Mason "Lake" Sanderson, jogador da equipe M80 de Counter-Strike, revelou como a adoção de uma rotina disciplinada e mudanças significativas em seus hábitos foram cruciais para sua recente ascensão no cenário competitivo. Em entrevista exclusiva, o rifler americano compartilhou insights sobre a transformação que está vivendo tanto pessoalmente quanto dentro da equipe.

A virada disciplinar: do caos à rotina

Lake admitiu que, durante muito tempo, manteve hábitos noturnos que prejudicavam seu desempenho. "Sempre fui para a cama tarde, acordava meio tarde", confessou. Mas tudo mudou quando seu técnico, Rory "dephh" Jackson, interveio com um conselho direto: "Você precisa estabelecer uma rotina".

O que me surpreende é como algo aparentemente simples como mudar horários de sono pode ter impacto tão significativo no desempenho de atletas profissionais. Na minha experiência acompanhando esports, vejo muitos jogadores subestimarem a importância desses aspectos básicos.

Lake abraçou a mudança: "Neste torneio, comecei a acordar realmente antes de qualquer outra pessoa, e honestamente tem sido muito bom". Essa nova disciplina coincide com uma fase de consistência em suas performances, algo que ele vinha buscando há tempos.

Renovação energética com HexT

A M80 passou por uma mudança significativa durante a entressafra, substituindo Ethan "reck" Serrano por Jadan "HexT" Postma. Lake descreve a transição como uma injeção de "nova energia" na equipe.

"Precisávamos de um cara de vibes", explicou Lake. "É realmente bom com o Jadan porque... depende do jogo, mas a maioria de nós é bastante séria quando se trata de jogar, mas é sempre bom eu e ele brincarmos um com o outro, relaxando todo mundo um pouco".

E como isso difere da dinâmica anterior? "Ethan era um cara bastante quieto no geral. Ethan também era bem engraçado, mas era mais do lado sério também. Jadan fala significativamente mais, então é um pouco mais fácil jogar com ele".

Desafios e confiança para os playoffs

A M80 garantiu vaga nos playoffs de Londres após uma campanha impressionante na fase de grupos online, passando por Virtus.pro, Natus Vincere e fnatic. Sua recompensa? Um confronto nas quartas de final contra a MOUZ e potencial semi-final contra a Vitality.

Mas Lake demonstra confiança incomum para uma equipe underdog: "Não me importo com os confrontos. Jogamos contra a Vitality online, obviamente eles são um pouco diferentes no LAN. Já estou ansioso por esse jogo porque sinto que vamos vencer a MOUZ".

Essa mentalidade reflete a evolução coletiva da equipe. Lake destaca como o estilo de liderança do IGL Elias "s1n" permite mais liberdade criativa: "Elias deposita muita confiança em mim, slaxz- também. Somos uma equipe baseada em movimentos, então o que estamos sentindo, o que fazemos, o que vemos na rodada, é sempre bom chamar".

Agora, com um ano completo na M80, Lake reflete sobre seu crescimento: "Minhas performances recentes têm melhorado, o que é bom de ver. Finalmente estou mostrando alguma consistência".

E sobre a cena norte-americana? "É um pouco brutal, nenhum de nós gosta realmente de ficar na NA. Só queremos jogar e terminar. Os treinos estão horríveis na NA agora, há apenas algumas boas equipes e você só as pratica repetidamente".

A evolução do papel dentro do time

O que muitas pessoas não percebem é como a posição de Lake dentro da M80 evoluiu desde que chegou. Ele não é mais apenas o rifler agressivo - tornou-se uma peça estratégica crucial. "Sinto que ganhei mais liberdade para tomar decisões in-game", compartilhou. "Antes, seguia ordens mais rigidamente, mas agora tenho espaço para ler o jogo e propor jogadas".

E como isso funciona na prática? Lake explica: "Às vezes vejo uma abertura que o IGL não percebeu, e posso comunicar isso. Elias confia o suficiente para me dar essa autonomia. É uma relação de mão dupla - ele lidera, mas também escuta o que estamos vendo no servidor".

Essa dinâmica me lembra conversas que tive com outros jogadores profissionais. A transição de executar ordens para co-criar estratégias é um marco no desenvolvimento de qualquer competidor. Parece que Lake está nesse ponto exato da carreira onde a experiência começa a se transformar em inteligência de jogo mais sofisticada.

Os desafios específicos do cenário norte-americano

Lake foi bastante franco sobre as dificuldades de competir representando a região norte-americana atualmente. "É complicado", admitiu. "Não temos a mesma densidade de times de alto nível que a Europa ou mesmo a CIS. Você acaba treinando contra as mesmas duas ou três equipes repetidamente".

Mas será que isso é necessariamente ruim? Alguns argumentariam que jogar contra os mesmos oponentes repetidamente força equipes a desenvolverem estratégias mais profundas e antistratos mais elaborados. Lake, no entanto, vê desvantagens claras: "Você não se expõe a estilos diferentes de jogo. Cada região tem suas particularidades, e quando chega num torneio internacional, pode ser um choque".

O rifler detalhou como a M80 contorna essa limitação: "Tentamos marcar scrims com times europeus sempre que possível, mas a diferença de fuso horário é um obstáculo. Acabamos jogando muito tarde da noite ou muito cedo pela manhã. Não é ideal, mas é o que temos que fazer para nos prepararmos adequadamente".

E sobre a pressão de carregar a bandeira norte-americana num cenário global cada vez mais dominado por europeus? "Não penso muito nisso", disse Lake. "No final, Counter-Strike é Counter-Strike, não importa de onde você vem. O jogo é o mesmo para todos".

Preparação específica para torneios LAN

Com a volta dos eventos presenciais, a preparação para competições LAN tornou-se um aspecto crucial do trabalho profissional. Lake revelou que a equipe ajustou significativamente seus métodos de preparação.

"No online, você pode até improvisar mais", explicou. "Mas no LAN, cada detalhe conta. Estudamos demais os oponentes, seus padrões, suas economias. Assistimos a tantas demos que às vezes sonho com rounds de Counter-Strike".

A parte física também ganhou importância renovada. "Dephh nos lembra constantemente: 'LAN é uma maratona, não um sprint'. Não adianta chegar queimado no segundo dia porque você não dormiu ou não se alimentou direito".

Isso me faz pensar: quantas vezes vimos times talentosos desmoronarem em torneios presenciais não por falta de habilidade, mas por falta de preparação física e mental? A profissionalização do esporte exige que jogadores tratem seus corpos como atletas de alto rendimento tradicionais.

Lake complementa: "Temos até rotinas específicas para o dia do jogo - horários para acordar, refeições, tempo de warmup. Pode parecer excessivo, mas faz diferença quando você está lá na arena, com milhares de pessoas gritando".

O processo de construção de confiança

Um aspecto fascinante da entrevista foi como Lake descreveu o desenvolvimento da confiança dentro do time. "Não acontece da noite para o dia", refletiu. "É um processo gradual onde você vai entendendo como cada pessoa reage sob pressão, o que motiva cada um, como comunicar críticas sem desmotivar".

Ele deu um exemplo concreto: "No começo, quando alguém cometia um erro, podia haver um certo tensionamento. Agora, entendemos que erros são parte do processo. Em vez de focar no que deu errado, discutimos como evitar na próxima vez".

Essa maturidade é relativamente rara em equipes mais jovens. Normalmente leva várias temporadas, vários tropeços, para desenvolver essa resiliência mental coletiva. A M80 parece ter acelerado esse processo através de uma comunicação deliberadamente aberta.

"Fazemos sessões de feedback regularmente", revelou Lake. "Não apenas sobre o jogo, mas sobre como estamos nos sentindo, se há algo incomodando alguém. Pode parecer terapia de grupo, mas funciona".

Essa abordagem me surpreendeu positivamente. Muitas organizações ainda operam no modelo antiquado onde emoções são suprimidas em nome da "profissionalização". A M80 parece entender que jogadores são humanos primeiro, profissionais depois.

O rifler finalizou esse ponto com uma percepção interessante: "Quando você sabe que pode cometer um erro sem ser crucificado, joga mais solto. Toma mais iniciativas criativas. É assim que surgem as jogadas espetaculares que viram highlights".

Com informações do: HLTV