para o Major) com certeza vai representar alguma coisa. Isso é uma das coisas que eu mais odeio", confessou, mostrando que está ciente das expectativas.
No entanto, ele rapidamente delineou suas prioridades reais. "Acho que para mim, no momento, desde que eu voltei, o meu objetivo é tentar voltar a ser um dos melhores, e ajudar meu time a ser um dos melhores do mundo. Se o Major vier, é consequência."
É uma declaração poderosa. Em um ambiente onde a classificação para um torneio mundial é muitas vezes tratada como o ápice da carreira, felps a reposiciona como um subproduto natural do sucesso, não como sua definição. "Eu não fico muito ligando em como está o ranking. Estou mais focado agora em melhorar meu jogo, porque eu estou jogando muito mal", acrescentou, com uma honestidade brutal sobre sua própria performance.
E sobre a pressão? "Eu não fico ligando para essa pressão, mas eu acho que vai dar tudo certo." Essa capacidade de separar o ruído externo do foco interno pode ser justamente o que a Gaimin Gladiators precisa para navegar pelos playoffs e, quem sabe, garantir a vaga no Major – mesmo que, para felps, isso seja apenas o caminho, e não o destino.
Essa mentalidade, claro, não surge do nada. Ela vem de uma carreira repleta de altos e baixos, de títulos internacionais com a SK Gaming e a MIBR, mas também de períodos longe dos holofotes. Felps já esteve no topo do mundo e sabe como é a pressão de carregar a bandeira do Brasil em um palco global. Talvez seja essa bagagem que lhe permita ver o Major com outros olhos hoje. Não como uma obsessão, mas como um marco possível em uma jornada maior de reconstrução.
O contraste com o cenário competitivo atual
É difícil não notar o contraste entre a postura de felps e a atmosfera geral do cenário. Enquanto fóruns fervilham com cálculos de pontos de ranking e projeções, e a narrativa midiática frequentemente reduz uma temporada inteira à simples pergunta "vai ou não vai para o Major?", ele escolhe um caminho mais introspectivo. Isso não é desleixo ou falta de ambição – longe disso. A declaração de que vai "ficar jogando até 6h da manhã" prova o comprometimento. A diferença está no foco: ele está investindo no bloco de construção, não apenas sonhando com o prédio pronto.
E sabe o que é mais interessante? Essa abordagem pode, ironicamente, ser a mais eficaz para alcançar o objetivo que ele diz não priorizar. A psicologia do esporte há muito fala sobre a "paradox of intention": quanto mais você se agarra desesperadamente a um resultado, mais ele escorrega entre seus dedos. Ao focar rigidamente no processo – nos treinos, na comunicação, no jogo individual –, o resultado tende a vir como um subproduto natural, exatamente como felps colocou.
Você já parou para pensar quantas vezes, na vida ou nos games, a ansiedade pelo destino final atrapalhou a qualidade do caminho?
O papel da experiência e a voz dentro do time
Aos 27 anos, felps é um dos veteranos no elenco da Gaimin Gladiators. Sua experiência é um ativo intangível, especialmente em um time com jogadores mais jovens. A forma calma com que analisa a vitória contra a GameHunters, reconhecendo erros sem drama, estabelece um tom importante para o grupo. Em momentos de pressão, ter alguém que já passou por tudo isso e ainda mantém a serenidade é um diferencial enorme.
"Eu estou jogando muito mal", ele admitiu. Essa autocrítica pública é rara. Muitos jogadores, sob o olhar das câmeras, recorrem a clichês ou desviam a responsabilidade. A honestidade brutal de felps desarma. Ela remove a pressão de ter que parecer perfeito e, em vez disso, canaliza a energia para a solução: trabalhar mais. É uma lição de liderança não pelo discurso, mas pelo exemplo. Ele não está pedindo para o time fazer algo que ele mesmo não está disposto a fazer – no caso, encarar uma maratona noturna de treino para corrigir falhas.
E o que isso significa para a dinâmica interna? Provavelmente, cria um ambiente onde é seguro errar e admitir fraquezas, desde que haja a disposição para corrigi-las. Em um esporte onde a confiança é tão frágil, esse pode ser o alicerce mais importante para uma campanha bem-sucedida nos playoffs.
O que está por vir: mais do que um confronto contra a RED Canids
O próximo obstáculo é a RED Canids, uma equipe familiar e sempre perigosa. Mas, ouvindo felps, fica claro que o verdadeiro adversário não está do outro lado do servidor. O desafio é interno. É superar os "erros bobos", é encontrar a consistência, é fazer com que a experiência coletiva prevaleça nos rounds decisivos. A preparação, portanto, não é sobre desvendar um oponente específico, mas sobre aprimorar a própria máquina.
"Talvez amanhã vamos entrar um pouquinho mais cedo, dar uma conversada." Essa "conversada" é provavelmente onde a mágica acontece. É o momento de alinhar expectativas, de reforçar conceitos básicos que se perdem no calor do jogo, de lembrar que, independente do placar ou da vaga no Major, o objetivo é jogar o melhor CS possível naquele dia. Parece simples, mas é incrivelmente fácil de esquecer quando a tensão aperta.
E se a Gaimin Gladiators não se classificar? O mundo não acabará, pelo menos não na visão de mundo que felps está articulando. Representaria um contratempo, sim. Uma decepção, com certeza. Mas não invalidaria o trabalho feito ou a evolução buscada. Seria apenas mais um dado em uma equação muito mais longa, que tem como variável principal a busca pela excelência, não por um selo de qualificação. Essa perspectiva pode ser libertadora para um time que carrega o peso de uma região faminta por sucesso.
No fim das contas, a entrevista de felps nos oferece um vislumbre raro da mente de um competidor de elite. É um lembrete de que, por trás das estratégias complexas, dos meta-jogos e das dramáticas transmissões, o cerne da competição ainda reside em fundamentos atemporais: trabalho duro, autoconhecimento e a coragem de focar no que você pode controlar. A vaga no IEM Cologne Major pode ou não ser o destino final desta jornada dos Gladiators em São Paulo, mas, seguindo a filosofia do seu star player, o caminho percorrido já parece estar valendo a pena.




