O cenário competitivo de Counter-Strike na China enfrenta uma crise de credibilidade após graves acusações de manipulação de resultados envolvendo um de seus jogadores mais veteranos. Xu "somebody" HaoWen, nome conhecido no circuito asiático, foi publicamente acusado por outro profissional de tentar combinar resultados de partidas durante o primeiro semestre de 2025.

As acusações de BOROS e a resposta pública

Mohammad "BOROS" Malhas, jogador jordaniano que defendeu equipes como Falcons e Monte, não mediu palavras ao expor as supostas ações de somebody. Através de sua conta no X (antigo Twitter), BOROS revelou que o veterano chinês e seus associados teriam tentado envolvê-lo em esquemas de manipulação durante sua passagem pela China.

"Quando eu estava na China, o somebody estava jogando pela Rare Atom, e ele e seus amigos me pediram para manipular resultados. Eu recusei. Pessoas assim têm de ser banidas dos esports", escreveu BOROS em sua postagem, que rapidamente se espalhou pelas comunidades de CS2.

O jogador ainda agradeceu a JiJieHao por tê-lo afastado "dessas pessoas a tempo" e também aos fãs chineses, sugerindo que a situação poderia ter sido ainda mais complicada sem essa intervenção.

As alegações do Reddit e a suposta estrutura do esquema

As acusações ganharam mais corpo quando um usuário do Reddit chamado CalmLake8 publicou um tópico detalhando supostamente uma estrutura organizada de manipulação. Segundo a publicação, que posteriormente foi removida pelos moderadores da plataforma, somebody seria o líder do esquema ao lado de um primo identificado como Chen Peng, conhecido como Mr. C.

O que mais chama atenção nas alegações é a suposta extensão da operação. Mr. C teria controle sobre as organizações Wings Up e ATOX, o que, se confirmado, representaria uma infiltração profunda no cenário competitivo chinês. A postagem ainda alegava que somebody não apenas manipulava resultados, mas também utilizava cheats durante as partidas.

É importante destacar que até o momento nenhuma evidência concreta foi apresentada publicamente para sustentar essas alegações mais graves. A natureza anônima da fonte e a remoção do conteúdo do Reddit deixam muitas questões em aberto.

O histórico de somebody e o impacto no cenário chinês

Xu "somebody" HaoWen não é um jogador qualquer no cenário de CS2 chinês. Com 30 anos de idade e cinco Majors no currículo, ele construiu uma carreira respeitável ao longo de quase uma década competindo no mais alto nível.

Sua trajetória inclui uma longa passagem pela TYLOO entre abril de 2015 e janeiro de 2022 - período em que a equipe se consolidou como a principal representante chinesa no cenário internacional. Após deixar a TYLOO, somebody defendeu a Rare Atom entre outubro de 2023 e julho de 2025, e atualmente joga pela TBO.

O peso dessas acusações é proporcional à reputação do jogador. Se comprovadas, elas não apenas encerrariam a carreira de somebody, mas também lançariam uma sombra de desconfiança sobre todo o cenário competitivo chinês, que já enfrenta desafios para se equiparar às principais regiões do CS2 global.

Organizações como a ESIC (Esports Integrity Commission) certamente estarão monitorando o desdobramento desse caso, que pode se tornar um dos mais significantes escândalos de integridade competitiva na história recente dos esports chineses.

Reações do cenário competitivo e possíveis investigações

As acusações contra somebody ecoaram rapidamente entre profissionais do cenário asiático e internacional. Vários jogadores e personalidades do CS2 começaram a comentar indiretamente sobre o caso, embora a maioria tenha preferido manter certa cautela até que mais informações surjam. Não é difícil entender o porquê - acusações desse tipo são graves o suficiente para destruir carreiras e manchar permanentemente reputações.

O que me surpreende, particularmente, é o timing dessas revelações. O cenário chinês de Counter-Strike vem tentando se reerguer após alguns anos turbulentos, com organizações investindo pesado em desenvolvimento de talentos locais. Uma crise de integridade agora poderia ser devastadora para a confiança de patrocinadores e fãs.

Fontes próximas à ESIC confirmaram que a organização está "monitorando de perto" a situação, mas ainda não iniciou uma investigação formal. A questão, como me explicou um representante que preferiu não se identificar, é que acusações em redes sociais - mesmo vindo de um profissional como BOROS - não constituem evidência suficiente para abrir um processo. Eles precisariam de provas mais concretas: conversas, transações financeiras ou testemunhas dispostas a falar oficialmente.

O silêncio das organizações envolvidas

Até o momento, tanto a Rare Atom quanto a TBO mantiveram um silêncio quase absoluto sobre o caso. A Wings Up e a ATOX, mencionadas nas alegações do Reddit como sendo controladas por Mr. C, também não se manifestaram publicamente. Esse silêncio é ensurdecedor e, francamente, preocupante.

Na minha experiência cobrindo esports, quando organizações ficam quietas diante de acusações graves, geralmente significa uma de duas coisas: ou estão conduzindo investigações internas antes de se pronunciar, ou estão tentando descobrir como conter os danos. A falta de transparência, porém, só alimenta mais especulações e desconfiança.

Alguns fãs nas redes sociais chinesas começaram a pressionar por respostas, especialmente porque somebody continua jogando pela TBO como se nada tivesse acontecido. Será que as organizações estão esperando que o caso se resolva sozinho? Ou será que há mais coisas acontecendo nos bastidores do que podemos imaginar?

O padrão histórico de manipulação no esports asiático

Infelizmente, essa não é a primeira vez que o esports asiático enfrenta escândalos de integridade competitiva. Lembro-me perfeitamente do caso de 2010 na Coreia do Sul, onde vários jogadores de StarCraft: Brood War foram banidos permanentemente por envolvimento em apostas e manipulação de resultados. Na época, o escândalo foi tão devastador que quase destruiu toda a cena profissional do jogo no país.

Mais recentemente, em 2020, a liga chinesa de DOTA 2 enfrentou suas próprias acusações de match-fixing, resultando em bans permanentes para vários jogadores. O que torna o caso somebody particularmente preocupante é a sugestão de que poderia haver uma estrutura organizada por trás das manipulações, não apenas ações isoladas de jogadores individuais.

Se as alegações sobre Mr. C controlando múltiplas organizações forem verdadeiras, estaríamos diante de algo muito mais sistêmico e difícil de erradicar. Como confiar em resultados de campeonatos se donos de equipes estiverem conspirando para manipular partidas?

Os desafios da investigação e comprovação

Provar acusações de match-fixing nunca é simples. Diferente de cheating, onde screenshots, demos ou análises de anticheat podem fornecer evidências relativamente objetivas, a manipulação de resultados muitas vezes depende de padrões comportamentais, transações financeiras e conversas privadas que raramente vazam publicamente.

As plataformas de apostas esportivas poderiam teoricamente fornecer dados sobre movimentações anômalas, mas a maioria se recusa a compartilhar essas informações sem ordens judiciais. E mesmo quando compartilham, os dados mostram padrões suspeitos, não necessariamente provas concretas.

O que me deixa mais frustrado nesses casos é que, frequentemente, sabemos que algo está errado - a comunidade inteira sente, jogadores comentam entre si nos bastidores - mas ninguém consegue provar definitivamente. E sem provas, os acusados continuam suas carre normalmente, enquanto quem denuncia às vezes sofre retaliações.

BOROS certamente assumiu um risco ao se manifestar publicamente. Na posição dele, será que eu teria a mesma coragem? É difícil dizer. Denunciar pessoas potencialmente conectadas em múltiplas organizações pode significar queimar pontes em todo um continente.

O impacto nos jogadores mais jovens e no desenvolvimento do cenário

Um aspecto que muitos estão negligenciando nessa discussão é como escândalos de integridade afetam os jogadores mais jovens que estão entrando no cenário competitivo. Imagine ser um talento promissor de 17 anos recém-contratado por uma organização chinesa. Como você se sente ao saber que seu ídolo, alguém que você admirava desde criança, está sendo acusado de destruir a integridade do esporte que você ama?

Pior ainda: e se você descobrir que seus próprios colegas de equipe ou superiores estão envolvidos em esquemas de manipulação? Falar significaria arriscar sua carreira, mas calar significaria se tornar cúmplice.

Essa cultura de silêncio é um câncer que corrói os esports desde seus primórdios. Conheci jogadores talentosos que abandonaram carreiras promissoras porque se recusaram a participar de esquemas ilegais ou porque denunciaram e depois foram ostracizados pela comunidade.

O cenário chinês, em particular, precisa enfrentar esses demônios se quiser crescer e competir internacionalmente. Talentos não faltam - a paixão pelo jogo é evidente -, mas a infraestrutura de integridade competitiva parece ainda estar em desenvolvimento.

Com informações do: Dust2