A trapaça em videogames se transformou em uma indústria bilionária — e franquias como Call of Duty precisaram montar equipes inteiras só para tentar conter esse avanço. Um dos nomes à frente dessa batalha é David Andrews, ex-contratado do Departamento de Defesa dos Estados Unidos e membro da Força Aérea, que migrou para a indústria dos games. Ele começou essa transição na Rockstar Games, ajudando a combater trapaças em Grand Theft Auto Online. No ano passado, deu o salto para a Activision como Senior Director of Game Security de Call of Duty.
O IGN teve a chance de conversar com Andrews e destrinchar as camadas do sistema anti-cheat de Call of Duty, o Ricochet. Na conversa, ele desmentiu mitos sobre o anti-cheat do jogo, deu clareza sobre o processo de revisão anti-cheat do COD em 2026 — como eles investigam suspeitos de trapaça —, explicou como a empresa chegou a contratar criadores de cheats para reforçar o combate ao problema, e muito mais. É uma oportunidade rara, já que existe muita cautela ao falar publicamente sobre anti-cheat nos games. Afinal, se você fala demais, pode sem querer dar uma pista aos trapaceiros sobre como escapar da detecção.
Dito isso, fomos a fundo na questão de longa data do Call of Duty com trapaceiros, na tentativa de tornar o assunto menos misterioso. É um tema importante às vésperas do lançamento de Modern Warfare 4 em outubro, e algo que a Activision está trabalhando duro para destacar.
Esta entrevista foi levemente editada para clareza e extensão.
Como funciona o anti-cheat Call of Duty em 2026
IGN: Antes de mergulharmos especificamente em Call of Duty, me diga a diferença entre trabalhar em Grand Theft Auto Online...
Confesso que essa parte me deixou curioso. A experiência de Andrews na Rockstar não é um detalhe qualquer — GTA Online tem uma das comunidades mais criativas (e persistentes) quando o assunto é burlar sistemas. Levar esse aprendizado para o Ricochet provavelmente moldou boa parte da filosofia atual do anti-cheat do COD.
O que chama atenção na fala dele é a tentativa de desmistificar o processo. Muita gente acha que o banimento é automático, instantâneo, tipo um interruptor. Não é bem assim. Existe um processo de revisão anti-cheat do COD 2026 que envolve camadas de análise, e é justamente aí que mora a complexidade — e também a frustração de quem joga limpo e vê trapaceiro escapando por semanas.
Mitos desmentidos sobre o anti-cheat do Call of Duty
Uma das coisas que Andrews deixou claro é que boa parte do que circula por aí sobre o Ricochet simplesmente não corresponde à realidade. E olha, não é difícil entender por quê: quando você não pode falar abertamente sobre como um sistema funciona, o vácuo de informação vira terreno fértil para teoria da conspiração.
- O mito de que o anti-cheat "não faz nada" — na prática, o processo de revisão existe e é contínuo, mas raramente é visível para o jogador comum.
- A ideia de que banimentos são instantâneos — na verdade, há etapas de investigação antes de qualquer ação definitiva.
- A crença de que contratar criadores de cheats é contraditório — Andrews explica que essa é justamente uma forma de entender o inimigo por dentro.
Esse último ponto, aliás, é o que mais me chamou atenção. Contratar quem já criou cheats para combatê-los soa estranho à primeira vista, mas faz todo sentido quando você pensa em segurança como um jogo de xadrez. Você precisa de alguém que pense como o adversário.
O processo de revisão anti-cheat do COD 2026 na prática
Quando perguntado sobre como funciona anti-cheat Call of Duty 2026, Andrews detalhou que a investigação de suspeitos passa por múltiplas etapas — desde detecção automatizada até revisão humana. Isso explica por que alguns casos demoram mais que outros para resultar em banimento.
É frustrante? Sim, para quem está do outro lado levando headshot através da parede. Mas a lógica é evitar falsos positivos, que seriam igualmente danosos para a confiança da comunidade.
Com Modern Warfare 4 chegando em outubro, esse tema ganha ainda mais peso. A Activision claramente quer mostrar que está levando a sério — e a decisão de abrir essa conversa com a imprensa, mesmo que de forma limitada, sinaliza isso.
Resta saber se, na prática, os jogadores vão sentir a diferença. Porque no fim das contas, toda essa estrutura só importa se o resultado aparecer nas partidas.
O que a experiência na Rockstar revelou sobre o combate a trapaças
Voltando àquela comparação entre GTA Online e Call of Duty, Andrews foi bem direto: são ecossistemas diferentes, mas o princípio é o mesmo. Em GTA Online, a trapaça muitas vezes envolve manipulação de economia, duplicação de itens, mods de servidor. Em Call of Duty, o foco é vantagem competitiva em tempo real — wallhacks, aimbots, triggerbots. A diferença de escala também pesa. COD tem partidas rápidas, milhões de jogadores simultâneos, e um ciclo de vida anual que reinicia tudo a cada lançamento.
Isso cria um desafio logístico que eu sinceramente não invejo. Imagine ter que reconstruir parte da sua base de detecção a cada novo título, enquanto os trapaceiros já estão testando exploits no beta. É como trocar o motor de um carro em movimento.
Andrews mencionou que a passagem pela Rockstar o ensinou a pensar em segurança como um sistema vivo, não como um produto fechado. E isso transparece na forma como ele descreve o Ricochet: não como uma bala de prata, mas como um organismo que precisa evoluir constantemente.
Por que contratar criadores de cheats faz sentido (mesmo parecendo contraditório)
Esse ponto merece um parágrafo só para ele. Quando li pela primeira vez que a Activision contratou pessoas que desenvolviam cheats, minha reação foi de estranheza. Mas pensando bem, é uma jogada clássica de segurança ofensiva. Agências de inteligência fazem isso há décadas — recrutam hackers para trabalhar do lado da defesa.
O que Andrews explicou é que essas pessoas trazem um conhecimento prático que nenhum curso de segurança ensina. Elas sabem onde os sistemas quebram, quais atalhos os trapaceiros usam, como pensam. É informação de dentro. E em um jogo de gato e rato, informação de dentro vale ouro.
Claro que isso gera desconfiança na comunidade. "Como confiar em alguém que já lucrou com trapaça?" É uma pergunta justa. Mas a alternativa — ficar eternamente reagindo a cada novo cheat — parece pior.
O que os jogadores realmente querem saber sobre o Ricochet
Vou ser honesto: a maioria dos jogadores não liga para os detalhes técnicos do anti-cheat. O que eles querem saber é simples — o trapaceiro vai ser banido? Quanto tempo vai levar? Vou perder minha partida ranqueada por causa disso?
E é aí que a comunicação falha. A Activision, como muitas empresas, tem medo de dar detalhes que possam ser usados contra o próprio sistema. O resultado é um silêncio que alimenta frustração.
Andrews reconheceu isso na conversa, ainda que de forma cautelosa. Ele sabe que a percepção importa tanto quanto a eficácia. Um anti-cheat que funciona mas parece não funcionar é, para o jogador, um anti-cheat que não funciona.
- Transparência total é impossível — qualquer detalhe pode virar arma nas mãos de quem cria cheats.
- Transparência zero é insustentável — a comunidade precisa de sinais de que algo está sendo feito.
- O caminho do meio envolve relatórios periódicos, números agregados e comunicação clara sobre o que pode ser compartilhado.
Não é uma equação fácil. E convenhamos, nenhuma empresa de games resolveu isso de forma perfeita até hoje.
O que esperar de Modern Warfare 4 nesse aspecto
Com o lançamento marcado para outubro, a pressão sobre o Ricochet aumenta. Novos títulos sempre atraem uma onda de trapaceiros testando os limites do sistema. É quase um ritual de passagem.
A Activision parece estar tentando se antecipar. A conversa aberta com a imprensa, mesmo que limitada, é um sinal disso. Eles querem chegar no lançamento com a narrativa de que estão preparados.
Mas narrativa e realidade nem sempre andam juntas. O que vai definir a percepção da comunidade não é o que Andrews disse em entrevista, e sim o que acontecer nas primeiras semanas de jogo. Se os servidores encherem de trapaceiros, toda a boa vontade construída agora evapora.
Por outro lado, se o Ricochet conseguir mostrar resultados rápidos — banimentos visíveis, partidas mais limpas —, aí sim a conversa muda de tom. E talvez, só talvez, a gente comece a ver uma relação mais saudável entre comunidade e sistema anti-cheat.
Até lá, fico com a impressão de que Andrews e sua equipe estão jogando xadrez enquanto a maioria de nós ainda está aprendendo as regras do damas. O problema é que nesse jogo, quem perde não é só uma peça — é a confiança de milhões de jogadores.
Fonte: IGB BRASIL









