A estreia da EDward Gaming no VALORANT Champions 2025 em Paris não foi como os fãs esperavam. Diante da NRG, a equipe chinesa, atual campeã mundial, sofreu uma virada impressionante no mapa Abyss e acabou derrotada por 2-0. Mas, longe de parecer abatido, o astro KangKang (ZmjjKK) demonstrou uma serenidade notável em entrevista pós-jogo. Para ele, a pressão de defender o título não é um fardo, mas sim um lugar onde ele se sente em casa.

ZmjjKK, jogador da EDward Gaming, durante entrevista no VALORANT Champions 2025 em Paris

Uma derrota que ensina mais do que machuca

Liderar por 10-2 e depois ver a vitória escapar. Foi o que aconteceu com a EDG no seu mapa escolhido, Abyss. Uma partida que parecia encaminhada se transformou em um pesadelo tático, com a NRG encontrando brechas e virando o jogo. Você já passou por algo assim? A sensação é de que o chão some.

ZmjjKK, no entanto, enxerga a situação com os olhos de quem já esteve no topo. Em vez de procurar culpados, ele foca nos ajustes. "Acho que talvez tenhamos jogado bem no mapa, mas não tínhamos muita preparação. Precisamos ajustar alguns detalhes", analisou, com uma frieza que impressiona para um jogador de 21 anos. Curiosamente, Abyss é um mapa com significado especial para a EDG – foi nele que levantaram a taça do Champions 2024. Sua volta ao pool de mapas foi recebida com entusiasmo pela equipe, mas a primeira experiência em Paris mostrou que a memória muscular do ano passado não é suficiente.

Sob os holofotes: onde a pressão vira combustível

É difícil imaginar o peso que carrega um MVP de um campeonato mundial. Todos os olhos estão sobre você, cada movimento é dissecado, e a expectativa por um bi-campeonato é esmagadora. A maioria dos jogadores falaria sobre o fardo. ZmjjKK? Ele fala sobre prazer.

"Deve vir com alguma pressão, mas, para mim individualmente, eu realmente gosto de estar sob os holofotes. Então, sofremos com a pressão, mas eu também a aprecio". Essa declaração revela muito sobre a mentalidade que o levou ao topo. Enquanto muitos enxergam a atenção como algo a ser evitado, ele a abraça como parte do espetáculo. É uma postura rara, quase de um artista no palco.

E talvez seja essa a chave. Após ficar de fora do Masters de Toronto e ter um desempenho abaixo do esperado na liga chinesa, a EDG chegou a Paris como a terceira seed da China. ZmjjKK nem sequer se vê como o "campeão defensor". Para ele, o foco é um jogo de cada vez, um round de cada vez. O sonho do bi é real, mas está distante. "Antes da partida, eu não me importo se posso pegar o troféu do Champions. A única coisa que me importa é como performar bem no nosso próximo confronto".

Evolução pessoal e a busca por um legado

Um ano no VALORANT é uma eternidade. Agentes novos, mapas diferentes, metas sempre mudando. Ficar parado é regredir. ZmjjKK sabe disso e investiu pesado em sua evolução individual. Se antes era sinônimo de Raze e Jett agressivas, agora ele domina um agente muito mais cerebral e traiçoeiro: o Yoru.

"Acho que, individualmente, eu melhorei, especialmente no Yoru. Eu não conseguia jogar com ele antes, mas agora posso jogar muito melhor". A adaptação é um sinal de maturidade. Um duelista puro pode carregar jogos, mas um jogador versátil carrega equipes em campeonatos. Ele admite, porém, que não conseguiu mostrar todo seu repertório contra a NRG. Há mais na manga.

E sobre ser considerado o melhor duelista do mundo? Ele dispensa o ranking. "Acho que sou um dos melhores duelistas. Não quero ficar em primeiro ou segundo. Para mim, eu só quero jogar em um alto nível. E toda vez que as pessoas pensarem em mim, que pensem: 'KangKang é um dos melhores duelistas deste mundo'". Não é sobre um número em uma lista; é sobre marcar seu nome na história do jogo.

O próximo desafio já está definido: Team Liquid, na primeira partida eliminatória do Grupo C. Uma equipe terá sua jornada em Paris interrompida precocemente. ZmjjKK não demonstra preocupação com o adversário. "Eu realmente não me importo contra quem vamos jogar. Só quero focar em nós mesmos, jogar o nosso jogo". É uma filosofia simples, mas poderosa. Em um cenário onde todos analisam cada detalhe do oponente, ele acredita que a chave está em aperfeiçoar a si mesmo e à sua equipe. A estrada para defender o título ficou mais íngreme, mas o campeão parece pronto para a escalada.

E essa mentalidade, na verdade, é um reflexo de como a EDG opera como um todo. Conversando com outros membros da equipe, você percebe que há uma cultura de autocrítica muito forte, mas sem o drama que costuma acompanhar derrotas em alto nível. Eles não estão ali para culpar o meta, o mapa ou a sorte do dia. Estão ali para entender. É quase como se cada revés fosse um capítulo de um livro maior que estão escrevendo – e, convenhamos, a história deles já tem capítulos gloriosos.

Falando em Team Liquid, o próximo adversário, a dinâmica é fascinante. Enquanto a EDG chega de uma derrota que acendeu alertas, o Liquid vem de uma vitória convincente. Será que a pressão muda de lado agora? ZmjjKK parece achar que não. "A pressão é constante para quem quer vencer. Não importa se você venceu ou perdeu a última. O que importa é a próxima." É uma forma de nivelar o campo emocional, de transformar cada partida em uma entidade isolada. Difícil de fazer, mas eficaz quando se consegue.

O ecossistema chinês e o peso da expectativa nacional

Outra camada de pressão que poucos ocidentais compreendem totalmente vem de casa. O VALORANT explodiu na China, e a EDG não é apenas uma equipe de esports; é um símbolo nacional. A torcida é massiva, apaixonada e... exigente. Após o título mundial de 2024, a expectativa por dominância é absoluta. Cada tropeço na VCT China foi amplificado. Cada ausência em um palco internacional, como no Masters, foi sentida como uma decepção coletiva.

ZmjjKK e seus companheiros carregam isso nos ombros. Mas, curiosamente, ele raramente menciona esse aspecto. Seria uma forma de proteção psicológica? Talvez. Ou talvez seja um foco deliberado no microcosmo da equipe, criando uma bolha onde apenas o que acontece dentro do jogo e do time importa. "Nós temos nossos objetivos, nossa comunicação. O barulho de fora... você aprende a filtrar." Simples de dizer, um desafio hercúleo de praticar quando milhões de pessoas comentam cada sua jogada nas redes sociais.

E o que essa derrota inicial significa para o cenário competitivo chinês como um todo? Outras equipes da região, como a FPX, estão de olho. Há uma hierarquia a ser mantida, ou contestada, mesmo em solo internacional. A performance da EDG em Paris pode ditar o tom para toda uma região que ainda busca consolidar sua hegemonia no VALORANT. É um peso extra, mas também uma fonte de orgulho. Representar bem a China parece ser um motivador silencioso, mas poderoso, para todos eles.

Os ajustes técnicos: o que realmente falhou no Abyss?

Voltando ao jogo em si, é tentador atribuir a virada da NRG a um "clutch" ou a momentos individuais de brilho. Mas, em nível profissional, derrotas assim raramente são apenas sobre isso. ZmjjKK foi vago sobre os "detalhes" que precisam ser ajustados, mas uma análise mais técnica permite alguns palpites.

Abyss é um mapa com rotas de flanqueamento longas e um mid extremamente perigoso. A EDG construiu sua vantagem inicial com um controle agressivo e coordenado desses espaços. A NRG, então, parece ter feito dois ajustes cruciais: primeiro, desacelerou o ritmo, evitando confrontos diretos nos momentos que a EDG ditava. Segundo, passou a usar utilidades de forma muito mais eficiente para limpar cantos e controlar os mesmos corredores que a EDG dominava. Foi uma aula de adaptação mid-game.

Onde a EDG pode ter falhado? Talvez na rigidez. Quando uma estratégia funciona tão bem no início, há uma tendência natural de acreditar que continuará funcionando. A NRG quebrou o script, e a EDG pode ter demorado um ou dois rounds cruciais para reescrevê-lo. ZmjjKK, como principal duelista e frequentemente o iniciador de jogadas, deve ter sentido na pele essa mudança de dinâmica. Sua morte em momentos-chave, tentando forçar jogadas que não estavam mais lá, foi um sintoma claro. A pergunta agora é: a equipe consegue ser mais fluida e menos previsível contra o Liquid?

E o Yoru dele? Foi usado, mas sem o impacto devastador que vimos em outras partidas. Será que a NRG tinha um anti-strat específico para isso? Ou foi apenas um dia off para o agente? ZmjjKK insinua que tem mais para mostrar, e isso deve deixar qualquer adversário preocupado. Um jogador perigoso é aquele que tem um trunfo não utilizado.

A sala de situação da EDG nesta noite em Paris, com certeza, não foi um lugar de lamentação. Provavelmente foi um laboratório. Reviram os VODs, identificaram os momentos de ruptura, discutiram comunicações. O técnico Mustache (Afeng) é conhecido por sua mente analítica e por manter a calma em situações de pressão. Sua voz, junto com a serenidade de ZmjjKK, deve criar um ambiente onde o erro é visto como informação, não como fracasso.

E assim, o caminho segue. A arena em Paris se prepara para o próximo capítulo. A multidão, que vibrou com cada round da NRG, agora se pergunta se testemunhará a resiliência de um campeão ou o início de uma queda precoce. Do lado de fora, a cidade luz brilha, indiferente aos dramas digitais que se desenrolam em seus estúdios. Mas para ZmjjKK e a EDG, dentro daquela bolha competitiva, o mundo se resume ao próximo mapa, ao próximo round, ao próximo duelo. Tudo o mais é ruído. E ele, como deixou claro, aprendeu a não apenas tolerar o som dos holofotes, mas a compor sua própria trilha sonora com ele.



Fonte: THESPIKE