FURIA conquista título mundial, mas cenário feminino ainda enfrenta incertezas

Apesar da histórica conquista da FURIA na ESL Impact League Season 7 Finals - tornando-se o primeiro time brasileiro a vencer um mundial feminino de CS:GO - o cenário das competições femininas enfrenta sérios desafios estruturais. A falta de investimento e o pequeno número de times com patrocínio organizado preocupa jogadoras e especialistas.

Dificuldades dos times sem organização

Ana Carolina "annaEX" Dias, líder do time QUEM SAO ELAS, compartilhou com a Dust2 Brasil os obstáculos enfrentados por equipes sem apoio institucional:

  • Custos de servidores e assinaturas premium para participar de campeonatos

  • Dificuldade em adquirir ferramentas de análise como skybox/cs2lens

  • Problemas para marcar treinos contra times de alto nível

  • Despesas individuais para manter o nível competitivo

"Tudo isso precisa sair do nosso bolso", lamenta annaEX. "E nem sempre todos os integrantes têm condições. Normalmente precisamos pagar mensalmente todas essas coisas que somadas acabam sendo um valor considerável."

Cenário sul-americano em crise

Atualmente, apenas três organizações investem no CS:GO feminino brasileiro: FURIA, MIBR e O PLANO. Dos oito times que disputaram a última edição da liga sul-americana da ESL Impact, cinco estão completamente sem patrocínio.

"Enfrentamos uma das maiores crises do cenário como um todo", analisa annaEX. "Mesmo o Brasil sendo o atual campeão mundial de CS2 em 2025, temos apenas três organizações investindo e os demais times sobrevivendo por conta própria."

A jogadora aponta dois problemas centrais:

  • Número reduzido de campeonatos

  • Falta de um calendário fixo para o cenário feminino

"Acredito que com mais campeonatos tudo tende a melhorar", opina. "Tendo em vista que a América do Sul possui duas vagas nos mundiais da ESL."

O que falta para fortalecer o cenário?

Para annaEX, a revitalização do CS:GO feminino passa por:

  • Maior número de competições

  • Melhor divulgação por parte de todos os envolvidos

  • Movimentação mais ativa nas redes sociais

  • Maior sintonia com patrocinadores

  • Transparência nas datas dos eventos

Apesar dos desafios, a conquista da FURIA traz esperança: "Sem dúvidas o título da FURIA traz uma maior visibilidade para o cenário brasileiro", afirma annaEX. "Nos coloca no radar de organizações estrangeiras o que pode ser muito benéfico para todas nós."

Impacto do cenário internacional no Brasil

Enquanto o Brasil celebra o título mundial da FURIA, o cenário global feminino de CS:GO apresenta contrastes marcantes. Na Europa e América do Norte, times como Nigma Galaxy e CLG Red operam com estruturas profissionais completas, incluindo:

  • Salários fixos para jogadoras

  • Equipes de análise técnica dedicadas

  • Acesso a psicólogos esportivos

  • Programas de condicionamento físico

"Essa diferença de estrutura é visível nos campeonatos internacionais", comenta Julia "julih" Oliveira, ex-jogadora profissional. "Enquanto as europeias treinam 8 horas por dia com suporte completo, nossas melhores jogadoras precisam conciliar estudos, trabalho e treinos."

O papel das desenvolvedoras e plataformas

A Valve, responsável pelo CS:GO, historicamente pouco atuou no desenvolvimento do cenário feminino. Diferente de outros jogos como VALORANT, que desde seu lançamento criou programas específicos para equipes femininas.

"A Riot Games estabeleceu um modelo que poderia ser seguido", analisa Carlos "kako" Alberto, comentarista esportivo. "Eles criaram o Game Changers, uma competição paralela que serve como ponte para o cenário principal. No CS, as jogadoras precisam competir imediatamente contra times masculinos consolidados."

Casos de sucesso que inspiram

Apesar das dificuldades, alguns times brasileiros encontraram modelos alternativos para se manterem competitivos:

  • O projeto GODSENT Female começou como iniciativa das próprias jogadoras antes de ser adotado pela organização

  • A equipe Black Dragons Female opera com um modelo misto de patrocínios locais e crowdfunding

  • O time da MIBR mantém parceria com universidades para bolsas de estudo às atletas

"Esses casos mostram que há caminhos possíveis", reflete julih. "Mas precisamos de mais organizações dispostas a investir a longo prazo, não apenas em momentos de hype após títulos."

O dilema das novas jogadoras

Para jovens talentos que desejam ingressar no cenário competitivo, os obstáculos são ainda maiores. Sem um caminho claro de desenvolvimento, muitas desistem antes mesmo de terem chance de mostrar seu potencial.

Mariana "mari" Santos, de 17 anos, compartilha sua experiência: "Treino há dois anos, mas sem time organizado é difícil evoluir. Participo de torneios amadores onde as premiações são skins do jogo, não dinheiro de verdade."

Especialistas apontam que esta falta de base pode comprometer o futuro do cenário: "Se não formarmos novas jogadoras agora, daqui a cinco anos teremos um abismo geracional", alerta kako.

Com informações do: Dust2