Enquanto muitas organizações se afastam do Counter-Strike devido ao modelo competitivo atual, o Vasco eSports decidiu seguir na direção oposta. O movimento, que contraria a tendência do cenário brasileiro, tem uma explicação bastante clara: a paixão da torcida. Denis "pings" Vidigal, CEO da empresa que gere o Vasco eSports, revelou em entrevista exclusiva qual foi o principal motivador por trás dessa decisão estratégica.
O poder da torcida vascaína
"Nosso principal motivador foi a torcida", afirmou pings à Dust2 Brasil. "O cenário de esports já é difícil, o do CS2 é mais ainda. Claro que também tem outros fatores, como aumentar nossas chances de conseguirmos patrocinadores, porém o ponto principal é trazer os vascaínos para acompanharem os esports."
O CEO explica que o CS2 sempre foi um jogo que a torcida vascaína pedia insistentemente para que o clube estivesse presente. A entrada do time nesta modalidade visa atender especificamente esse pedido, sem pensar necessariamente "no lucro em geral". Essa abordagem focada no engajamento dos fãs rather than no retorno financeiro imediato mostra uma visão diferente de como construir uma marca nos esports.
Desafios financeiros e estruturais
Apesar do entusiasmo com o novo projeto, a realidade financeira impõe limitações. A equipe anunciada na última segunda-feira conta com Alef "tatazin" Pereira, Matheus "mawth" Gonçalves, Nicolas "n1cks" Paixão, Renan "RenanZin" Henrique e Victor "clon7" Mackieviez, mas ainda não possui um treinador.
"Eu já vinha falando com o Tatazin por algum tempo, esperando a melhor oportunidade para entrarmos no horário", detalhou pings sobre o processo de formação do time. "Ele me trouxe alguns nomes, analisamos juntos, peguei a opinião de alguns amigos que entendem mais do que eu do jogo e fechamos a line mais forte possível."
Quanto à contratação de um treinador, o CEO foi direto: "Não temos ainda, mas está nos planos. Nosso orçamento é bem apertado e estamos buscando patrocinadores para ajudar a expandir o projeto". Essa transparência sobre as dificuldades financeiras é rara no meio dos esports, onde muitas organizações tentam projetar uma imagem de solidez mesmo quando enfrentam desafios similares.
Gerenciamento e visão de futuro
pings é o responsável por gerenciar a divisão de esports do Vasco através da PINGS Gaming. Ele revela que seu contato com o clube vem aumentando a cada ano, especialmente com o novo diretor de marketing do Vasco, Gui Neto, que "é uma pessoa que conhece dos esports e vem ajudando bastante na expansão".
"Tentamos aproveitar oportunidades e, ao mesmo tempo, dar o que a torcida pede", explicou. "Sempre lemos as críticas e, muitas delas, colocamos em prática, como o CS2. É um projeto deficitário, como grande maioria dos times de esports do cenário. Por isso, contamos com o apoio da torcida e estamos sempre buscando parceiros, patrocinadores e investidores para um dia sermos o maior e melhor time de esports do Brasil."
O timing da entrada do Vasco no CS2 é particularmente interessante considerando que o Flamengo, seu rival estadual no futebol, recentemente deixou o Counter-Strike por optar se afastar de jogos de tiro. Sobre esse contraste, pings foi categórico: "Não houve esse alinhamento. Tentamos aproveitar as melhores oportunidades dentro dos esports".
Ele ainda acrescentou: "Infelizmente, ficamos de fora da liga do Rainbow Six por conta da Ubisoft, porém no Free Fire temos vaga e também é um jogo que a torcida gosta muito. Sobre o Flamengo, a gente já tinha fechado com os jogadores antes do anúncio da saída e foi uma péssima notícia para nós pois gostaríamos de levar a rivalidade para o CS2".
Essa postura do Vasco eSports levanta questões interessantes sobre o modelo de negócios nos esports brasileiros. Enquanto algumas organizações recuam de titles considerados financeiramente desafiadores, outras veem valor no engajamento da torcida e no potencial de longo prazo. A aposta do Vasco parece ser na construção de uma base sólida de fãs, mesmo que isso signifique operar no vermelho inicialmente.
O orçamento limitado não é o único desafio que a organização enfrenta. pings revela que a estruturação do time precisou ser feita com pragmatismo: "Começamos do zero, sem ilusões. Sabemos que não vamos competir com os grandes orçamentos de times como Furia ou MIBR logo de cara. Nosso foco é crescimento orgânico e consistente". Essa abordagem realista contrasta com a euforia que muitas organizações demonstram ao entrar em novas modalidades.
E como a torcida tem reagido até agora? O CEO compartilha alguns números impressionantes: "Desde o anúncio, nosso engajamento nas redes sociais aumentou em 300%. Os vascaínos estão famintos por conteúdo de CS2 e estamos nos preparando para atender essa demanda". Esse caloroso recebimento reforça a tese de que a paixão do torcedor pode, sim, ser um motor para projetos de esports.
Estratégia competitiva e expectativas realistas
Quanto às competições, o Vasco eSports planeja uma entrada gradual no cenário. "Vamos começar pelos campeonatos online, construir uma identidade de jogo e depois buscar vagas em torneios maiores", explica pings. Essa paciência estratégica é necessária considerando que o time está formado por jogadores jovens e relativamente desconhecidos no cenário principal.
O CEO faz questão de temperar o otimismo com realismo: "Não prometemos títulos imediatos. Prometemos trabalho duro, evolução constante e transparente com nossa torcida. Se em um ano estivermos disputando classificatórias para majors, já consideraremos um sucesso". Essa honestidade sobre prazos e expectativas é refrescante em um ambiente onde promessas grandiosas often superam a realidade.
Um aspecto interessante é como a organização planeja monetizar o projeto. Além dos patrocínios tradicionais, pings menciona que "a venda de produtos licenciados com a marca do time de CS2 já está nos planos. A torcida quer representar seu time nos jogos, assim como faz no futebol". Essa sinergia entre esports e merchandising pode ser uma peça chave para tornar o projeto sustentável.
O ecossistema de esports do Vasco
O CS2 não existe isoladamente dentro da estrutura do clube. pings detalha como a nova equipe se encaixa no panorama mais amplo: "Temos um ecossistema que inclui Free Fire, League of Legends e agora CS2. Cada modalidade atinge um público diferente, mas todos sob a mesma paixão vascaína".
Essa diversificação é intencional. "Alguns torcedores acompanham apenas um jogo, outros acompanham vários. Queremos que todo vascaíno encontre seu espaço nos nossos esports", complementa. A estratégia parece ser criar múltiplos pontos de entrada para que os fãs do clube se engajem com os esports.
E como funciona a relação com o clube de futebol? pings é claro: "Temos autonomia operacional, mas alinhamento estratégico total. O Vasco entende que esports é uma forma de alcançar as novas gerações e manter a relevância da marca". Essa integração, ainda que com independência operacional, diferencia o projeto de muitas outras organizações de esports.
O CEO ainda revela planos futuros: "Estamos estudando outras modalidades, mas sempre com o critério principal: o que nossa torcida quer ver. Não vamos entrar em jogos só porque estão na moda se não fizer sentido para nossos fãs". Essa filosofia centrada no torcedor parece ser o fio condutor de todas as decisões da organização.
Os desafios logísticos também são consideráveis. "Montar uma gaming house, estrutura de treinos, suporte psicológico - tudo isso custa caro e estamos fazendo progressos gradualmente", admite pings. A transparência sobre essas dificuldades operacionais é rara no meio, onde muitas organizações preferem projetar uma imagem de completude desde o primeiro dia.
Questionado sobre como medirão o sucesso do projeto além dos resultados competitivos, pings é categórico: "O engajamento da torcida será nosso termômetro principal. Views nas transmissões, interação nas redes sociais, vendas de produtos - esses números nos dirão se estamos no caminho certo". Essa métrica alternativa ao simples win-loss record mostra uma compreensão madura do business de esports.
E os jogadores? Como estão se adaptando à responsabilidade de vestir a camisa do Vasco? "Eles entendem o peso da camisa e a paixão da torcida", afirma o CEO. "Estamos construindo uma cultura onde o esforço e a evolução contínua são mais importantes que resultados imediatos". Essa paciência com o processo de desenvolvimento é essencial para times com orçamentos enxutos.
Com informações do: Dust2


