Em um cenário competitivo onde a fadiga e a pressão são constantes, o que mantém uma equipe no topo do mundo? Para Mathieu "ZywOo" Herbaut, astro da Vitality, a resposta é simples, porém poderosa: a pura e incessante busca por troféus. Após garantir a vaga nas semifinais do BLAST Open Rotterdam com campanha impecável, o francês, frequentemente considerado o melhor jogador do mundo, desvendou a mentalidade que move o atual colosso do Counter-Strike.

A filosofia por trás da constância

Em entrevista exclusiva à Dust2 Brasil, ZywOo foi categórico ao definir o combustível da equipe. "É tudo pelos troféus. Nós sabemos o quão difícil é ganhar um troféu", afirmou. E essa consciência da dificuldade, longe de ser um peso, parece ser o que os mantém afiados. É uma perspectiva interessante, não é? Enquanto muitos times podem se acomodar após uma sequência de vitórias, a Vitality usa a memória do esforço necessário como um motivador contínuo.

Ele pintou um quadro realista da rotina exaustiva no topo. "Estamos viajando muito, é cansativo, sabemos que é difícil estar no topo e vamos fazer tudo o que pudermos, porque não sabemos quando será o próximo playoff, o próximo troféu. Pode ser que amanhã percamos tudo". Essa fala revela uma humildade competitiva rara – o entendimento de que a supremacia é temporária e deve ser reconquistada a cada torneio.

Mais do que individualidades: a força do coletivo

O que talvez seja mais revelador na fala de ZywOo é como ele minimiza o aspecto individual em prol do coletivo. Quando questionado sobre como se mantém motivado para ser o melhor jogador, sua resposta foi despretensiosa. "Não penso individualmente... Eu tenho um ótimo time, talvez o melhor de todos os tempos, comigo, então vou dar o meu melhor, com uma boa mentalidade, e vamos ver o que vai acontecer. Eu não tenho nenhum objetivo individual".

Isso ecoa sua análise da vitória no torneio. Ele destacou que, em um determinado jogo, ninguém necessariamente "brilhou" sozinho, mas todos trabalharam para colocar uns aos outros nas melhores condições. "Hoje foi uma vitória da Vitality e não de um jogador", ressaltou. Em uma era onde estrelas individuais frequentemente roubam a cena, essa ênfase no trabalho de equipe como alicerce do sucesso é um diferencial filosófico significativo.

E sobre aquele clutch lendário, o 1 contra 5 que deixou todos boquiabertos? ZywOo explicou com a frieza de um estrategista. "Eu tinha toda a informação na minha mente e joguei com ela". Simples assim. Para ele, foi menos sobre reflexos sobre-humanos e mais sobre leitura de jogo, posicionamento inteligente e timing perfeito – habilidades que são cultivadas em conjunto com a equipe.

O desafio de repetir o sucesso

A ambição declarada é clara e ousada: "Por mais que possamos, tentaremos o nosso melhor para ser o melhor time do mundo. Mesmo que tenhamos ganhado tudo no ano passado, se pudermos fazer isso anualmente nós faremos". ZywOo acredita piamente que têm o elenco para isso, referindo-se aos "cinco melhores jogadores em cada função".

Mas será possível manter esse nível de domínio ano após ano? A história do esporte eletrônico está repleta de dinastias que eventualmente caem. A própria declaração de ZywOo reconhece essa fragilidade inerente. O período de três semanas treinando sem jogar oficialmente, por exemplo, poderia ter gerado dúvidas, mas ele afirma que a equipe estava apenas ansiosa para competir novamente, confiante na sinergia construída.

Essa confiança parece ser o outro pilar. Ele mencionou que mesmo em um jogo onde não estavam no seu melhor potencial individual, contra a PARIVISION, conseguiram vencer através de mentalidade e jogo coletivo. Essa resiliência – a capacidade de ganhar mesmo quando não se está brilhando – é muitas vezes o que separa grandes times de lendas duradouras.

E essa mentalidade coletiva não surge do nada, é claro. É cultivada. Em conversas paralelas com outros membros da organização, fica claro que há um esforço consciente para criar um ambiente onde o ego fique na porta. O treinador, os analistas – todos trabalham para reforçar que cada vitória é um esforço de dez, quinze pessoas, não apenas dos cinco na server. ZywOo, como a estrela máxima, poderia facilmente exigir um sistema ao seu redor, mas ele parece genuinamente mais satisfeito em ser uma peça perfeitamente ajustada de uma máquina maior. É uma escolha rara.

A pressão invisível e o peso da expectativa

Mas vamos ser realistas: carregar o título de "melhor do mundo" deve vir com uma carga psicológica imensa, certo? Todo olhar, toda análise, toda jogada é dissecada. Quando perguntado sobre isso, ZywOo desvia com uma naturalidade que pode ser tanto um sinal de maturidade quanto um mecanismo de defesa bem treinado. "Não penso nisso quando estou jogando", ele insiste. O foco está no próximo round, na próxima partida, no próximo objetivo da equipe.

No entanto, é impossível ignorar o contexto. A Vitality não é apenas mais um time bom; eles são os campeões reinantes, o alvo nas costas de todos os adversários. Cada equipe que os enfrenta traz seu jogo absoluto, tratando a partida como uma final. Isso cria um tipo diferente de fadiga – mental. Vencer quando se é o favorito esmagador traz uma satisfação diferente, mas também um alívio. Perder, por outro lado, é visto como um fracasso monumental. ZywOo e companhia vivem nesse fio da navalha constantemente.

E o que acontece nos bastidores nos dias em que a mira não está afiada ou a estratégia não funciona? Como eles lidam com a frustração interna? Embora ZywOo não tenha detalhado conflitos, sua fala sobre "mentalidade" sugere que há um protocolo. Provavelmente, uma cultura onde críticas são construtivas, direcionadas ao jogo e não à pessoa. Afinal, manter cinco superestrelas alinhadas por tanto tempo sem atritos significativos é, por si só, um feito de gestão de equipe.

O legado em construção: mais que títulos, uma identidade

Olhando para o futuro, a pergunta que fica é: o que a Vitality, nesta encarnação, quer deixar para a história do CS? Eles já têm os troféus. Têm o melhor jogador. Mas ZywOo parece apontar para algo mais intangível. A busca por uma "era". Não apenas um ano bom, mas um domínio sustentado que redefina o que é possível para uma equipe europeia.

Há um paralelo interessante com times lendários do passado. Alguns eram conhecidos por seu jogo agressivo e individualista, outros por táticas meticulosas. A Vitality, pela descrição de seu principal jogador, está construindo uma identidade baseada na confiabilidade coletiva. É um estilo que pode ser menos espetacular momento a momento, mas brutalmente eficaz no longo prazo. Eles não precisam de um herói a cada mapa; precisam que cinco jogadores executem um plano com precisão de 90% ou mais. Quando um falha, outros três estão lá para cobrir.

Isso nos leva a um ponto crucial sobre sustentabilidade. Jogadores cansam. Metas mudam. A fome de vitória pode diminuir. Como você mantém a chama acesa depois de ganhar tudo? A resposta de ZywOo, implícita, é que você não olha para o que já ganhou. Você olha para o próximo torneio como se fosse o primeiro, com a mesma fome, o mesmo respeito pelo adversário. É uma reinvenção constante. O sucesso do ano passado não garante nada para amanhã – essa parece ser a máxima que os guia.

E o cenário competitivo não para. Novos times surgem, táticas evoluem, a meta se move. A G2, a FaZe, a Natus Vincere – todas estão se reconstruindo com a Vitality em mente. O que ZywOo e sua equipe fazem agora, nesse momento de auge, pode definir os próximos dois anos. Eles podem solidificar uma dinastia ou se tornar um pico memorável, mas passageiro. A diferença, acredito, está justamente nessa abordagem de "time primeiro". Dinastias são construídas por sistemas, não por indivíduos, por mais brilhantes que sejam.

Então, o que vem a seguir? O caminho até o Major de Copenhagen, claro. Mas também a pressão silenciosa de provar que 2023 não foi um acaso. Cada vitória em Rotterdam, cada clutch, cada chamada de equipe perfeita é um tijolo nessa construção. ZywOo pode dizer que não pensa no legado, apenas nos troféus. Mas talvez, sem perceber, ele esteja descrevendo exatamente como um legado duradouro é forjado: não através de uma obsessão com a história que será escrita, mas com uma dedicação absoluta ao trabalho que precisa ser feito hoje, em conjunto, com humildade e fome intactas. O resto, como ele diz, "a gente vai ver o que vai acontecer".



Fonte: Dust2